A pessoa AMADA, parceria, devaneios e desencontros

pessoa amada

Amar nunca foi simples. E talvez nunca devesse ser. Há uma narrativa confortável — e profundamente enganosa — que insiste em dizer que a pessoa amada é abrigo constante, resposta definitiva, certeza permanente. Como se o amor fosse um lugar onde não chove. Mas quem ama de verdade sabe: amar é também aprender a atravessar tempestades sem a garantia de céu limpo do outro lado.

A pessoa amada não chega inteira. Chega humana. Traz histórias, silêncios, medos, manias, feridas que não cicatrizaram direito. E nós, igualmente imperfeitos, fazemos o mesmo. O encontro não é de metades que se completam — é de inteiros que se chocam, se ajustam, se estranham e, quando há coragem suficiente, permanecem.

Parceria não é concordância plena. É permanência consciente. É escolher ficar mesmo quando o outro não corresponde ao ideal que criamos. Porque todo amor começa em devaneio. Idealizamos gestos, palavras, reações. Projetamos futuros que ainda não existem. Criamos versões do outro que só sobrevivem enquanto a realidade não bate à porta. Mas ela sempre bate. E quando bate, costuma doer.

Dói perceber que a pessoa amada não entende tudo. Dói aceitar que nem sempre será colo. Dói reconhecer que haverá dias de distância, mesmo na proximidade física. É nesse ponto que muitos desistem, confundindo desencontro com fracasso. Como se amar fosse acertar sempre. Como se a ausência momentânea de sintonia anulasse tudo o que foi construído.

Mas os desencontros não são o oposto do amor. São parte dele. Eles revelam limites, expõem diferenças, obrigam ao diálogo — ou ao silêncio necessário. Mostram que duas histórias não caminham no mesmo ritmo o tempo todo. E que isso não precisa significar ruptura, mas aprendizado.

Todos sofremos nos vínculos. Por excesso ou por falta. Por expectativas frustradas ou por palavras não ditas. E essa dor, quando vista de fora, quase sempre parece exagerada. “É só uma relação”, dizem. “É só uma fase”, aconselham. Como se o amor não atravessasse a identidade. Como se não tocasse o que há de mais sensível em nós.

A dor do outro no amor é sempre incompreensível para quem não a sente. Porque não é apenas a dor do que aconteceu, mas do que se sonhou. Do que se projetou. Do que se acreditou possível.

Ainda assim, seguimos amando. Porque amar também é alegria. Uma alegria discreta, cotidiana, muitas vezes silenciosa. É alegria reconhecer-se visto, mesmo nas imperfeições. É alegria compartilhar pequenas conquistas, dividir o peso dos dias, rir do que antes doía. É alegria perceber que alguém permanece — não porque precisa, mas porque escolhe.

Ser quem se é dentro de uma relação dói. Mas também fortalece. Dói porque exige autenticidade. Porque obriga a mostrar fragilidades que preferiríamos esconder. Porque coloca em risco a imagem ideal que tentamos sustentar. Mas fortalece porque ensina que não há vínculo verdadeiro sem verdade.

A parceria real não elimina a dor. Ela a atravessa junto. Não promete ausência de conflito, mas presença no conflito. Não garante entendimento imediato, mas disposição para tentar. Não assegura permanência eterna, mas honestidade enquanto dura.

E isso já é muito.

Vivemos tempos apressados, que romantizam começos e descartam processos. Celebramos o encanto inicial, mas fugimos do trabalho afetivo. Queremos intensidade sem responsabilidade, prazer sem frustração, amor sem dor.

Mas o amor que não dói nunca, raramente transforma. Os desencontros, quando vividos com maturidade, ensinam limites. Os devaneios, quando revistos com cuidado, ensinam realidade. A parceria, quando construída com respeito, ensina permanência possível — mesmo que não definitiva.

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Tudo fortalece quando não negamos o que sentimos. Tudo fortalece quando a dor não vira arma. Tudo fortalece quando a alegria não vira obrigação. Talvez amar seja isso: sustentar o paradoxo. Aceitar que o mesmo vínculo que acolhe também fere. Que a mesma pessoa que conforta também frustra. E que, ainda assim, há crescimento no atravessamento.

Porque no fim, todos sabemos — mesmo que não admitamos — a alegria e a dor de ser quem somos, inclusive no amor. E talvez seja justamente isso que nos torne capazes de vínculos mais humanos, menos idealizados, mais verdadeiros.

Amar não nos poupa do sofrimento. Mas pode nos ensinar a sofrer com menos solidão. E se isso não é fortalecimento, talvez não saibamos mais o que é.(Foto: Alex Green/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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