A PLATEIA da violência

plateia

A violência tem plateia. A violência explode. A plateia grava. Uma mulher foi agredida dentro de um hospital em Jundiaí. Não foi em um lugar isolado, não foi no silêncio de uma casa. Foi em um espaço público, cercado de pessoas. E, ainda assim, havia algo ali que chama tanta atenção quanto a própria agressão: havia plateia. Gente olhando, gente comentando, gente filmando. Pegue um café e sente aqui comigo por um instante, porque precisamos falar sobre isso.

No texto anterior falei sobre como a violência contra a mulher não nasce de repente. Ela é construída lentamente: em pequenas permissões sociais, em frases que minimizam, em gestos ignorados, em silêncios que se acumulam. Hoje, quero falar sobre outro personagem dessa história: a plateia.

A violência contra a mulher começa, muitas vezes, dentro de casas, atrás de portas fechadas, em ambientes onde o silêncio ajuda a escondê-la. É ali que ela se estrutura. Mas, por uma distorção social que aprendemos a tolerar, ela também tem se tornado cada vez mais explícita.

Ela aparece em bares, em ruas movimentadas, em festas, em transportes públicos, em hospitais — lugares onde há gente suficiente para perceber que algo está errado. E, ainda assim, o que muitas vezes surge não é reação. É plateia.

O que nos transformou em espectadores da violência? O que faz tantas pessoas levantarem o celular para filmar uma agressão, mas não levantarem a voz para interrompê-la? Em que momento a dor alheia passou a ser tratada como conteúdo?

Hoje, praticamente tudo pode virar vídeo. Discussões viram stories, tragédias viram reels, a vida real virou material de compartilhamento. Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais desconfortável: quando alguém filma uma agressão, está registrando um crime… ou esperando engajamento?

Curtidas contam como reação? Visualizações contam como solidariedade? Porque assistir não protege quem está sendo agredida. E a violência agradece quando encontra plateia. Curiosamente, essa mesma sociedade que assiste à violência contra mulheres como quem observa uma cena de filme é também a que se emociona nas redes sociais com vídeos de vulnerabilidade.

Outro dia, viralizou um vídeo de um homem em situação de rua comemorando seu aniversário ao lado de dois cachorros, e surgiram comentários dizendo que ele tinha sorte. Sorte? Como dizer que uma pessoa em situação de rua tem sorte em passar seu aniversário na companhia de dois cachorros? Como transformar abandono social em cena emocionante? Talvez exista algo profundamente errado na forma como estamos reagindo à dor humana.

OUTROS ARTIGOS DE ANDRÉIA MELO CLICANDO AQUI

Porque a mesma sociedade que romantiza a vulnerabilidade social nas redes é também a que assiste, filma e compartilha agressões contra mulheres, sem agir, sem interromper, sem sair da confortável posição de espectador.

Talvez porque assistir seja mais fácil do que se envolver. Talvez porque filmar dê menos trabalho do que intervir. Talvez porque, no fundo, a sociedade ainda não decidiu se quer realmente enfrentar a violência contra mulheres — ou apenas comentá-la.

Antes do nosso último gole de café, vale lembrar: violência contra a mulher não é assunto privado. É crime. E pode — e deve — ser denunciado. O café termina. A reflexão não.

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: andreiamelo.casadealices@gmail.com. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES