
Numa terça-feira qualquer de 1988, recebi a orientação de produzir matéria sobre o resultado da sessão da Câmara Municipal de Jundiaí. Eu era um ‘foca’, gíria para o jornalista em início de carreira. Não tinha ideia da importância de uma sessão. A pauta determinava que eu deveria telefonar para o assessor de imprensa do Legislativo, Wilson Martins, e anotar os itens que foram aprovados e rejeitados. Também não conhecia ‘seo’ Wilson. Liguei e pedi as informações. Do outro lado, Wilson começou a gaguejar. Tentei explicar que queria o placar das votações. Martins continuou gaguejando. Eu, repórter inexperiente, não entendia o que ele falava. Ele, o mestre com distúrbio na fala, tentava me ajudar. Desliguei o telefone assustado e sem saber como justificar, disse que não tinha encontrado o assessor. O jornal do dia seguinte não noticiou as votações dos vereadores.
Já no início dos anos 2000, fui pautado para entrevistar o mestre. A ideia era contar um pouco da vida dele. Já sabia que além de ter trabalhado em jornais impressos, Wilson Martins fora repórter de rádio. Ele cobria os jogos do Paulista. Perguntei como tinha trabalhado no rádio se gaguejava o tempo todo. “Nunca ninguém teve coragem de me perguntar isso! No rádio, eu nunca gaguejei. O mesmo acontecia com o cantor Nelson Gonçalves. Ele era gago também. Porém, quando cantava, não gaguejava”, explicou o jornalista sorrindo.
Minutos depois, ao ser indagado sobre a imprensa jundiaiense daquele período, ele passou a me elogiar do nada. Ele lera um artigo assinado por mim sobre a regravação de ‘Sá Marina’ por Ivete Sangalo. A nova versão eliminara a estrofe na qual a personagem fez todo mundo chorar, eternizada por Wilson Simonal. A minha crônica tratava da necessidade atual de demonstrar a felicidade a todo custo e esconder as tristezas da vida. E olha que na época as redes sociais nem existiam. “Quando eu li seu texto fiquei me perguntando: como o Marquinho pensou nisso? Eu gostaria de ter escrito essa crônica”, afirmou Martins com a humildade que só os gigantes têm. Fiquei exultante…
Nessa entrevista eu já sabia quem era Wilson Martins. O jornalista com ‘J’ maiúsculo já estava aposentado. Além de jornais e rádios, ele encerrou a carreira como assessor de imprensa na Câmara. Eu sabia que fora ‘seo’ Wilson que cunhara a expressão ‘todos os caminhos levam a Jayme Cintra’ e que era repetida – naquele tempo – como um mantra pelos repórteres que cobriam o Galo às vésperas de jogos decisivos. Era uma convocação para a torcida ir ao campo do Paulista para apoiar o time.
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Irmão do ex-prefeito Walmor Barbosa Martins, Wilson tivera problemas de saúde que o obrigaram a fazer longas caminhadas. Era comum vê-lo na avenida Nove de Julho, sem camisa, todo suado, indo de lá para cá. Aliás, sobre Walmor, ao entrevistá-lo anos depois, relembrando Wilson, que já tinha morrido, o político chorou. Para mim, as comparações eram inevitáveis. Enquanto Walmor, leitor ávido de Maquiavel, era ácido e perspicaz, Wilson era gentil, bem-humorado. Era um fofo, como se diria hoje.

Wilson Martins nasceu no dia 14 de julho de 1928 em Guaxupé, Minas Gerais. Ele morreu em 6 de março de 2002. Começou a carreira no rádio em 1950. Foram 30 anos de carreira. Criou e apresentou diversos programas como: ‘Seleções Musicais’ (comandado por ele em 1950), ‘Tio San Vibra'(somente com músicas americanas), e ‘Melodias Portuguesas’, com músicas típicas de Portugal. Em 1951, tornou-se, também, apresentador do ‘Clube Infantil E-6’, programa de auditório que era realizado no Cine-Theatro Polytheama.
Apaixonado pela música e por tudo o que se relacionava com o mundo das artes e dos espetáculos, ainda nos anos 50 Wilson criou a revista ‘Quinze Dias’, para manter os leitores atualizados com os acontecimentos desse meio. Sua versatilidade, porém, levou-o para o jornalismo esportivo, área na qual se consagrou como repórter, comentarista e chefe da equipe esportiva da Difusora até 1981. Ao iniciar a carreira nessa área, apresentou os programas ‘Resenha Esportiva’ e ‘Jornal dos Esportes’, o primeiro com José Pedro Raymundo e o segundo com Francisco Montes. Wilson foi, também, editor de esportes do ‘Jornal de Jundiaí’, de 1965 a 1972. A partir desse ano, até 1984, revezou-se com Celso de Paula e Afrânio Bardari na chefia da redação do ‘JJ’. Em 1985 criou a assessoria de imprensa da Câmara. A sala de imprensa do Legislativo recebeu o nome dele. Uma justa homenagem. (Texto: Marco Antônio Sapia/Com informações da jundpedia.com.br/Foto principal: José Baraldi Filho)
RELATOS DE QUEM TRABALHOU COM WILSON MARTINS
Assim que viram a publicação sobre Wilson Martins neste domingo(22), três grandes nomes da imprensa de Jundiaí contaram histórias sobre o melhor assessor de imprensa que a Câmara de Jundiaí já teve.
O jornalista Carlos Motta trabalhou com ele na segunda passagem pelo JJ. “Na primeira, como repórter. Acho que ele já era o redator-chefe. Na segunda, como chefe de reportagem. Nessa ocasião, o Afrânio Bardari era o secretário de redação, diagramava a capa e a contracapa, onde iam as matérias principais. O Celso de Paula era o repórter “noticiarista” – chegava na redação no fim da tarde com um monte de pequenas notas gerais, um assombro! Quando fechávamos a edição, lá por volta da meia-noite, era a hora de espairecer. Eu e o Bardari contra o Wilson e o Celso em várias rodadas de “bisca”. Não me lembro quem nos ensinou a jogar, mas nos divertíamos muito”.
Segundo Motta, Wilson era um chefe supertranquilo. “Ele dava bastante liberdade a todos nós e tinha como particularidade gravar o Jornal Nacional para extrair dele as notícias nacionais e internacionais. Foi uma época de muito trabalho e aprendizado. Iniciaram a carreira jornalística naquela redação o Gonzaguinha (Luiz Gonzaga do Monte Carmelo), o Milton Leite, o saudoso Paulo Batista, a Rosely Akstein (que casou com o Paulo) e o Kazuo Inoue, entre outros. Era uma equipe excelente, ouso dizer. Tenho ótimas recordações daquele tempo”.

A ex-vereadora e radialista Ana Tonelli relembrou os tempos que Wilson Martins ia até a rádio para informar os resultados dos jogos de futebol. “Ele tinha papeizinhos em todos os bolsos. Ele ia falando e as vezes não conseguia pegar as anotações. Mas as participações dele eram maravilhosas. E o Wilson realmente não gaguejava no ar. Ele era um homem espetacular. Como eu gostava dele”, disse emocionada. Na Câmara, Ana viria a conviver ainda mais com o jornalista.
Fabbio Perez, que durante anos foi a voz padrão da Rede Globo, foi além. Ele enviou a foto acima. “Convivi com o Wilson na Rádio Difusora. Ele é inesquecível”, comentou. O próprio Fabbio fez a legenda da imagem: “O Wilson Martins é o repórter(segurando o microfone). Eu, bem jovem, era o operador de som. Atrás de mim está o Vital Gurgel, que era o diretor da emissora na época.(Atualizada às 16 horas de 23/03/2026)
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