Seja GENTIL comigo

seja gentil

Seja gentil comigo. Você não sabe o que carrego. Eu sei que sorrio. Sei que falo com firmeza. Sei que cumpro prazos, que entrego resultados, que aparento estabilidade. Mas você não sabe o que acontece quando a porta se fecha e o silêncio ocupa o espaço que antes era ruído. Você não sabe das batalhas que não viram currículo, das ausências que não aparecem nas fotografias, das culpas que não prescrevem.

Seja gentil comigo. Vivemos tempos de opiniões rápidas e julgamentos ainda mais velozes. Um erro vira rótulo. Uma falha vira identidade. Um tropeço vira sentença. Esquecemos que todo ser humano é maior que seu pior momento — e, às vezes, menor do que a imagem que construiu para sobreviver.

A verdade é que cada um de nós anda pela vida como quem atravessa uma ponte antiga: com cuidado, com medo de que algo ceda. Há quem disfarce o tremor com arrogância. Há quem esconda com ironia. Há quem transforme dor em produtividade, e cansaço em desempenho. Mas ninguém está ileso.

Seja gentil comigo porque eu também estou tentando. Tentando ser melhor do que ontem. Tentando não repetir erros que me assombram. Tentando não descontar no mundo aquilo que o mundo já me descontou. Tentando amar apesar dos desencontros. Tentando acreditar apesar das decepções. Tentando continuar apesar do peso.

A dor não é comparável. Não é mensurável. Não é objeto de disputa. O que para você é detalhe, para mim pode ser ruptura. O que para você é superável, para mim pode ser limite. Não existe régua universal para medir o sofrimento humano — existe experiência. E experiência não se terceiriza.

Seja gentil comigo quando eu me calar demais. Seja gentil comigo quando eu falar demais. Seja gentil comigo quando eu não conseguir explicar o que sinto.

Apenas me sinalize qual destes comportamentos estou repetindo para que eu possa me policiar e ser mais suave, com você e comigo. Todos sabemos a alegria e a dor de ser quem somos. Há dias em que habitamos nossa própria pele com orgulho; há outros em que ela parece pesada demais. Em alguns momentos, somos inteiros. Em outros, somos fragmentos tentando se recompor.

A gentileza não é fraqueza. É maturidade emocional. Não é condescendência. É consciência. Não é romantização da dor. É reconhecimento da complexidade humana.

Talvez o mundo esteja duro demais porque esquecemos que ninguém acorda decidido a fracassar. As pessoas estão tentando — à sua maneira, com seus recursos limitados, com suas histórias mal resolvidas, com seus medos não confessados.

Seja gentil comigo porque eu também posso errar com você. E quando isso acontecer, que haja espaço para diálogo, não para condenação. Que haja pergunta antes de acusação. Que haja escuta antes de sentença.

No fundo, todos nós desejamos a mesma coisa: sermos vistos sem sermos reduzidos. Sermos compreendidos sem sermos invadidos. Sermos acolhidos sem sermos julgados.

Seja gentil comigo — não porque eu seja frágil, mas porque sou humano. E ser humano já é, por si só, uma travessia exigente demais para ser feita sem delicadeza. Se conseguirmos isso — um pouco mais de gentileza, um pouco menos de pressa em julgar — talvez descubramos que não estamos sozinhos em nossas batalhas silenciosas.

Seja gentil comigo também quando eu parecer forte demais. Às vezes, a força é apenas a última camada antes do desmoronamento. Há pessoas que aprenderam cedo que chorar era luxo, que fraquejar era risco, que depender era ameaça. Crescemos acreditando que suportar tudo era virtude — e esquecemos que dividir o peso também é maturidade.

Há cicatrizes que não aparecem porque não sangram mais, mas continuam doendo quando o tempo muda. São memórias, palavras mal ditas, despedidas abruptas, expectativas que nunca encontraram chão. Nem sempre o que nos marca deixa sinal visível. E por isso a gentileza é tão necessária: ela alcança o que o olhar não enxerga.

Seja gentil comigo quando eu estiver cansado de ser resiliente. A palavra virou elogio moderno, mas ninguém pergunta o custo de ser sempre aquele que aguenta. Resistir o tempo todo também esgota. Há dias em que tudo o que alguém precisa não é de um discurso motivacional, mas de um lugar seguro para descansar a armadura.

Nós aprendemos a celebrar conquistas, mas pouco falamos sobre o esforço silencioso de simplesmente continuar. Levantar da cama em determinados dias é ato de coragem. Sorrir em meio ao caos é ato de resistência. Permanecer ético quando o mundo parece negociar valores é ato de integridade rara.

Seja gentil comigo quando eu mudar. Nem toda mudança é incoerência; às vezes, é crescimento. Às vezes, é sobrevivência. Aquilo que fui ontem pode não comportar quem estou tentando me tornar hoje. E esse processo, quase sempre, é desajeitado, imperfeito e cheio de contradições.

Existe uma solidão particular em ser mal interpretado. Quando aquilo que dizemos não é o que o outro escuta, cria-se um abismo pequeno, mas profundo. A gentileza constrói pontes sobre esses abismos. Ela pergunta antes de concluir. Ela escuta antes de reagir. Ela considera antes de rotular.

Seja gentil comigo porque eu também carrego medos que não confesso. Medo de não ser suficiente. Medo de falhar de novo. Medo de perder o que amo. Medo de não dar conta. Por trás de muitas atitudes duras existe apenas insegurança tentando não ser exposta.

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E, sobretudo, seja gentil comigo porque estou aprendendo. Aprendendo a lidar com minhas sombras, a reconhecer minhas limitações, a pedir desculpas quando necessário, a impor limites quando possível. Aprendendo que ser humano não é sobre perfeição, mas sobre responsabilidade afetiva e consciência do impacto que causamos.

Talvez, se nos oferecermos essa gentileza mútua — firme, lúcida, sem ingenuidade — possamos transformar relações que hoje se desgastam pela pressa, pelo orgulho e pela falta de escuta. Gentileza não resolve tudo, mas humaniza tudo. E, às vezes, isso é exatamente o que salva. E talvez, apenas talvez, a vida pese um pouco menos.(Foto: Timur Weber/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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