O SUTIÃ da vizinha e a vigilância que mora em nós

sutiã

Pega um café, senta aqui comigo. Assopra, porque está quente. Hoje temos peito, sutiã, condomínio e uma descoberta jurídica importante: aparentemente, algumas pessoas acreditam que o desconforto pessoal produz legislação. Uma influenciadora recebeu de uma vizinha uma cesta de café da manhã acompanhada de um sutiã. O problema não era falta de roupa. Era excesso de liberdade. Ela circulava pelo condomínio sem a peça e isso incomodava a vizinha. A resposta veio com elegância suficiente para evitar uma assembleia extraordinária: devolveu o sutiã e mandou junto um tapa-olhos. Confesso que o tapa-olhos quase encerra este artigo sozinho, mas não é sobre lingerie. É sobre vigilância.

Mulheres aprendem muito cedo que seus corpos estão permanentemente em concurso público, embora ninguém tenha informado qual é o edital. Peito demais, peito de menos, decote demais, roupa curta, roupa justa, roupa inadequada para a idade ou corpo considerado inadequado para a roupa. Depois de décadas sendo avaliadas, algumas acabam ocupando um cargo que ninguém deveria desejar: o de fiscal de outra mulher.

E a vaga parece concorrida. É a mulher abordada na academia porque a roupa estaria chamando atenção demais. É aquela que escuta que deveria se cobrir porque o marido de outra está olhando. É quem precisa justificar o short, o decote, o biquíni, o jeito de dançar ou simplesmente sua presença em determinado espaço. Os cenários mudam, mas a lógica permanece curiosamente estável: quando um homem olha, ainda há quem procure uma mulher para responsabilizar pelo olhar dele. É uma engenharia moral eficiente. O homem olha, uma mulher se incomoda e outra recebe a punição. O olhar masculino, convenientemente, sai da ocorrência sem nem ser qualificado.

Mas seria fácil demais transformar essas mulheres nas vilãs da história. É comum ouvirmos que “mulher também é machista”. Talvez seja mais correto dizer que mulheres também reproduzem o machismo. Elas podem repetir comportamentos, julgamentos e regras machistas, mas não inventaram a estrutura que as ensinou. A mesma sociedade que cria meninos ensinando quem pode ocupar, desejar, olhar e julgar também cria meninas ensinando quem deve se preservar, agradar, competir e vigiar. O machismo não educa apenas homens. Ele também ensina mulheres a funcionar dentro de suas regras.

É nesse terreno que cresce a famosa rivalidade feminina. Mulheres não nasceram programadas para competir entre si. Durante gerações foram ensinadas a disputar beleza, juventude, aprovação, atenção masculina, reconhecimento e pertencimento como se houvesse lugar para apenas uma. Depois de construir cuidadosamente essa competição, a sociedade contempla o resultado e, com extraordinária cara de pau, sentencia: “mulher é inimiga de mulher”. O machismo é tão eficiente que nem sempre precisa de um homem presente para funcionar.

A teoria da objetificação ajuda a entender outra parte dessa engrenagem. Quando uma mulher aprende a enxergar o próprio corpo pelo olhar de quem a avalia, passa a monitorá-lo: postura, roupa, peso, envelhecimento, sexualidade. E essa régua, depois de tantos anos apontada para si, pode acabar sendo usada para medir a mulher ao lado. A mulher que aprendeu que não podia pode se incomodar com aquela que descobriu que pode.

Por isso chamar tudo de inveja é confortável demais. Transforma uma construção social complexa em defeito individual feminino e, ironicamente, repete o mesmo mecanismo que deveríamos questionar. Há vigilância corporal, repressão aprendida, misoginia internalizada e uma cultura que ensinou mulheres a administrar não apenas a própria conduta, mas também a das outras. Culpar exclusivamente a mulher que fiscaliza seria repetir o truque: colocar mais uma mulher no banco dos réus enquanto a estrutura sai discretamente pela porta dos fundos.

O Direito também merece entrar no elevador dessa história. A Constituição protege liberdade, intimidade, vida privada e igualdade. Regras de convivência existem, evidentemente, mas desconforto moral não se transforma automaticamente em código de vestimenta feminino. E, só para poupar futuras consultas ao Código Penal, o contorno de um mamilo sob uma blusa não se converte em ato obsceno porque alguém descobriu, para seu espanto, que mulheres têm mamilos.

Quem trabalha com violência de gênero aprende a desconfiar dos controles que chegam educadamente embrulhados para presente. Controle raramente se apresenta dizendo “vim controlar você”. Prefere expressões socialmente mais palatáveis: “é para o seu bem”, “não pega bem”, “você precisa se dar ao respeito”, “use um sutiã”. A embalagem muda. A lógica sobrevive.

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Isso não significa que mulheres devam formar uma irmandade obrigada a concordar com tudo. Discordar é direito. Achar feio também. Sentir desconforto, idem. O problema começa quando alguém acredita que o próprio incômodo lhe concede autoridade sobre o corpo de outra pessoa. Compreender de onde vem esse comportamento não elimina a responsabilidade de quem constrange, mas impede que confundamos quem reproduz a regra com quem construiu o jogo.

A vizinha tentou resolver o próprio desconforto vestindo o corpo de outra mulher e recebeu um tapa-olhos. Parece engraçado até lembrarmos quantas passaram a vida ajustando roupa, postura, voz, comportamento e liberdade para poupar o desconforto alheio. O sutiã nunca foi apenas um sutiã. Era uma velha regra embrulhada com delicadeza: comporte-se de um jeito que me deixe confortável. A cesta voltou. O café da manhã esfriou. O moralismo esquentou e, claro, achou que tinha convite pra almoçar.(Foto: Cottonbro Studio/Pexels) 

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui. 

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