Não me cansa… às vezes, cansa… a velha comoção que se alastra nas manhãs de outono quando um casarão de azulejos portuários vem ao chão. O rumor corre os grupos de vizinhança, os jornais dedicam-lhe um obituário sentido, os intelectuais da cidade pronunciam-se com a melancolia de quem perdeu o último exemplar de uma espécie rara. Todos lamentam a morte da matéria que outrora abrigou o barão do café, o senador do Império, o grande comissário de escravizados. E, contudo, essa mesma cidade, essa mesma gente, assiste impassível ao apagamento cotidiano das pequenas moradias de porta-e-janela, das capelinhas rurais erguidas por mãos anônimas, das vilas operárias que se desmancham sem um suspiro de protesto.
Por que choramos os palácios e esquecemos as taperas, as casas pequenas? A pergunta não é apenas retórica. Ela toca a medula mesma da nossa relação com o patrimônio material e, mais fundo ainda, com a memória coletiva.
Maurice Halbwachs, nos seus escritos sobre a memória coletiva, já advertia que a lembrança não é um depósito neutro do passado, mas uma construção social que se apoia em “quadros”: objetos, datas, monumentos que a sociedade escolhe preservar.
Ora, quais são os quadros que a sociedade brasileira elegeu como dignos de preservação?
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Os grandes sobrados coloniais, as igrejas barrocas recobertas de ouro, os palacetes ecléticos da Primeira República. Todos eles, é certo, possuem valor estético e histórico inegável. Mas são também, quase sem exceção, a morada física do poder escravocrata, a materialização arquitetônica da violência que fundou este país. Como observam Danielle, Ivie, Letícia e Maria Laura em seu artigo sobre o patrimônio negro invisibilizado: “o discurso histórico positivo de enaltecimento do branco, português cristão, fundamentou as ações preservacionistas”, condenando à invisibilidade os legados indígena e negro.
Essa seleção não é inocente.
Pierre Nora, ao cunhar a noção de “lugares de memória”, mostrou que os grupos hegemônicos produzem os marcos que desejam eternizar, ao passo que as memórias dissonantes são empurradas para debaixo do tapete da história. É aqui que entram as “memórias subterrâneas” de Michael Pollak, aquelas lembranças que, por pertencerem a grupos marginalizados, “são historicamente silenciadas, deturpadas e excluídas dos registros oficiais”. O casarão do barão é um lugar de memória oficial; a morada do liberto, a senzala disfarçada de quartinho de fundos, a capela onde se rezava em nagô, são memórias subterrâneas. O primeiro recebe placa de tombamento. As segundas, pequenas, recebem a picareta.(Foto: Emmanuel Nicolas Jr/Pexels)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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