Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças. Foi um marco. Não porque a ciência tivesse finalmente descoberto algo novo sobre as pessoas LGBT+, mas porque um sistema de classificação que durante décadas legitimou perseguições, internações compulsórias, torturas terapêuticas e exclusões institucionais perdeu, naquele dia, sua principal ferramenta de controle. A data não celebra uma concessão. Celebra uma derrota do patológico — e por isso virou luta. Trinta e seis anos depois, o Dia Internacional e Nacional de Luta contra a LGBTfobia chega com números que não permitem comemorações tranquilas. O Brasil segue como um dos países que mais mata pessoas LGBT+ no mundo. A violência não é acidente, é estrutura. E ela tem endereço, mora também no interior paulista, em câmaras municipais que transformam preconceito em política, em silêncios institucionais que custam vidas.
Jundiaí, polo de visibilidade num entorno ainda hostil – Jundiaí ocupa uma posição singular na região. A Parada LGBT+ da cidade completa 20 anos em 2026, duas décadas de presença nas ruas num interior que não costuma abrir espaço fácil para corpos dissidentes. A Prefeitura mantém uma Assessoria de Políticas para Diversidade Sexual e o projeto Diversidade nas Ruas, com foco em saúde, cidadania e populações em situação de rua, com atenção especial a pessoas trans. Isso não é pouco! Num Estado onde 2,3% da população adulta se declara homossexual ou bissexual, e onde a subnotificação é sabidamente alta porque o medo ainda cala, ter estrutura pública de acolhimento é a diferença entre vida e abandono.
Mas Jundiaí também concentra uma demanda que não é só sua. Cidades vizinhas como Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Louveira, Itupeva e Cabreúva têm estrutura mínima ou inexistente de atendimento especializado à população LGBT+. Isso significa que jovens, pessoas trans, famílias em crise chegam a Jundiaí não porque escolheram, mas porque não têm outra opção. A cidade acolhe o que a região rejeita, isso é generoso e é também um problema de política pública regional que ninguém quer nomear.
Quando a universidade vai às ruas e as ruas entram na universidade – O movimento que Jundiaí representa regionalmente não está sozinho. Em Assis, no interior paulista, um evento recente reuniu população LGBTI+, estudantes, pessoas com deficiência e professoras comprometidas com algo que parece simples mas ainda precisa ser disputado palmo a palmo: a inserção de todos os corpos no espaço universitário como política de construção democrática. Não como tolerância, não como cota simbólica, mas como projeto coletivo de produção de conhecimento.
A professora Matheux Shwartzmann, da UNESP, que atua em Assis e Araraquara e circula pelo campo das Letras em todo o país, relata o que o evento representou, um encontro onde a diversidade não era tema de painel mas sujeito da conversa, onde quem normalmente aparece como objeto de estudo ocupou o centro da palavra. Essa inversão não é detalhe metodológico, é gesto político. É o que distingue uma universidade que fala sobre a diferença de uma universidade que aprende com ela.
Nessa mesma direção, a professora Ana Paula Mendonça, da UNESPAR, reforça o debate a partir de uma posição que atravessa campos. Em suas falas, ela une trajetórias singulares de muitas intelectuais à caminhada que abraça a juventude, fazendo isso com a precisão de quem transita pela semiótica em nível de pós-doutorado e sabe que o sentido não está dado, que ele é sempre produzido por alguém, de algum lugar, com algum corpo. Quando esse corpo é dissidente, quando essa trajetória foi construída contra o apagamento, o que emerge não é apenas conhecimento acadêmico, é epistemologia viva.
O que aconteceu em Assis é o tipo de evento que não aparece nos rankings universitários, não gera nota de imprensa nos grandes veículos e não entra nas métricas que definem excelência institucional. Mas é exatamente o tipo de evento que define se uma universidade é, de fato, pública.
O dado que precisa ser dito – Entre os registros locais, um chama atenção e exige resposta. Os índices de suicídio entre a comunidade LGBT+ em Jundiaí e região são altos. Não é estatística abstrata, é o resultado concreto de adolescentes sem apoio familiar, de pessoas trans expulsas de casa, de jovens que crescem num ambiente escolar que não os reconhece, de adultos que trabalham em silêncio sobre o que são porque o ambiente não permite outra coisa. Saúde mental LGBT+ não é pauta de nicho, é emergência de saúde pública. E ela exige mais do que uma linha de acolhimento, exige que a cidade, suas escolas, suas igrejas, sua câmara municipal e seus serviços de saúde entendam que omissão também mata.
O conservadorismo que tem nome e mandato – O interior paulista não é conservador por acidente geográfico, mas por escolha política reiterada. Em Jundiaí essa escolha tem se manifestado de forma explícita dentro da Câmara Municipal. Vereadores que usam o mandato para barrar políticas de diversidade, que transformam sessões legislativas em palanque para discurso de ódio, que votam contra ou simplesmente ignoram pautas que afetam vidas reais de eleitores e eleitoras LGBT+ da cidade, esses nomes precisam ser ditos, acompanhados e cobrados. Ao longo desta série, faremos isso.
Por que uma série quinzenal – Esta é a primeira de uma série de artigos sobre a vida, os direitos e as lutas da população LGBT+ em Jundiaí e região. A cada quinzena, traremos dados, histórias, avanços e denúncias. O recorte local importa porque é onde a vida acontece, não nas estatísticas nacionais, mas nas ruas, nas escolas, nos postos de saúde, nas audiências públicas de uma câmara municipal que ainda precisa aprender que representar é representar a todos.
17 de maio é arquivo, data de presente. E o presente, em Jundiaí, ainda tem muito a responder.

SARA WAGNER YORK
É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.
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