Hoje o assunto é futebol. Estamos em clima de Copa do Mundo e o país parece pensar em uma coisa só: a bola rolando. Aproveito, então, o intervalo entre as partidas para trazer a campo um potente time formado pelos povos originários. Por décadas, o Brasil foi visto como o país do futebol, berço de grandes craques e fenômenos. Desde os tempos coloniais, também carregamos a imagem da terra onde “em se plantando, tudo dá”. Uma frase que atravessou séculos exaltando a abundância do território brasileiro, mas que também nos convida a uma reflexão: quem conhecia essa terra, seus ciclos, seus rios, seus ventos e seus tempos?
Pois bem, é dessa terra que surge a primeira Seleção Indígena de Futebol do Brasil e das Américas (SIFBA), uma iniciativa que valoriza a cultura indígena, fortalece a representatividade no esporte e leva para os gramados uma importante mensagem de preservação ambiental. Reconhecida pelo Ministério dos Povos Indígenas e pela Funai, a seleção reforça a ancestralidade, a união e a força das comunidades. Ainda assim, sua trajetória permanece pouco conhecida pelo grande público, revelando uma invisibilidade histórica.
Como conferencista na área da igualdade racial, considero importante ampliar o olhar sobre a presença dos povos originários e de outros grupos étnicos nos espaços de destaque da sociedade. Afinal, são esses povos que desenvolveram uma profunda relação com a terra e que hoje também ocupam espaços culturais, acadêmicos, políticos e esportivos.
A metáfora é inevitável: a terra que preserva a memória e também se transforma em gramado. E o gramado, por sua vez, pode se tornar um espaço de reconhecimento, pertencimento e representatividade.
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Formada por atletas de 13 etnias e representantes de diferentes estados brasileiros, a seleção já conta com o apoio de nomes famosos como Ronaldinho Gaúcho e do DJ Alok, responsável pela criação do hino oficial “Canto do Vento”. Para representar o Brasil nesta Copa do Mundo, destaco ainda a convocação do jogador Ederson, do povo Terena.
Mais do que disputar partidas, a Seleção Indígena nos convida a refletir sobre quem construiu, preservou e continua escrevendo a história deste país. Se o Brasil se orgulha de ser a terra onde “em se plantando, tudo dá”, também precisa reconhecer aqueles que, há séculos, conhecem seus caminhos, preservam seus saberes e ajudam a fazer florescer a identidade brasileira.(Foto: site Uma Penca)

ROSEMARY DA SILVA
Conferencista Nacional na Promoção de Políticas Públicas Étnico-Raciais. Formada em Direito pela Unianchieta, atua na Educação Infantil com o Projeto Igualdade Racial Nas Escolas. Escritora premiada na categoria literatura infantil com o livro “Os Olhos Azuis Do Menino de Bantu”. Acompanhe seu trabalho pelo Instagram @rosemaryda96.
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