VÍCIO no mundo digital: Total semelhança com outras drogas

vício

Como dito na crônica anterior, o mundo digital é viciante, ainda que relutemos e não aceitemos a proposta. Entretanto, muitos dos aspectos relativos ao vício em substância se assemelham ao vício comportamental do uso do celular. Vejamos: existe a ativação das mesmas regiões cerebrais que envolvem o apoio social e as relações humanas, há estímulos mentais e sensações de efetividade. Vício é vício, seja ele qual for e existe uma total semelhança, entre eles.

Quando privamos as pessoas dessas necessidades, percebemos a propensão a desenvolver dependências, chegando a apresentar sintomas de fissura, pela ausência ou da substância ou do comportamento de uso do celular. Basta lembrarmos o dia em que o Facebook ficou “bugado” para termos ideia da dependência tecnológica.

Estudos apontam que o vício comportamental – esse do celular, por exemplo -, é composto por seis marcadores que reforçam a dependência: possibilitam uma sensação de progresso, melhoria e pertencimento; é elaborado com metas atrativas e instigantes; promove uma apaixonante sensação de progresso com o uso; favorecem fortes ligações sociais e a dificuldade das tarefas vai num crescente, cativando o usuário, pelo desafio de vencê-las. Tais marcadores, num grupo de quatro destes seis, são suficientes para aprisionar o usuário numa maratona ferrenha.

Percebamos que os gamers se colocam a jogar continuamente e obstinadamente, sem perceberem estar tomados pelo objetivo de avançar no jogo. Essa imersão é compulsiva e frenética; criam laços sociais e afetivos com os parceiros e adversários, tornando-se um verdadeiro avatar. Em algumas redes sociais, a postagem de fotos e as curtidas se tornam rituais que mobilizam seguidores e gangues de parceiros que validam cada nova postagem, incessantemente. Seguidamente. Viciantemente.

Talvez a questão esteja em como solucionar este comportamento que coexiste dentro dos nossos padrões de vida pública e social. Basta que notemos que avaliamos nosso celular tempo a tempo, sempre esperando uma mensagem, uma curtida ou uma nova amizade, ainda que virtual. Ai está o vício. Ai está a cilada. Milhares de viciados em droga conseguem se afastar do traficante ou da “biqueira”, mas o viciado no celular e nas redes sociais vive colado ao seu celular, porque depende dele para seu trabalho.

Percebamos que, enquanto as drogas são mal vistas nos segmentos sociais, a tecnologia é aceita como algo benéfico e atraente, pela necessidade do homem em se comunicar 24 horas por dia. Inclusive é recomendado e permite seu uso nos empregos, serviços, escolas e demais ramos de negócios da modernidade: não se trabalha, nem se estuda (tão pouco se vive) sem e-mails, sem Whatsapp, em função da velocidade de contato e facilidade de interação. Isto cria a fascinação pelas redes e auxilia a estabelecer o vício pela continuidade.

Vale a pena percebermos por que os vícios pelas redes sociais são tão desenfreados, ainda que em princípio de uso, analisando que o mundo digital é algo onde estamos ainda sendo inseridos e imersos. Desconhecido, apaixonante, necessário e perigoso, tudo junto e misturado, como uma boa droga que nos arrasta e nos domina, deixando com vontade de quero mais e mais e mais.

Percebamos que o celular se transforma numa armadilha obsessiva e anestesiante, por nos imergir no ciberespaço e nos afastar de um conjunto de problemas cotidianos, entediantes e sem cor, sem gosto e sem solução. No espaço virtual tudo é mais atraente, dinâmico e desafiador, de modo que o perdedor não se destrói realmente. O modo “virtual” causa outro tipo de dor e de aprisionamento, que vai se potencializando e intensificando sem que percebamos. De repente estamos na telinha, de novo.

Deve ser claro que obsessão e compulsão são irmãos gêmeos: não se consegue parar de realizar, causa fissura não poder fazer. Isso acontece com as redes e os jogos e os contatinhos. Ainda que digamos que não e, ainda que não reconheçamos. Esse é o outro ingrediente de um comportamento viciante: a negação e a esquiva, percebida nos viciados pelo celular. Ser levado à necessidade que vai além do divertimento ou da ocupação profissional, o vício comportamental se instala passionalmente, controlando seu usuário, com inebriante riqueza de propostas e elementos cativantes e desafiadores que estimulam o uso repetido e continuado. Compulsivo e obsessivo. Mas fortalecedor e apaixonante: por isso é um vício, está além do controle e sua ausência dói e irrita.

Parece que tal paixão faz a vida valer a pena, de modo a se tornar impossível viver sem o celular por perto. Pesquisadores comportamentais informam da alteração de batimentos cardíacos e alterações na respiração, quando se priva do uso ou quando se libera o uso dos celulares, para que se estabeleçam os contatos, sejam eles de que forma forem. As emoções se alteram em cada uma das situações, apontando para os desvios percebidos no uso excessivo, na repreensão pelo uso ou na impossibilidade de ter o celular em mãos. Isto é o vício.

Os vícios preenchem a lacuna existente em nossas vidas: sejam elas relativas à  emoções, ao dinheiro, à companhias, à segurança, ao sexo; os vícios preenchem uma necessidade íntima que nos favorece negligenciar outros aspectos de nossas vidas e valorizar demasiadamente aquilo que no momento nos dá prazer, aumenta nossos limites e nos possibilita estar “no mundo”, ainda que estejamos sentados em nossa maldita poltrona ou banco do carro. O que vale é a sensação de poder e de liberdade.

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Perceber que o mundo digital me aliena, promove o meu afastamento da minha rede de amigos (que estão a espera de uma resposta ou de uma palavra ou abraço), o isolamento dentro de minha família (porque eu me isolo no ciberuniverso), a redimensão de meu espaço vital (porque já não habito apenas neste mundo mas no mundo virtual, também) deveria ser suficiente para a mudança de comportamento.

Entretanto, tratando-se de um comportamento viciante, o que podemos esperar é que este vício do mundo digital traga outros demais vícios que dinamizem meus neurônios e me mantenham afastado da realidade: enquanto estou no cibermundo, estou livre dos problemas reais do meu cotidiano. Resta-me gozar as vitórias, as conquistas, os contatinhos e as imersões na irrealidade que não me cobra responsabilidades e obrigações mais sérias e desagradáveis de realizar. Sim, o mundo virtual é tão viciante quanto qualquer outra droga e sua dependência aproxima deste universo nebuloso que pode destruir lentamente e com pseudo inocência. Como estudiosos apontam, com muita ênfase, o virtual é muito real.(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport

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