Se JESUS voltasse trans, Brasil o crucificaria de novo

jesus

Maio é o mês de combate à LGBTIfobia. O Brasil lembra disso com post institucional, faixa de prefeitura e, no mês seguinte, corta o orçamento da Casa da Diversidade, esse é o ciclo e eu conheço bem.
Quero começar com uma pergunta: Você consegue imaginar Jesus ressuscitado como homem branco? Fácil — é a versão que o Ocidente exportou junto com colonização e Bíblia. Como homem negro? Sim — e seria o Jesus historicamente mais plausível, dado que nasceu no Oriente Médio e não na Suíça. Como criança? Como mulher? E como travesti?

Não é pergunta retórica. Já foi feita em palco. A resposta do Brasil foi colete à prova de balas. Renata Carvalho interpretou Jesus Cristo como travesti no espetáculo Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu(foto). Censurado. Suspenso por liminar. Atacado por igrejas. A grandiosa Renata usou colete à prova de balas para poder trabalhar — num país que se diz cristão e que tentou, mais uma vez, repetir a cena do Gólgota com outros instrumentos.

Ela disse uma coisa que não saiu da minha cabeça: “Eles não esperavam a intelectualidade de uma travesti. Eles não esperavam que eu pudesse conceituar meu corpo”. Não é a blasfêmia que incomoda. Nunca foi. É a inteligência.

A travesti que o Brasil suporta é aquela que chora, que pede desculpa por existir, que aparece na televisão para ser objeto de compaixão ou de espanto. A travesti que teoriza — que ocupa o símbolo máximo da tradição que afirma odiá-la e o faz com rigor intelectual e competência artística — essa não estava no roteiro. Esse corpo precisa ser silenciado com urgência porque ele prova que a exclusão não tem nenhuma justificativa racional. Tem só medo. E o medo, quando institucionalizado, vira lei, vira censura, vira liminar, vira bala.

O Jesus histórico era pobre, moreno, do Oriente Médio. Andava com prostitutas. Tocava em leprosos. Cruzava fronteiras étnicas e religiosas sem pedir licença ao templo. Perturbava os donos do poder sagrado. E foi morto pelo Estado — execução pública, visível, pedagógica. Para que os outros aprendessem o custo de existir fora da ordem.

A crucificação não era pena para criminosos comuns. Era a morte reservada para os que ameaçavam a estabilidade do estabelecido. Para os corpos que o poder precisava eliminar em praça pública — não apenas para punir, mas para ensinar. Para produzir o que Foucault chamaria de sujeito dócil: aquele que, ao ver o suplício do outro, aprende por antecipação onde está o limite do tolerável.

Quantas travestis foram crucificadas sem cruz visível neste país? No hospital que recusou atendimento. No quarto de pensão. Na mão do cliente que decidiu que aquele corpo não merecia sair vivo da cena.
De 200 a 400 LGBT+ morrem por homotransfobia todo ano no Brasil, segundo o Observatório de Mortes Violentas de LGBT+. Todo ano. Como se fosse previsão do tempo. Como se fosse dado de contexto e não de escândalo.

Menos de 4% das pessoas trans no Brasil têm acesso ao mercado formal de trabalho. Menos de quatro por cento. Em 2026.

Foucault, em seu curso Nascimento da Biopolítica, descreveu o sujeito neoliberal como aquele que é convocado a ser empresário de si mesmo — a gerir sua própria existência como capital, a investir em si para competir. É uma figura bela para quem tem capital para gerir. Para quem nasce no grupo com menos de 4% de acesso ao mercado formal, a convocação ao empreendedorismo de si soa como piada cruel: empreenda-se, travesti, num mercado que decidiu que você não existe como trabalhadora.

Isso é um projeto, não é exclusão residual. É quando uma sociedade fecha sistematicamente o acesso ao trabalho, à escola, à moradia, à saúde, ao sagrado — para o mesmo grupo, de forma consistente, ao longo de décadas — não está cometendo uma série de falhas individuais. Está executando uma política de eliminação que não precisa de decreto porque já está inscrita nas práticas cotidianas de quem decide quem entra e quem fica do lado de fora.

Enquanto isso, esta semana em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas percorreu 20 cidades do interior inaugurando obras e consolidando apoios regionais para 2026. Aprovação de 64,4%, segundo o Instituto Paraná Pesquisas. A máquina funciona. Para quem ela funciona é a pergunta que o índice não responde.

O mesmo governo incluiu o Memorial da América Latina no programa de concessões à iniciativa privada — para perplexidade da própria diretoria do espaço. Aprovou escolas cívico-militares. Privatizou linhas da CPTM. São escolhas. E toda escolha de gestão é também uma escolha sobre quais corpos importam.

Na capital, Ricardo Nunes gastou R$ 79 milhões na compra do Palácio dos Correios e organizou a Virada Cultural com previsão de 4,8 milhões de pessoas e R$ 500 milhões em movimento econômico. Dinheiro existe para o que se decide que existe. A revisão geral dos servidores municipais saiu: 3,51%, com impacto de R$ 1,5 bilhão. O funcionalismo recebeu. A população trans, que em menos de 4% dos casos tem carteira assinada para receber qualquer reajuste, continua de fora do cálculo — e de fora da conta política que decide o que é prioritário.Não estou dizendo que Virada Cultural é errada. Estou dizendo que a geometria do investimento público revela uma hierarquia de corpos que nenhum discurso de maio consegue encobrir.

E no meio disso, vereadores do interior paulista propõem leis para impedir que crianças aprendam na escola que corpos trans existem. O STF derruba. Eles propõem de novo. O objetivo nunca foi a lei. Foi o gesto. A foto no plenário. O vídeo no grupo da igreja. O aplauso de quem precisa de um inimigo para se sentir dentro da graça. Até o fechamento desta matéria, nem a assessoria nem o próprio vereador de Jundiaí responderam nossas questões. Nenhuma surpresa.

Não é o cristianismo que mata travestis. Preciso dizer isso porque generalizar seria desonesto — e porque há cristãos que morreram defendendo exatamente o que esses pastores-legisladores perseguem.
O que mata é uma versão específica, politicamente organizada, financeiramente estruturada, com bancada parlamentar e agenda de governo. Uma teologia que precisa de inimigo permanente para manter a coesão interna. Que usa o púlpito para fazer política e a política para fazer púlpito. Que aceita um Jesus negro como representação histórica, um Jesus criança como ternura — mas que declara um Jesus travesti blasfêmia, porque a travesti não pode ser imagem e semelhança de nada que mereça dignidade.

Esse poder não foi conquistado pelo argumento teológico. Foi conquistado pelo voto, pelo financiamento de campanha, pela ocupação sistemática de comissões de educação, secretarias municipais, conselhos tutelares. É poder político com verniz de fé. Em um país formalmente laico.
Fernando Haddad tem 44,9% de rejeição em São Paulo segundo a mesma pesquisa que coroa Tarcísio. Quem mais rejeita Haddad? A mesma base que aplaude vereadores-pastores propondo leis inconstitucionais contra diversidade nas escolas. A coincidência não é coincidência. É eleitorado.

Maio de combate à LGBTIfobia é mês de memória e de exigência política, não é mês de vitimização. Memória das que não chegaram até aqui — que chegaram em caixão ou em dado estatístico que o Estado ainda não sabe contabilizar direito, porque nem formulário obrigatório de registro de crime LGBTfóbico existe em todos os estados deste país.

Exigência de que o Estado — federal, estadual, municipal — pare de financiar com omissão e dinheiro público o ódio que mata. Marina Silva e Simone Tebet lideram as pesquisas para o Senado paulista, com 36,6% e 34,3% respectivamente. Duas mulheres com trajetórias de coragem em campos distintos. Pergunto: quando chegarem ao Senado, vão pautar os 4% de acesso ao trabalho formal? Vão exigir o formulário obrigatório de registro de LGBTfobia? Vão nomear o projeto de eliminação pelo nome que ele tem?

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Combater a LGBTIfobia não é pauta de minoria organizada. É a pergunta mais elementar sobre que tipo de país este é. Então: imagine Jesus. Pobre, moreno, do Oriente Médio, cercado pelos que o mundo havia descartado. Agora imagine-o travesti. Se essa imagem te perturbou mais do que os 4% de acesso ao trabalho, mais do que as 200 a 400 mortes anuais, mais do que a criança expulsa de casa pelo pai que diz agir em nome de Deus — o problema não é a imagem, é o que você aprendeu a chamar de sagrado.(Foto: divulgação)

SARA WAGNER YORK

É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.

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