Aqui não é Shangri-lá. E não somos seres contemplativos

shangri-lá

Gostaria de lembrar que, ao dizer que sinal de positividade não significa ser cego, quis explicitar que pensar positivo, pensar bons efeitos diante das dificuldades atuais e pensar com suavidade, não deve nos levar a deixar de enxergar a realidade a que estamos expostos. E, pensando com clareza ficamos livres de soluções exotéricas e desligadas da realidade, que nos mostra o preço do combustível, a ausência das vacinas e o terrorismo político a que estamos expostos. Ser  positivo não me transforma em um gnomo ou num ser que emite frases de efeito mas não transforma a sociedade em que está inserido. Enxergar, pensar, analisar e propor a diferença irá me cobrar atitudes, comportamentos diferentes e adequados à fluidez da mudança. Não somos seres contemplativos, apesar de podermos contemplar. Entretanto, após a contemplação, é preciso que haja a mobilização para que a situação se refaça e seja mudada. Fora isso, estaremos apenas fingindo viver no Shangri-lá.

Então, é muita sabedoria vagando por espaços vastos. Nem sempre uma sabedoria adequada ou verdadeira, mas sabedoria. Ao considerarmos o folclore, uma das sabedorias populares, podemos incluir as consultas ao Facebook e ao Google, também, como parte delas, visto o estrago que acarretam. Interessante nossa sociedade, tão seletiva e tão mergulhada em crendices e considerações inadequadas, quando não inconsequentes. As redes sociais tornaram-se o Shangri-lá.

A elite do saber, depois de receitar cloroquina parte para a segunda parte de seu aconselhamentos: classificar as vacinas disponíveis e desqualificar a Coronavac, por questões absurdas do tipo: os pesquisadores envolvidos são brasileiros ou, a pior, o insumo é chinês. Até parece que nunca leram as letrinhas da origem dos iPhones, dos notebooks, dos tênis e roupas sintéticas, dos relógios, dos comprimidos, das inúmeras pequenas coisas que utilizamos durante nosso dia. Ou parece que não ouvem ou leem as notícias de nossos pesquisadores, em universidades internacionais de ponta, na direção e coordenação de estudos pioneiros em 100% das áreas. São desconhecimentos que apenas reforçam o “não saber”.

Nossos cientistas são requisitados nos melhores laboratórios do Mundo, chefiam as melhores equipes, representam os mais adiantados grupos de avanços científicos, dirigem hospitais de renome internacional, publicam nas melhores revistas, disputam os melhores e maiores prêmios das academias científicas, compõem parcerias com grandes grupos e lideram equipes de frente em cada espaço pioneiro inusitado. Somos bons para o mundo mas somos pouco para nosso povo: aqui não temos sabedoria, experiência e valor, aqui não sabemos nada, aqui não produzimos nada sério, segundo a avaliação da sociedade brasileira. Parece uma cidade do interior de São Paulo, que eu conheço bem, onde os filhos da terra são desprezados e ignorados. Talvez seja uma sintomatologia nacional que passo a perceber nestes tempos (não que não houvesse percebido antes, mas atualmente está mais evidente e excludente). Coisas de uma Shangri-lá às avessas.

Desde 1950 somos notados por este comportamento, que Nelson Rodrigues deu o nome de “complexo do cachorro vira-lata”. Essa expressão significa, na fala do homem comum, que o brasileiro é um ser com baixa autoestima, tremendo em competições esportivas mundiais, depreciando sua cultura e valorizando, ao máximo, as culturas estrangeiras, negando sua força econômica, subestimando sua inteligência e criatividade e subvertendo seus valores morais nacionais em relação aos valores morais internacionais. Isso nos aponta porque negamos nossos cientistas e nossos avanços médicos e científicos. Esperemos superar esta fase, pois desde 1950 nos arrastamos numa submissão internacional sem tamanho, perdendo espaços e dianteiras em movimentos mundiais.

Enquanto o discurso negacionista avança e a desordem política vai tomando um aspecto fascista e belicoso, a mídia vai fazendo seu papel: informar, desinformar, formatar, desestruturar,organizar, desinstalar, resumir, ocultar. E nesse jogo (porque tudo é um jogo!!!), estamos assistindo a coisas absurdas, tais como essa rusga entre seguidores (seguidores…) do Whindersson Nunes contra os seguidos da famosa (famosa?) Luisa Sonza. A pendenga tomou um ritmo tão alienado que os fãs de Luísa xingam a noiva de Whindersson, que acaba de perder o bebê que nasce de seis meses. Os fãs de Whindersson ameaça Luísa de morte. Isso não é seriado. É fato. É vida real e prova que o Shangri-lá não é aqui…

OUTROS ARTIGOS DE AFONSO MACHADO

SINAL DE POSITIVIDADE

LOUCO É LOUCO…

PISTAS PARA NOSSO DESEMPENHO

Tal acontecimento nos leva a analisar poderes decisórios: que decisão poderão tomar, nas próximas eleições, uma juventude que se envolve numa briga de fãs, incitadas por um ódio disseminado pela rede social? A ideia que temos é de estarmos vivendo duas realidades: a ficcional e esta a que estamos protagonizando. O triste é que alguns personagens não conseguem distinguir um do outro e confundem as atribuições a serem vividas num e noutro Mundo. Tal distinção leva a viver adequadamente no espaço e tempo que vivenciamos nossas realidades e nossos sonhos, porém quando misturamos sensações e emoções, corremos o risco de infringirmos regras sociais, culturais e morais, como exemplificado acima. Entretanto repito a questão: será esta juventude quem fará escolha dos próximos governantes desta Shangri-lá desvirtuada? Essa juventude que não consegue aceitar desafios e derrotas nem se adapta à questões relativas ao íntimo e ao privado, do outro? Tristeza.(Ilustração: hongkongvocab.blogspot.com)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology. Aluno da FATI.

VEJA TAMBÉM:

INCONTINÊNCIA URINÁRIA(PARTE 2): MAIS UM VÍDEO DA GINECOLOGISTA LUCIANE WOOD

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES

PRECISANDO DE BOLSA DE ESTUDOS? O JUNDIAÍ AGORA VAI AJUDAR VOCÊ. É SÓ CLICAR AQUI