Pulou, caiu e virou lenda na REDAÇÃO

REDAÇÃO

Nos meus primeiros meses de vida em redação no quase saudoso Jornal da Cidade, o JC, o ritmo era intenso. Eram três pautas diárias e uma especial para o domingo, mas sempre sobrava um tempinho para um futebol na redação ou para a clássica brincadeira que eu conheço como “unha na mula”. Também chamada como “uma na mula”, “uma mula” e, mais famosa — embora não por mim, kkkkk —, “pular cela”.

A redação do JC era grande. Mesas ao fundo e nas laterais. Ao entrar, à direita havia um armário gigante, verde, e a entrada do laboratório, que mais parecia uma masmorra medieval. Nas sextas-feiras — e foram muitas —, o editor-chefe Alcir de Oliveira fazia a “convocação” dos times, e geralmente a disputa era de meninos contra meninas. A bola? Uma bela escultura feita com fita adesiva e folhas de telex. (Seo Palimércio, almoxarife do jornal, nem podia sonhar com aquele rombo no estoque.)

A disputa era animada. Olésia Marina Silva praticamente era a artilheira e mandava muito nos dribles e nos gols. Até o dia em que o dono do jornal, “seo” Pedro Geraldo Campos, abriu a porta da redação e flagrou a partida. A gente ficou com aquela clássica cara de “fechamento estourado”, ou de quem acabou de levar um furo da concorrência. A bola foi apreendida, veio uma bronca no estilo técnico insatisfeito com a preparação física do elenco e voltamos para as matérias, devidamente datilografadas.

Como jornalista nunca teve muito filtro para medir o perigo. Na sexta-feira seguinte, após o confisco da bola e o cancelamento da Copa Interna do JC, migramos para atividades, digamos, de atletismo avançado para jovens repórteres: a famigerada disputa da unha na mula. Na época eu pesava menos que uma nota de rodapé: eram 58 kg distribuídos em 1,84 m. Saltar por cima do coleguinha era quase uma habilidade olímpica.

Na fila da brincadeira, devidamente curvados para serem pulados, estavam: eu, Alcir de Oliveira, Ronaldo Verdile, Marina e Mônica Tozetto Barros Leite. E a disputa começou. A Mônica foi a última a saltar, e eu era o obstáculo. Não sei até hoje o que aconteceu. Em vez de cair em pé, ela caiu de nádegas no chão. Imaginem a dor. As lágrimas apareceram: na Mô, de dor. Em nós, de tanto rir. Cena digna de alunos da antiga 6ª série do ginásio — afinal, somos de uma geração em que até o boletim era escrito a mão.

Só isso já renderia uma boa crônica relatando o constrangimento dela. Mas dava para piorar. Assim que se recompôs, Mônica comentou que o hoje marido, André Barros Leite, também jornalista, iria buscá-la no jornal. Na época, André estava em trajetória profissional em um veículo grande — acho que era o Correio Popular, em Campinas. Já tinha aquele perfil de quem estava pronto para migrar para a assessoria de comunicação, o que realmente aconteceu pouco tempo depois. Ou seja, o moço era sério, analítico e extremamente profissional.

Com todos esses predicados, Mônica pediu, encarecidamente, que ninguém comentasse a brincadeira e, principalmente, o tombo. Ficou, inclusive, espionando pela janela para que, assim que o noivo aparecesse, pudesse sair imediatamente. Mas o destino, que adora reescrever pauta em cima da hora, resolveu entrar em ação. André chegou e a portaria ligou no ramal do Alcir, que imediatamente autorizou sua entrada.

A porta da redação se abriu. A Mônica, que já era branca, ficou transparente. Correu para guardar as anotações, enfiar a caneta na gaveta, pegar a bolsa e ficar em posição de quem nunca havia participado de nenhuma Olimpíada Redacional. André, muito educado, foi cumprimentando um a um. Alcir ficou por último, com a cara mais lavada do mundo.

Quando Mônica e André já estavam na porta, Alcir solta a pergunta que jamais deveria entrar na edição final:

— Mônica, ainda está com dor?

Sabe aquela cena de Matrix? (Tudo bem, o filme ainda nem existia. Naquela época ainda vivíamos na era dos efeitos especiais de Superman III, com Christopher Reeve.)

Foi exatamente assim. O tempo parou.

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Mônica olhou para trás com um olhar digno de Odete Roitman, daqueles que dispensam legenda, e respondeu, seca:

— Não, Alcir. Nada está doendo.

André olhou sem entender absolutamente nada. Os dois saíram, a porta se fechou e o assunto morreu ali.

Ou quase.

Até hoje não sabemos se a Mônica contou ao André o verdadeiro motivo da dor.

Como toda boa história de redação, essa também terminou sem retranca, sem confirmação oficial e com um mistério que jamais entrou na edição seguinte.

MIGUEL ÉDI GOMES

É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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