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Um PIQUENIQUE para celebrar a diversidade nas uniões

No próximo dia 4, a Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas, a ABRAFH, em parceria com a Assessoria de Políticas para a Diversidade Sexual da Prefeitura de Jundiaí, realizará o 2º Piquenique da Diversidade. O evento será no Jardim Botânico, a partir das 10 horas. Cada família deverá levar alimento e bebida para socializar com todos os presentes. Na foto acima, tirada no dia 7 de maio de 2017, mostra várias famílias celebrando o Dia da Igualdade Familiar. No total eram 121 pessoas. A festa foi no Rio de Janeiro.

O historiador e professor Felipe Pinheiro (ao lado) casado há oito anos, é membro articulador na região de Jundiaí e diretor da regional Sul da ABRAFH. Atualmente também é o presidente estadual do PDT Diversidade SP, onde apresenta as demandas da população LGBT na política partidária “de forma propositiva e com muito diálogo”, explica. Ele e o companheiro moram em Jundiaí há três anos e são pais de Lulia, Laura, Lilica e Lola, quatro cães da raça Lhasa Apso.

Felipe Pinheiro conversou com o Jundiaí Agora sobre a vida dos casais homotransafetivas da cidade e do restante do país:

Quantas famílias homotransafetivas existem oficialmente em Jundiaí?

Infelizmente ainda não é possível quantificar este número de famílias na cidade e até mesmo no país, uma vez que o próprio IBGE introduziu muito recentemente (se não me falha a memória em 2014), a pergunta sobre orientação sexual em seu censo. A estimativa do próprio órgão é que a comunidade LGBTT (Lésbicas, Gays, Bisexuais, Travestis e Transexuais) são cerca de 60 mil famílias. Por outro lado, a ONU estima que a comunidade LGBTT representa 10% da população mundial.

Não pensam em uma forma de quantificar esta população?

Estamos estudando em parceria com a Assessoria de Políticas para a Diversidade Sexual da Prefeitura de Jundiaí uma forma de realizar uma espécie de censo municipal, em um trabalho conjunto com outros órgãos.

Qual a definição para uma família homotransafetiva? precisam ser casados e ter filhos?

A definição do conceito de família passou por muitas transformações no último século, e não somos nós (enquanto associação) que definimos o sentimento e pertencimento familiar de nossos associados(as).

Na ABRAFH temos uma variedade de arranjos familiares, como casais com filhos adotivos, outros com filhos gerados via reprodução assistida. Temos também casais com filhos PET´s (o meu caso, risos), assim como casais que não planejam ter filhos. Temos lindos casos de adoção de crianças transgêneras, assim como temos casais onde uma das pessoas é um/a transgenera/o ou uma travesti. Alguns de nossos casais possuem contrato de união estável, outros com registro do casamento civil (conquista recente no judiciário). Enfim, nada diferente de qualquer outra família dita ‘tradicional’. Somos acima de tudo, pessoas comuns, como quaisquer outras. Nossas famílias tem os mesmos dilemas, problemas, preocupações, responsabilidades, alegrias, e tristezas das demais famílias brasileiras… com algumas especificidades é claro (muitas por conta dos preconceitos) devido as nossas orientações sexuais ou de gênero (no caso das famílias com membros transgêneros ou as travestis).

Você trabalha sozinho ou existe uma equipe?

Na região de Jundiaí somos em dois articuladores regionais, eu (que também acumulo funções a nível nacional) e a advogada, Ana Caravellas. Nossa associação existe formalmente há menos de dois anos, e aqui em Jundiaí há poucos meses, então estamos ainda numa fase bem inicial de nossos trabalhos.

Quem forma mais famílias homotransafetivas: casais de homens ou mulheres?

Não há como fazer essa quantificação, mas existe uma evidente maior exposição dos casais homens homossexuais (em minha opinião particular), uma vez que as mulheres lésbicas sofrem duplamente dois fortes preconceitos em nossa sociedade: o machismo e a própria homofobia. Há um forte trabalho em nossa associação de dar voz e visibilidade para as mulheres, que compõe igualitariamente 50% dos cargos em nossa direção e assumem postos de liderança nas coordenadorias estaduais e regionais.

Qual é o perfil destas pessoas em Jundiaí?

Somos muito diversos. Não há um perfil padrão dos associados/as

Ainda sofrem muito preconceito?

O Brasil é o país que mais mata LGBTs. São Paulo é o Estado brasileiro em que o maior número de assassinatos foram registrados no ano passado. Em 2015, 73% de jovens identificados como LGBTs entre 15 e 21 anos, alegaram ter sido agredidos física ou verbalmente em ambiente escolar (pesquisa disponibilizada pela ABGLT). Cerca de 82% das estudantes travestis ou transexuais não terminam o ensino básico. Estudos também apontam que 90% da população das travestis e transexuais no Brasil tem como única fonte de renda e subsistência a prostituição, devido a não abertura de oportunidades no mercado de trabalho formal. Pesquisa norte-americana revela ainda que adolescentes LGBT são cinco vezes mais propensos a tentar suicídio do que os heterossexuais. Todos esses dados são fatores que se materializam exclusivamente por conta da orientação sexual. Por isso não podem se confundidos com casos de crime comum. O que diferencia é justamente a motivação do crime, da evasão escolar, do suicídio e dos relatos de agressão, que é a homotransfobia ou LGBTfobia.

Há casos que vão parar na Justiça ou o jundiaiense está aceitando melhor estas uniões, visto que a cidade é muito conservadora…

As normativas que instituem o contrato de união estável ou o registro civil (casamento) são muito bem delineadas e os cartórios por serem instituições de fé-pública seguem a risca. Evidente que pode ocorrer uma situação pontual de preconceito por parte de um funcionário/a, ou até mesmo despreparo, mas ao menos no Estado de São Paulo, podemos comemorar o fato de serem exceções e não regra.

O que a associação faz? Confraternizações? Auxílio jurídico? Ajuda psicológica?

Sensibilizar a população de um modo geral sobre a questão das famílias homotransafetivas. Orientação e apoio psicológico para escolas e famílias a partir das ações: Implementação de grupos de apoio psicológico para famílias homotransafetivas, a exemplo do que ocorre no Instituto NOOS – RJ. Trata-se de uma troca de experiências, dúvidas e angústias, assistida por profissionais – terapeutas sistêmicos, psicólogos e psiquiatras – para fortalecer as famílias homotransafetivas a tomarem suas decisões com segurança emocional. Isso reflete diretamente no bem-estar da família e das crianças – se os pais e mães têm a segurança de que está tudo bem em sua configuração familiar, a criança também terá mais segurança. Estamos estudando formas de em breve, podermos ajudar as famílias na questão de suporte jurídico, sobretudo as famílias com baixo poder aquisitivo.

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Existe algum trabalho especial em relação às crianças que vivem como estes casais?

Não por conta da orientação sexual dos pais e mães adotivos/as, obviamente. Isso é secundário para elas. As crianças que estão alocadas em abrigos, não estão lá por acaso, são oriundas de famílias desestruturadas por diversos fatores sociais e econômicos sobretudo, e algumas certamente acarretam traumas nessas crianças.

Como explicar que ela tem dois papais ou duas mamães?

Como se explica para criança que ela tem um pai e uma mãe? (risos). Essa foi a resposta do André Lodi, adolescente, gerado por inseminação artificial pelo primeiro casal de lésbicas a realizar esse procedimento no Brasil em entrevista para o programa Altas Horas da TvGlobo. Penso que o André foi muito feliz em sua resposta, pois o princípio é o mesmo, aquilo que for apresentado a ela (criança) naturalmente, será absorvido por ela naturalmente. O preconceito (não apenas de orientação sexual, mas o racismo e o machismo) são resultantes de uma infeliz má influência do meio social, mas que felizmente as nossas crianças, quanto mais novas principalmente, estão em teoria, imunes. O trabalho de adoção com crianças um pouco mais velhas, sempre assessoradas pelas equipes das varas da infância e juventude, que envolve assistentes sociais, psicólogos e corpo jurídico. Os pais ou mães adotivos/as tem um período de aproximação com a criança, tudo para que esse processo ocorra da melhor forma possível para ambos.


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