Quando a disputa POLÍTICA chega ao mercado de trabalho

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Tenho pensado muito sobre como a política entrou de maneira tão intensa nas nossas conversas, nas relações, nas redes sociais e, inevitavelmente, também no ambiente de trabalho. Não estou falando de partido A ou partido B. Nem de direita ou esquerda.

Estou falando de algo muito maior: da forma como as disputas políticas, as decisões econômicas e as diferentes visões de sociedade acabam chegando àquilo que talvez seja uma das partes mais concretas da nossa vida: o trabalho. Porque, no discurso, política pode parecer distante. Mas basta olhar para uma empresa.

Uma decisão sobre impostos pode alterar custos. Uma mudança na legislação pode modificar processos de contratação. Uma política econômica pode influenciar investimentos. O cenário de inflação pode interferir no poder de compra. A confiança ou a falta dela, pode fazer uma empresa investir, contratar, segurar uma expansão ou simplesmente esperar. E, no final dessa cadeia, existe uma pessoa.

Alguém que precisa pagar suas contas, que está tentando conquistar o primeiro emprego. Alguém que quer uma promoção ou alguém que abriu uma empresa. Alguém que emprega dez, cinquenta ou quinhentas pessoas. Ou, talvez, alguém que esteja simplesmente tentando manter seu negócio de pé. É aí que começo a me perguntar: será que conseguimos discutir política sem transformar o outro em inimigo?

Tenho percebido que, muitas vezes, deixamos de conversar sobre ideias e passamos a defender identidades. Se alguém pensa diferente, automaticamente acreditamos que essa pessoa não entende de economia, não entende de trabalho, não entende de sociedade ou, pior, não entende de nada. E isso é extremamente perigoso, principalmente dentro das organizações.

Uma empresa é formada por pessoas que possuem histórias diferentes, valores diferentes, experiências diferentes e, naturalmente, opiniões políticas diferentes. O papel de uma liderança não é o de ‘unificar’ os pensamentos. Deveria ser criar um ambiente em que pessoas diferentes consigam trabalhar juntas em torno de objetivos comuns. E isso exige maturidade. Porque uma coisa é discordar de uma ideia. Outra é desqualificar uma pessoa por pensar diferente.

No mercado de trabalho, essa diferença fica ainda mais evidente. Existe quem defenda maior participação do Estado e quem acredite que menos intervenção favorece o desenvolvimento econômico. Existe quem priorize o aumento de direitos e a proteção ao trabalhador e quem enfatize redução de custos, liberdade econômica e competitividade para as empresas. Existem argumentos, estudos e experiências diferentes para cada uma dessas posições. E talvez o problema esteja justamente quando transformamos uma discussão complexa em uma disputa simples entre “bons” e “maus”.

No mercado de trabalho não funciona assim… uma empresa precisa ser sustentável para continuar empregando. Um trabalhador precisa de remuneração digna para viver. Um empreendedor precisa encontrar condições para investir. Um profissional precisa de qualificação para aumentar seu valor no mercado. E o Estado precisa construir regras que organizem essa relação.

São interesses que, muitas vezes, entram em tensão. Mas também são interesses que dependem uns dos outros. Não existe empresa sem pessoas. Assim como não existe emprego sem atividade econômica. E não existe consumo sem renda. Por isso, uma das grandes competências que precisamos desenvolver, inclusive profissionalmente, é a capacidade de discordar sem romper. Isso vale para qualquer situação ou impasse em nossa vida.

Como profissional que trabalha diariamente com pessoas, vejo que as organizações já enfrentam desafios suficientes: formação de lideranças, retenção de talentos, saúde das equipes, produtividade, qualificação, conflitos, mudanças de comportamento e adaptação a um mercado cada vez mais dinâmico. Não precisamos levar para dentro das empresas uma guerra que já existe do lado de fora. Precisamos levar consciência.

E isso não significa ignorar a política. Pelo contrário. Significa entender que decisões políticas têm consequências econômicas e sociais e que precisamos acompanhar essas discussões com mais responsabilidade. E como fazer isso? Lendo mais. Comparando. Questionando. Buscando fontes diferentes. Entendendo os impactos de uma decisão antes de simplesmente reproduzir uma opinião. Em um ambiente onde se prega tanto a diversidade, talvez uma das maiores diversidades que precisamos aprender a respeitar seja justamente a diversidade de pensamento. Será que não estamos querendo equipes diversas, desde que todos concordem conosco? Será que queremos inovação, desde que a ideia nova confirme aquilo em que já acreditamos? Será que estamos realmente preparados para ouvir uma opinião diferente sem imediatamente tentar provar que estamos certos?

Uma boa liderança não é aquela que elimina as diferenças. É aquela que consegue fazer pessoas diferentes caminharem na mesma direção, mesmo quando não enxergam o caminho exatamente da mesma forma. E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem ocupa uma posição de liderança hoje: não formar seguidores da própria opinião, mas formar pessoas capazes de pensar. Porque pensar exige mais trabalho do que simplesmente escolher um lado.

Exige informação. Exige repertório. Exige escuta. Exige coragem para rever conceitos e, principalmente, humildade para reconhecer que nem sempre temos todas as respostas. No ambiente de trabalho, talvez essa seja uma das maiores riquezas que podemos construir: um espaço onde eu não precise concordar com você para respeitar você. Onde uma conversa difícil não seja automaticamente um conflito.  Onde uma opinião diferente não seja interpretada como uma ameaça.

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E onde a política possa ser discutida como aquilo que ela também é: uma parte da sociedade que influencia nossas vidas, nossas empresas, nossa economia e nosso trabalho, mas que não precisa determinar a qualidade das nossas relações. No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “de que lado você está?”

Talvez seja: “Você consegue conviver, trabalhar e construir com quem está do outro lado?” Porque governos mudam. Cenários econômicos mudam. Ideologias mudam. As discussões políticas mudam. Mas pessoas continuam trabalhando, continuam buscando oportunidades, tentando crescer, pagando contas, liderando equipes, empreendendo e principalmente, continuam precisando umas das outras.

Talvez esteja na hora de entendermos que pensar diferente não precisa nos colocar em lados opostos. Podemos discordar da ideia sem diminuir quem a defende. E, para mim, é justamente aí que começa uma liderança mais madura, uma sociedade mais consciente e um mercado de trabalho mais humano. Afinal, no fim do mês, a ideologia pode até render uma boa discussão. Mas é o contracheque que chega para todos!

ROBERTA PERES

Formada em Gestão de Recursos Humanos, Eneagrama, conhecimento em técnicas de PNL, com carreira desenvolvida em liderança e desenvolvimento humano. 

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