UM PASSO POR VEZ pode ser o caminho da vitória…

um passo por vez

Quando falamos na sensibilidade alheia e falamos da dor ou do sofrer, nunca partimos do princípio que nossa dor ou sofrimento são parâmetros ou medidas para aquilatar a do outro. Entretanto, vale repensar em todo contexto de modo que saibamos os limites do respeito ao próximo e do respeito a si, muito esquecido em situações profissionais, visto o fato de que vemos exemplos de médicos, enfermeiros, técnicos de laboratórios, dentistas, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais que se entregam ao trabalho esquecendo-se de si. Lembrar que um passo por vez pode ser o caminho para a vitória.

Evidente fica que a dedicação à profissão seja indispensável e pretendida, mas não ao ponto de se esquecer de si, o que gera um certo desconforto com o passar do tempo; muitos desgastes passam a gerar outros problemas à saúde e em breve temos um quadro de total descontrole. A saúde mental negligenciada é forte indicador de um colapso geral que acometerá desdobramentos.

Apenas ressalto que a dor já comentada anteriormente não se enquadra em nenhum dos casos já divulgados ou sugeridos. A dor, na depressão, é algo que perpassa o físico e o mental: é uma situação tão violenta que paralisa, chega a ser humilhante. Quando o depressivo fala de sua dor, ele está se referindo a um estado de sensação que não consegue verbalizar visto o fato desta dor estar localizada num não-lugar. Com este elemento, descaracterizado mas existente, cabe ao psiquiatra apurar a escuta e ampliar a fala, para captar o máximo de sinais apontados.

E dá-se, então, o início do tratamento medicamentoso e terapêutico; unir a terapia aos medicamentos é algo que produz um realinhamento favorável à recuperação lenta e contínua. Sim, lenta. Muito lenta, aliás, porque o fato dos lapsos serem cíclicos, a cada novo gatilho temos um novo evento que atenderá pelo desenvolvimento do choro, da risada (quando não, da gargalhada), do silêncio, da inércia, da euforia, enfim, de sintomas descontrolados mas genuínos. Impossível não garantir credibilidade para tamanho vulcão de propostas emocionais.

Mais ainda: são sintomas ou eventos que não escolhem local, companhia e horário para se fazerem presentes. Basta que o gatilho tenha sido acionado e, descuidadamente o paciente se perde em sua segurança tênue e se transforma num personagem de cenário de horror, sem hora para concluir aquele quadro. A segurança emocional perde seu limite e a resistência se esfacela, reduzindo tudo em choro, aflição e medo. Perceptível, dolorido e patético, pois é incontrolável e não planejado, sem hora para iniciar nem tempo para terminar.

Interessante ter sempre uma pessoa (ou mais) que possam ouvir o depressivo; a sensação de leveza é facilitada ao falar, ao contar sua dor, sua aflição, sua agonia. A solidão é um dos muitos sintomas da depressão e tem outras implicações para a saúde destes pacientes; conhecer as relações sociais e os sentimentos das pessoas ajuda a entender as reais circunstâncias em que os pacientes vivem e obter pistas sobre sua saúde futura. Informações preciosas para os bons médicos e bons terapeutas.

Hoje mesmo podemos nosquestionar se tem alguém disponível para nos ouvir de forma solidária e fraterna, sem se mostrar enfadado com nossa conversa insonsa. Essa ação simples coloca o processo em movimento para que tenhamos mais chances de recuperar e manter a saúde cerebral por mais tempo e com a melhor qualidade de vida. Nem sempre os médicos e terapeutas perguntam aos seus pacientes se eles podem contar com alguém disposto a ouvi-los quando precisarem falar. Como, também, não é sempre que percebemos não ter esse ouvido ao nosso alcance.

Hoje vivemos rodeados de pessoas que “caminham” conosco mas não compartilham de nossas vidas; traçamos vidas solos, ainda que inseridos em grupos unidos e coesos: esta coesão não é profunda e essas amizades são apenas companhias. Encontrar um bom ouvinte é privilégio em um mundo de intenso vozerio e movimentação frenética. Todos acham que têm algo urgente a dizer, mas poucos aceitam escutar sem fazer julgamentos apressados ou emitir ordens reorganizadoras para a vida alheia. Qual o valor dos raros ouvidos atentos e solidários?

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Então, ter alguém disposto a nos ouvir, em momentos tensos, quando necessitamos compartilhar nossas fragilidades e nossos sentimentos revoltos contribui para o aumento de nossa robustez afetivo-cognitiva. Precisamos de ouvidos que nos ouçam e de braços que nos acolham. Felizmente encontrei (ou reencontrei) quem caminhasse comigo nesse momento; amigos presentes, amigos distantes e amigos invisíveis me ajudam a conduzir o processo de cura, junto com os profissionais da saúde mental, a que me submeti, e uma Fé que me acompanha e alimenta. Sinto que em breve estarei rindo disso tudo, com o devido respeito que a situação pede.

O retorno ao cuidado físico, com atividades bem programadas e executadas aliadas ao sono restaurador e ao auto diálogo colocam-me em situação de zelo pela minha Vida, com critérios antes pouco observados. Não tenho lido, nem tenho estudado, ao menos me prendo diante da TV (ainda não consigo me concentrar nesse nível), mas tenho dançado muito, caminhado bastante, dormido demasiadamente e me dado o direito de ser feliz com as pequenas, mas sensíveis, melhoras. Estou me redescobrindo. Mas estou bem melhor e mais consciente de minha existência. É o que basta.(Foto: cena clipe ‘Ho Capito Che Ti Amo/Luigi Tenco/1964)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology. Aluno da FATI.

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