TIA CUSTÓDIA: A entrevista da ex-escravizada que morou na Praça da Bandeira

tia

No dia 24 de fevereiro de 1929, a Revista Sultana publicou uma entrevista com Tia Custódia, figura que vive no imaginário dos jundiaienses com mais idade. Nos últimos anos de vida, ela morou no então Largo Santa Cruz, hoje a Praça da Bandeira, a mesma que viria abrigar a Estação Rodoviária e, posteriormente, o terminal central de ônibus.

O texto da Sultana é um esboço do que conhecemos hoje como entrevista, a publicação clássica das perguntas e respostas. Além da grafia da época, o texto registra exatamente o modo como Tia Custódia se expressava, permitindo ao leitor ‘ouvir’ a voz dela. Isso é uma preciosidade. É quase como se o autor do texto tivesse gravado as falas da mulher.

O título ‘Typos Populares III – Tia Custodia, a escrava’ dá entender que outras duas pessoas já tinham sido entrevistadas e eram tidas como muito conhecidas na época. A publicação é um documento histórico que mostra, através dos olhos de quem enfrentou a escravidão, como foi aquele período sombrio. Por outro lado, Tia Custódia não caiu no esquecimento. Assim com Nhá Lau e outras, ela faz parte da ‘Rota Afro’, onde é relembrada e celebrada. Confira:

TYPOS POPULARES III – Tia Custodia, a escrava

(PARA SULTANA)

Apoiada ao seu inseparavel porretinho, fomos encontrar Tia Custodia, na sua casinha, lá no Largo de Santa Cruz, casinha essa que o coração magnanimo de Nhô Abrão construira e déra para moradia de uma das ultimas sobreviventes dos negros tempos da escravidão.

— Moro aqui, Nhonhô, sosinha. Sosinha, não. (Emendou ella a tempo) Cum Deus tamem…

Contou-nos cousas interessantes e tristes ao mesmo tempo, daquella epocha em que, “por um nadica” — no seu dizer — o soluço do pobre captivo era abafado pela sua voz potente e sonora do chicote implacavel, brandido pela mão do feitor feroz. Entremeando a sua narrativa, arregaçava as vezes as mangas da bluza e mostrando sulcos profundos no braço, dizia:

— “Veja sinhô, estes riscos que aqui estão, são lembranças daquelle tempo; do tempo em que negro não era gente… Apanhei nhonhô, muitas vezes de “taca”, (nome dado ao açoite destinado exclusivamente às mulheres) lá na senzala de Monte Serrate e Sant’Anna. Sinhô Barão tinha um feito marvado, que tudo nois tinha odio nelle… No meu tempo de moça tamem diverti bastante! Tenho sodade das festas do Divino, Semana Santa, Cayapó e muntas outras. Me lembro quando seu Impedô aqui veio. Esse povo p’ra se agradave prelle, mandaro uma commissão preguntá qual era a festa que elle mais gostava. Elle disse que a milhor festa era da Semana Santa. Apresaram logo os preparativos e num abri e fechá de olhos, puzero tudo em orde. Por signá que foi a milhor festa que fizero e assim naquelle anno nois tivemo que assisti duas Semana Santa. Uma no tempo certo e outra dois ou trez mezes depois! Nhonhô, não ouviu falar no largo da Forca? Puis era alli mesmo ao lado da Igreja. Me lembro que o primeiro que extreou foi um preto de nome Cremente. Foi injustamente por causa de um tal Gonçalo, que era munto puchadô de Sinhô. O causo foi assim: Sinhô tinha uma negrinha do porte já de casa e um bello dia ella pareceu em véspera de se mãe. Sinhô fico brabo e quiz saber quem foi o autô. Nois tudo sabia que tinha sido o Gonçalo, mais tanto elle feiz, que ponhou a curpa no pobre do Cremente, que assim pagou o pato. A negrada tuda assistiu a execução; isso elles fizero p’ra exemprá nois. Quando chegou, Nhonhô, o treze de maio, num é bão alembrá. Debaixo daquellas duas arvês alli no Largo de Santa Cruz, nois sambemo treis dia sem pará e mais sambava se não fosse a pulicia mandá pará. Me alembro tamem da Guerra do Lopes e vi munto mocinho bunito sê pegado a laço e escortado p’ro Paraguai. Ih! Nhonhô! Isto aqui no tempo de dante era matto virge. Munto parmito tirei p’ra Sinhô no arto do Anhangabahú, atraiz da Santa Cruz do Torresmo…

Atraz da Santa Cruz do Torresmo?…

Puis Nhonhô num sabe donde é? Santa Cruz do Torresmo ficava lá na Villa Arens, naquelle logar onde tá hoje aquella bunita Igreja… Sabe porque deram esse nome? Um tio velho ‘tava almoçando atraiz da capella muito socegado, cumeno virado de feijão cum torresmo, quano passou por lá um marvado, que p’ra podê robá os torresmo, matô elle c’uma foiçada do arto do pioio, que foi só melado que correu!”

Cansada ella se recolheu e nós tomámos o caminho da cidade satisfeitos com o que ouvimos da bocca da boa e querida preta.

A Revista Sultana foi um dos periódicos mais sofisticados e importantes da história da imprensa de Jundiaí na década de 1920. Era uma publicação quinzenal (por vezes mensal) que circulava entre a elite e a classe média da cidade, servindo como um espelho da vida social, cultural e literária da época. A direção do periódico era de Casimiro Brites Figueiredo.

A Sultana era uma revista de variedades. Ela misturava:

  • Crônicas Literárias: Poemas e textos curtos de autores locais.
  • Vida Social: Colunas sobre casamentos, batizados e bailes nos clubes da época.
  • Humor e Charge: Seções satíricas sobre o cotidiano da cidade.
  • Memória: Seções como onde a história da Tia Custódia foi contada – a “Typos Populares” -, que tentavam registrar figuras pitorescas ou históricas da cidade antes que elas desaparecessem.

O nome “Sultana” era uma homenagem poética à própria cidade. Naquela época, Jundiaí era frequentemente chamada de “Sultana da Mogiana, devido à sua importância estratégica e riqueza como entroncamento ferroviário (entre a São Paulo Railway e a Cia. Mogiana de Estradas de Ferro).

A revista é hoje uma das fontes primárias mais ricas para os historiadores jundiaienses. É através dela que conseguimos evidenciar o cotidiano da cidade em 1929, ano da grande crise econômica mundial, e perceber como Jundiaí se via: uma cidade que queria ser moderna (com as fábricas e a ferrovia), mas que ainda mantinha laços muito fortes com o passado rural e escravocrata (como o relato da Tia Custódia demonstra).

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