Existe algo que nenhum currículo consegue registrar. Não aparece na descrição do cargo, não está no LinkedIn, não pode ser medido em uma avaliação de desempenho e dificilmente cabe em uma planilha de indicadores. É o brilho nos olhos. Aquele brilho que aparece quando alguém fala sobre o que faz, quando encontra um problema e imediatamente começa a pensar em como resolvê-lo, quando aprende algo novo, quando se sente parte de uma construção ou quando percebe que seu trabalho tem valor para alguém. Não estou falando de viver permanentemente apaixonado pela profissão. Isso seria uma romantização perigosa do trabalho, afinal, todo profissional se cansa. Existem dias difíceis, projetos que frustram, reuniões que poderiam ter sido um e-mail e períodos em que simplesmente precisamos cumprir aquilo que precisa ser feito. O brilho nos olhos não é euforia, é outra coisa.
É a sensação de ainda existir algum sentido naquilo que fazemos. E talvez seja justamente por isso que ele seja tão importante. É possível continuar trabalhando depois que o brilho desaparece, é possível chegar no horário, cumprir metas, responder mensagens, participar de reuniões, entregar relatórios e apresentar bons resultados mesmo quando, por dentro, alguma coisa já se apagou. E essa talvez seja uma das situações mais silenciosas dentro das organizações: o profissional continua ali, mas já não está inteiro. Aos poucos, ele para de perguntar, de sugerir, de se envolver. Para de comemorar pequenas conquistas e passa a fazer somente o necessário na profissão. Não porque necessariamente seja incompetente, descompromissado ou preguiçoso, mas porque, em algum momento, começou a acreditar que não vale mais a pena se importar.
E isso pode acontecer por muitas razões: uma liderança que não escuta, um ambiente onde toda iniciativa encontra resistência, uma cultura que valoriza apenas números e esquece pessoas, a ausência de reconhecimento, a sensação de que esforço e resultado nunca são suficientes, a falta de perspectiva ou, simplesmente, porque aquela pessoa mudou e o lugar onde ela está já não conversa mais com quem ela se tornou.
Nem sempre perdemos o brilho porque deixamos de gostar da profissão. Muitas vezes, perdemos porque passamos tempo demais fazendo sem entender para quê. É curioso como falamos tanto sobre engajamento nas empresas e tão pouco sobre significado. Criamos campanhas, benefícios, metas, premiações, pesquisas de clima e inúmeros mecanismos para tentar manter as pessoas motivadas. Tudo isso tem seu valor. Mas talvez exista uma pergunta anterior a todas elas: “Você ainda se reconhece no trabalho que realiza?”
Porque ninguém sustenta por muito tempo um trabalho que contradiz completamente aquilo em que acredita. Podemos permanecer por necessidade, por responsabilidade, por medo ou por estabilidade. Mas isso pode ser apenas uma forma de permanecer por um período da vida. Afinal, existe uma diferença enorme entre permanecer e pertencer. E liderança, para mim, também passa por perceber essa diferença. Um bom líder não deveria observar apenas quem está entregando. Deveria observar quem está vivo dentro daquilo que faz. Quem ainda tem curiosidade, quem ainda se incomoda, quem ainda propõe, quem ainda olha para um problema e pensa: “Vamos tentar de outro jeito.”
Talvez um dos maiores erros das organizações seja confundir silêncio com maturidade, conformismo com estabilidade e produtividade com saúde profissional. Existem pessoas extremamente produtivas que estão emocionalmente distantes do próprio trabalho. E existem pessoas que talvez ainda não estejam entregando tudo o que poderiam, mas carregam uma vontade genuína de aprender, construir e crescer.
O desafio da liderança é enxergar além do número. É claro que resultado importa. Empresa precisa de resultado. Metas precisam existir. Todavia, não podemos confundir pessoas com máquinas de produção. Existe uma dimensão humana entre aquilo que fazemos e aquilo que somos. E quando essa conexão se rompe, talvez o primeiro sinal não seja uma queda brusca de desempenho, mas o desaparecimento daquele brilho.
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Aquele brilho que antes aparecia quando a pessoa falava da profissão, de um projeto, a vontade de contar uma ideia, orgulho silencioso de fazer parte, disposição de ir além do combinado, não porque alguém mandou, mas porque fazia sentido. Por isso, talvez precisemos nos perguntar: Como estou vivendo o que entrego? Quanto de sentido existe nisso? O que faz meus olhos brilharem profissionalmente? E, principalmente: Se ninguém estivesse me cobrando, eu ainda teria vontade de fazer isso?
Talvez algumas respostas sejam desconfortáveis. Mas, respostas desconfortáveis também podem ser importantes. Elas podem nos mostrar que chegou a hora de mudar. De aprender algo novo. De buscar outro caminho, ou, de reconstruir nossa relação com o trabalho. Quem quem sabe, de reencontrar dentro de nós o motivo pelo qual começamos. Porque nem sempre o caminho é sair, mas, ás vezes, é reconstruir.
O brilho nos olhos não é uma obrigação na profissão. Ninguém precisa estar apaixonado pelo trabalho todos os dias, ele pode ser um sinal de que ainda existe desejo, sentido, curiosidade e presença. E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que podemos fazer não apenas aos profissionais que lideramos, mas a nós mesmos: Ainda existe brilho nos meus olhos por aquilo que estou construindo? Porque resultado mantém uma empresa funcionando, porém, é o sentido que faz as pessoas quererem estar nela.(Foto: Yan Krunkau/Pexels)

ROBERTA PERES
Formada em Gestão de Recursos Humanos, Eneagrama, conhecimento em técnicas de PNL, com carreira desenvolvida em liderança e desenvolvimento humano.
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