Violência contra mulher não começa no TAPA

VIOLÊNCIA

Quando se fala em violência de gênero quase sempre a imagem que surge é a agressão física: o tapa, o soco, o empurrão, o corpo ferido. Mas, e se for um equívoco coletivo acreditar que a violência começa apenas aí? Antes do primeiro golpe, existe um terreno sendo preparado. Um solo cultural e social onde desigualdades são naturalizadas, onde o controle pode ser romantizado e onde a dor feminina — e de outros grupos vulnerabilizados — muitas vezes é relativizada.

A violência de gênero não é, em regra, um desvio isolado de conduta. É um fenômeno estrutural, reconhecido por organismos internacionais e pela própria legislação brasileira ao tratar da prevenção e do enfrentamento das violências contra a mulher. Ela se manifesta quando a mulher é interrompida sistematicamente.

Essa interrupção ocorre quando seu “não” precisa ser explicado. Quando sua autonomia incomoda. Quando seu corpo se torna objeto de julgamento público. Quando sua denúncia é recebida com suspeita. Quando a pergunta deixa de ser “o que aconteceu?” e passa a ser “o que ela fez?”.

No Brasil, milhares de mulheres sofrem violência todos os dias — física, psicológica, moral, patrimonial e sexual -, como reconhece a legislação vigente. As estatísticas são necessárias, mas não suficientes. Elas registram o resultado final. Raramente revelam o processo que o antecede.

Quantas violências foram naturalizadas antes da agressão formalmente reconhecida? Quantas ameaças foram tratadas como “conflitos do casal”? Quantos sinais foram ignorados em nome da manutenção da família, da reputação ou de padrões sociais arraigados? A cultura do silêncio não protege — ela perpetua. A omissão não é neutra. Ela produz efeitos. E a ideia de que a violência de gênero é um “problema privado” dificulta a construção de respostas coletivas eficazes.

Não se trata apenas de relações afetivas. Trata-se de trabalho, política, justiça, mídia, educação e segurança pública. Trata-se de um modelo social que historicamente ensinou mulheres a suportarem, enquanto demorou a responsabilizar comportamentos violentos.

Talvez a pergunta central não seja apenas “por que a violência acontece?” e sim “como ainda toleramos comportamentos que a antecedem?”. Enquanto tratarmos a violência de gênero exclusivamente como um crime a ser punido — e não também como um fenômeno a ser compreendido, prevenido e enfrentado em suas múltiplas dimensões — continuaremos atuando nas consequências, sem enfrentar as causas.

E se o verdadeiro enfrentamento começar justamente onde quase nunca olhamos? Como, por exemplo, no que é dito como brincadeira; naquilo que é tolerado como costume; no que é repetido como tradição.

Entender a violência é só o começo. Depois tem mais…(Foto: Agência Brasil)

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: andreiamelo.casadealices@gmail.com. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.

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