Toda organização funciona como um sistema vivo. Pessoas, processos, decisões e emoções estão interligadas, mesmo quando não são nomeados. Dentro desse sistema, o gestor ocupa uma posição central: trata dos fluxos, traduz direções, organiza tensões e, muitas vezes, absorve aquilo que o próprio sistema não consegue elaborar. Ainda assim, raramente o sistema volta o olhar para quem o sustenta.
O gestor é visto como aquele que “dá conta”. Dá conta das metas, das pessoas, dos conflitos e das urgências. Espera-se dele equilíbrio, clareza e presença constantes. Pouco se questiona, porém, o impacto dessa expectativa contínua sobre quem ocupa essa posição. No campo sistêmico, tudo o que não é reconhecido tende a pesar e aquilo que pesa, cedo ou tarde, busca um lugar de expressão.
Por isso, quando um gestor adoece, se distancia ou perde o sentido do que faz, não se trata de um problema individual. Trata-se de um sinal do sistema. Algo deixou de circular. Algo deixou de ser cuidado. Em muitos ambientes corporativos, ainda persiste a crença de que o gestor não pode falhar, não pode cansar, não pode demonstrar dúvida. Essa lógica produz líderes isolados, emocionalmente sobrecarregados, sustentando sozinhos demandas que pertencem ao todo. Um sistema que exige força constante, mas não oferece sustentação, inevitavelmente entra em desequilíbrio.
Nesse contexto, cuidar do gestor não é um gesto de benevolência: é um movimento de saúde organizacional. Quando o gestor é visto, apoiado e cuidado, torna-se um canal mais limpo para decisões, relações e cultura. O cuidado, aqui, não é um benefício adicional; é um ajuste sistêmico necessário para que o fluxo volte a acontecer.
Ambientes organizacionais saudáveis são aqueles em que o cuidado circula. Onde há espaço para escuta, para limites e para humanidade inclusive, e sobretudo, na liderança. Afinal, quando quem cuida também é cuidado, o sistema inteiro encontra mais equilíbrio.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas “quem cuida do gestor?”, mas: o que acontece com um sistema que esquece de cuidar de quem o sustenta? Todo sistema se equilibra por meio da troca quando aquilo que sustenta também é sustentado. Quando o fluxo deixa de ser unilateral. Quando essa troca se rompe, o sistema continua funcionando, mas passa a operar em esforço.
Em muitos contextos organizacionais, o gestor ocupa o lugar de base. É quem absorve tensões, regula conflitos, traduz decisões e mantém o movimento. Quando esse lugar não é cuidado, o sistema não colapsa de imediato. Ele segue. Produz. Entrega. Porém, começa a perder vitalidade. Os primeiros sinais costumam ser sutis: decisões mais duras, comunicação mais curta, escuta reduzida. Não por falta de competência, mas por exaustão. No olhar sistêmico, quando alguém sustenta demais, algo inevitavelmente começa a faltar em outro ponto.
Com o tempo, o sistema passa a girar em torno das urgências. O gestor deixa de ser presença e passa a ser apenas função. O humano cede espaço ao operacional. E aquilo que não foi visto o cansaço, a solidão, a sobrecarga manifesta-se de outras formas: aumento de conflitos, queda de engajamento, rotatividade, adoecimentos silenciosos. Não se trata de fragilidade individual, mas de lealdade sistêmica.
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Gestores permanecem sustentando até onde conseguem, muitas vezes além dos próprios limites, por compromisso, pertencimento ou medo de falhar. O sistema, por sua vez, se acostuma a esse esforço contínuo e deixa de perceber o custo invisível que ele gera. Quando quem sustenta não é cuidado, o sistema passa a exigir mais do que devolve. E todo sistema que exige mais do que devolve, cedo ou tarde, cobra em outro lugar.
Cuidar do gestor é restaurar o fluxo. É reconhecer que liderança não é um lugar de força constante, mas de responsabilidade compartilhada. É permitir que o cuidado circule, em vez de se concentrar. Talvez a maturidade de uma organização não esteja apenas em seus resultados, mas na capacidade de perceber quem sustenta o campo e escolher cuidar antes que o sistema precise gritar.(Foto: Andrea Piacquadio/Pexels)

ROBERTA TEIXEIRA PERES
Gestora, terapeuta holística, especialista em desenvolvimento humano, Eneagrama. pós-graduada em neuromarketing e PNL Aplicada em gestão de pessoas.
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