Durante anos, a IoT(Internet das Coisas) foi tratada como uma enorme máquina de coletar dados. Sensores mediam temperatura, câmeras registravam imagens, medidores enviavam leituras — e tudo ia para a nuvem, onde algum sistema decidia o que fazer. A pergunta que ficava no ar era simples: IoT e IA conseguem trabalhar juntas? A resposta, hoje, é sim — e o casamento ganhou até nome próprio: AIoT.
A lógica é direta. A IoT funciona como os sentidos de um sistema: ela vê, ouve, sente e mede o mundo físico. A IA funciona como o cérebro: interpreta o que foi sentido, encontra padrões e decide. Separadas, cada uma entrega metade do valor. Juntas, produzem algo novo: máquinas que não apenas registram o que acontece, mas entendem o que está acontecendo.
Até recentemente, esse cérebro ficava quase sempre longe do sensor — em data centers. O dado viajava pela rede, era analisado e a resposta voltava. Funciona bem para muita coisa. Mas não para tudo. Se uma câmera precisa identificar uma pessoa em movimento, ou uma máquina industrial precisa parar em milissegundos antes de um acidente, esperar a viagem de ida e volta até a nuvem é tempo demais.
É aí que o conceito de AIoT fica interessante. A definição mais precisa é: AIoT acontece quando a inteligência artificial roda dentro do próprio dispositivo conectado, e não em um servidor distante. O sensor deixa de ser apenas um repórter e passa a ser também um analista.
Os ganhos são concretos. O primeiro é desempenho: decidir localmente é mais rápido. O segundo é privacidade: se o processamento ocorre no dispositivo, o dado sensível não precisa sair de casa — um alívio em tempos de LGPD. O terceiro é conformidade: setores regulados mantêm os dados sob seu próprio controle. E o quarto é custo: menos tráfego de rede significa menos gasto com conectividade e nuvem.
Nada disso significa que a nuvem perdeu seu lugar. Ela continua sendo o melhor ambiente para análises amplas, que cruzam dados de milhares de dispositivos e de outras fontes. A arquitetura inteligente, portanto, é híbrida: o dispositivo resolve o imediato, a nuvem enxerga o todo.
Os números mostram que esse movimento é real. Segundo a consultoria Transforma Insights, em 2023 apenas 9% dos dispositivos IoT tinham IA embarcada. A projeção é chegar a 23% em 2033 — dentro de um universo que salta de 16 bilhões para 39 bilhões de dispositivos conectados. Em termos absolutos, o mercado de AIoT soma mais de 900 milhões de unidades no período.
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Os desafios acompanham o tamanho da oportunidade. Dispositivos são heterogêneos, cada um com chips, sistemas e restrições próprias. Segurança é crítica: um modelo comprometido pode tomar decisões erradas em escala. E gerenciar milhares de modelos distribuídos é uma disciplina nova, sem manual pronto. O mercado de chips reflete isso — em vez de um padrão único, surge uma fragmentação de soluções otimizadas para custo, consumo de energia e capacidade de processamento de cada caso.
Para as empresas brasileiras, a leitura estratégica é clara. Não se trata de escolher entre IoT ou IA, mas de definir onde a inteligência deve morar em cada aplicação. A ABINC, onde atuamos, acompanha essa convergência e defende que a decisão seja guiada por requisito técnico — latência, privacidade, custo — e não por moda.
A pergunta do início, afinal, estava mal formulada. IoT e IA não só conseguem trabalhar juntas: elas já não fazem mais sentido separadas.(Foto: Georgie Devlin/Pexels)

ROGÉRIO MOREIRA
É presidente da ABINC(Associação Brasileira da Internet das Coisas). É engenheiro eletrônico e mestre em administração de empresas. Atua profissionalmente na área de dispositivos semicondutores pela empresa americana Microchip Technology. É professor universitário da UniAnchieta em Jundiaí. Nasceu na cidade de São Paulo, e mora em Jundiaí há 33 anos.
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