IA Quântica: O colapso do valor do IP

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O contrato social da inovação e da propriedade intelectual(IP) quebrou! Durante o último século, o acordo era claro: a sociedade concedia a uma empresa um monopólio temporário de 20 anos (uma patente) em troca do risco financeiro monumental de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Em 2024, o custo médio para levar um novo medicamento ao mercado girava em torno de US$ 2,3 bilhões, segundo dados da Deloitte, com um ciclo de desenvolvimento de uma década. Hoje, no início de 2026, a convergência entre IA generativa especializada e as primeiras aplicações práticas de simulação quântica dizimou essa lógica. E o mercado financeiro já começou a precificar esse novo risco.

Estamos testemunhando o fenômeno da descoberta de custo marginal zero. No último trimestre de 2025, um consórcio entre uma gigante farmacêutica suíça e uma startup de computação quântica do Vale do Silício anunciou a descoberta de três candidatos a fármacos para doenças neurodegenerativas em apenas quatro meses. O custo reportado? US$ 150 milhões, uma redução de aproximadamente 93% em comparação aos padrões históricos. Isso soa como uma vitória para a humanidade, e cientificamente é. Mas, sob a ótica dos negócios, cria um paradoxo venenoso para a avaliação de ativos intangíveis.

A polêmica reside na industrialização da invenção. Pense comigo: se esses novos processos conseguem testar virtualmente 50 milhões de estruturas moleculares por hora e patentear as 10 mil mais promissoras preventivamente, o sistema de patentes deixa de recompensar a engenhosidade humana e passa a recompensar puramente o poder computacional bruto.

Os escritórios de patentes nos EUA e na Europa reportaram um aumento de 300% nos pedidos de registro no setor de ciência dos materiais no último ano. A consequência direta é a diluição do valor de cada patente individual. Bancos de investimento, que antes avaliavam portfólios de propriedade intelectual de biotechs na casa dos bilhões de dólares, estão revisando esses ativos para baixo. O motivo é simples, a exclusividade é frágil. Se você patenteia uma molécula, a IA de um concorrente pode, em minutos, projetar uma variante molecularmente distinta, mas funcionalmente idêntica, contornando a patente original sem infringir a lei. Ok, você pode argumentar que o acoplamento in vivo não funcionaria. Porém, quantos modelos poderão ser rodados para concertar isso?

O fosso econômico que protegia as margens de lucro das empresas baseadas em IP está secando. O valor não está mais na fórmula (que virou commodity gerada por máquinas), mas na capacidade de execução e nos dados dos proprietários usados para treinar os modelos. Vemos isso refletido nos valuations. Empresas que detêm apenas propriedade intelectual estática perderam, em média, 15% de valor de mercado no índice Nasdaq Biotechnology nos últimos seis meses, enquanto empresas focadas em infraestrutura de fábricas de descoberta (hardware e dados) valorizaram.

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Estamos caminhando para um cenário onde a patente, outrora o ativo mais valioso do balanço patrimonial de uma empresa de tecnologia ou saúde, pode se tornar irrelevante. A briga judicial de 2026 não será sobre quem inventou primeiro, mas se a invenção gerada por algoritmo merece, sequer, ser propriedade de alguém.

A comoditização da descoberta científica pela IA e computação quântica forçará uma reescrita das leis globais de propriedade intelectual. Para investidores e CEOs, a lição deste início de 2026 é dura: parem de supervalorizar a ideia ou a patente. Em um mundo onde a inteligência artificial pode gerar inovações infinitas a um custo marginal próximo de zero, a escassez e, portanto, o lucro migra da invenção para a implementação, a logística e a confiança da marca. A era do lucro garantido pelo monopólio da patente acabou. A era da eficiência brutal começou.

ARTUR MARQUES JR

É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.

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