SUSHI GIRL e os perigos da gastronomia jornalística

sushi

Tem gente que fala que não foi com a cara da pessoa, pois o “santo não bateu”. Mas tem gente que chega à vida da gente e ocupa todos os espaços. Assim foi a chegada da jornalista Lilian Akemi Yamada, em 2007, que, carinhosamente — mesmo sem termos criado qualquer intimidade de amizade ou profissional — eu batizei de Sushi Girl. Foi paixão ao primeiro fechamento do jornal interno da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) de Jundiaí.

Quem nos apresentou foi uma amiga em comum, uma antiga paixão de amizade minha, Mônica Gropelo. Ela fazia a assessoria da empresa e contratou a Lilian para colaborar na produção dos textos e eu para fazer a edição gráfica, com a diagramação e editoração. Fizemos esse trabalho em umas duas madrugadas, pois todos trabalhavam em seus respectivos empregos durante o dia. Na primeira madrugada, em casa — eu morava em um sobrado na Rua Várzea Paulista —, elas chegaram, Mônica fez as primeiras apresentações e seguimos com a edição.

E fazer fechamento comigo tem que ter alegria e muito café. E assim seguimos com a paginação, definindo a quantidade de páginas, as editorias e todos os detalhes das legendas e créditos das fotos do fotógrafo Murilo Borçal. No final do nosso expediente, por volta das 5h da matina, a Sushi Girl vira e fala que gostou tanto de mim que me convidaria para ser um dos seus padrinhos de casamento. Eu fiquei passado, igual nota de rodapé nos classificados de um jornal, e, claro, disse sim. E fiz a pergunta:

— E quem é o noivo?

A resposta foi hilária:

— Ainda não tenho nem namorado.

Foi gargalhada a torto e a direito.

Depois desse fechamento, muitos outros freelas nós compartilhamos. Em um deles, ela me indicou para a locução de um vídeo para a festa de 30 anos da Fundação Municipal de Ação Social de Jundiaí (Fumas). Não é muito a minha praia, mas jornalista tem que fazer tudo o que está na área da comunicação. Se bobear, daqui a pouco está fazendo cenário, iluminando estúdio e carregando caixa de som.

Ela me levou para trabalhar no diretório municipal do Partido Verde (PV) e acho que ainda devo ser filiado ao partido, mas nunca atuei. Juro! Nesse trabalho, nós ficamos responsáveis por fazer a conferência dos filiados no bendito portal das trevas chamado Filiaweb, que mais travava do que inseria dados e ainda fez o favor de criar dupla filiação de membros. Estávamos fazendo o trabalho na cozinha da casa dos pais dela já que ela ainda continuava solteira, e, no meio do caos, ela fala:

— Quer pipoca de micro-ondas?

— Claro. Amo pipoca até com a boca anestesiada.

Eu, talvez prevendo algo, soltei:

— Mas você sabe estourar pipoca no micro-ondas?

Ela, surtada, mandou eu ficar quieto — não necessariamente com essa doçura —, pois onde já se viu não saber estourar pipoca, ainda mais com o auxílio do micro-ondas? Seguiu a receita à risca: pegou o pacote, tirou do plástico, mediu a distância das paredes do micro-ondas, fechou a porta e apertou o “play” do eletrodoméstico. Passou um tempinho. A gente ali na luta contra o Filiaweb e começamos a sentir um cheiro que não era de pipoca com manteiga, mas de alguma coisa torrada. Sim, deu ruim.

Olhamos para o micro-ondas e uma fumaça branca — e não era Habemus Papam — saía por todas as frestas da porta do eletrodoméstico. O cheiro de queimado invadiu todos os cômodos da casa. A porta do corredor, que dava acesso aos quartos, estava aberta. De lá saiu o Sushi Pai, o “seo” Tadaki, na postura de bombeiro, pronto para salvar a casa do incêndio que se anunciava.

Mas, ao constatar que se tratava apenas de uma experiência gastronômica que dera errado, foi abrir as janelas, enquanto a gente limpava o micro-ondas em que a Sushi Girl havia queimado a pipoca. Perguntei depois se ela também queimava a água para fazer café, mas fiquei sem resposta.

Passado um tempo, acho que uns dois anos, finalmente ela começou a namorar o Marlon. Paixão conhecida na época do bate-papo do ZAZ, que retornou para aquele presente da vida da Lilian. Foram vários encontros e, no dia da inauguração do Bar Jobim, no complexo Beco Fino, ela oficializou o convite para eu ser seu padrinho de casamento, ao lado da amiga, a jornalista Maria Carolina Arvigo.

Até chegar novembro de 2011, quando ocorreu o casamento, a gente fazia encontros em barzinhos, nas casas, até a noite do caldo que resolvemos fazer na minha residência. Eu fiquei responsável pelo de lentilha, a amiga Vera Engholm fez o de mandioca e a Sushi Girl finalizaria, em casa, o de palmito. Adivinhe qual deu problema? Sim. O de palmito. Não tinha farinha, batata, concreto ou qualquer outra coisa que engrossasse o bendito caldo.

Nesta noite, a gente havia convidado, além do noivo, Marlon, Vera, Samuel Leme da Silva, Valéria Infanti, Carol Arvigo, Djenane Sesti, Valéria Nani e Marcelo Bertola. Para ajudar, pedi a Maizena para o Samuel e ele perguntou se era para fazer simpatia para saber se a Sushi Girl estava grávida. Aí ninguém conseguia pensar direito, pois a gargalhada ultrapassou todos os limites da sanidade gastronômica. Acredito que nem isso iria funcionar.

E foi o Bertola quem salvou a noite — e ficou com o braço direito mais musculoso. Depois de colocar tudo o que poderia engrossar o caldo, até perguntaram se ela tinha usado leite desnatado na base. Bertola colocou mais trigo, muita força e, eis que o trem engrossou. Eu, na zoeira:

— Ligo para a Concremix trazer a betoneira?

Mas não foi preciso. Bertola deu um jeito, mesmo tendo ficado com o braço direito igual ao do Popeye. Depois que, finalmente, o concreto de palmito — digo, o caldo de palmito — chegou ao ponto e nossa fome já tinha estourado o fechamento de uma edição de jornal, fizemos diversas fotos para registrar o momento e celebrar a vida. Porque o povo da comunicação, educação, marketing e música, quando se reúne, não faz encontro. Faz um mega show de absurdos saudáveis e gargalhadas capazes de provocar dor na mandíbula.

Enquanto finalizava este texto e confirmava alguns dados, a Sushi Girl tratou de mostrar que os dotes culinários foram ativados com sucesso.

Mandou uma foto de uma mesa de aniversário da filha Mariah (muito linda mesmo) com a seguinte legenda: “Depois que vira mãe faz até bolo recheado”. Comprovou.

EIA OUTRAS CRÔNICAS DE ÉDI GOMES

E eu, que acompanhei a estreia gastronômica da Sushi Girl com uma pipoca carbonizada e um caldo de palmito que quase precisou de licença da Defesa Civil, só posso dizer: a evolução existe. Ainda bem. Porque amizade boa é assim: começa num fechamento de jornal, atravessa madrugadas, sobrevive ao Filiaweb, passa por uma pipoca em estado de calamidade pública, chega ao casamento e, anos depois, ainda rende histórias. E algumas, felizmente, continuam sendo notícia.

MIGUEL ÉDI GOMES

É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES