A mulher, o VÍDEO BANAL e o vizinho masturbador

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Senta aqui pra um café. E nem assopra. Tem gente que prefere queimar a língua a engolir a verdade. Uma mulher gravava um vídeo durante o treino na academia do condomínio onde mora. O objetivo era banal, como tantos outros registrados diariamente por um celular. Quando terminou o exercício e foi assistir às imagens, encontrou algo que jamais imaginaria registrar: um vizinho se masturbando atrás dela enquanto ela corria na esteira. Ela não viu. Não percebeu. Não reagiu. Descobriu que havia sido vítima de importunação sexual apenas quando reviu o vídeo gravado pelo próprio aparelho.

Não foi uma câmera de segurança que revelou o crime. Não foi um porteiro atento. Não foi uma testemunha que interveio. Foi o acaso. Se aquele celular não estivesse gravando, provavelmente estaríamos diante de mais uma violência invisível. Daquelas que sequer chegam ao conhecimento da própria vítima e, por isso, jamais são denunciadas.

Existe a crença confortável de que a violência contra a mulher acontece em becos escuros, ruas desertas ou estacionamentos vazios, sempre praticada por um desconhecido. Essa é uma das maiores mentiras que contamos para nós mesmos. Muitas vezes, o agressor mora no apartamento ao lado, divide o mesmo elevador, cumprimenta os vizinhos, frequenta a mesma academia e circula pelos mesmos espaços comuns. A violência não escolhe lugares inseguros. Ela transforma qualquer lugar em inseguro.

Passamos anos ensinando mulheres a tomar cuidado. Dizemos para não voltarem sozinhas para casa, para avisarem quando chegarem, para desconfiarem de estranhos, para mudarem de calçada, para olharem para trás e manterem as chaves entre os dedos. Mas quase nunca ensinamos os homens a respeitar os limites do corpo e da dignidade das mulheres. Criamos mulheres em permanente estado de vigilância e seguimos tolerando comportamentos masculinos que nunca deveriam ter sido tratados como naturais.

Esse caso desmonta a falsa ideia de que basta a mulher “se cuidar”. Como exatamente ela poderia evitar uma violência que nem sequer sabia que estava acontecendo? Como reagir a um crime que só foi descoberto depois? A resposta é simples: ela não podia. Nem toda violência pode ser evitada por quem a sofre. Toda violência, porém, poderia ser evitada por quem escolhe praticá-la.

Importunação sexual não é uma brincadeira, um impulso incontrolável ou uma demonstração exagerada de desejo. É uma forma de violência que invade a liberdade, a intimidade e a dignidade da vítima. O objetivo não é conquistar uma mulher. É exercer poder sobre ela, reduzindo-a à condição de objeto da satisfação masculina, ainda que ela jamais saiba, naquele momento, que está sendo violentada.

A imagem mais cruel dessa história veio depois. O homem fugiu. A mulher se escondeu. Quem praticou o crime continuou podendo circular pelos espaços comuns do condomínio. Quem teve sua dignidade violada passou a carregar o peso do medo, do constrangimento e da perda da sensação de segurança dentro do lugar que deveria representar proteção.

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Enquanto discutimos câmeras, portarias, reconhecimento facial e cercas elétricas, esquecemos que nenhuma tecnologia é capaz de impedir um homem que acredita ter o direito de transformar o corpo de uma mulher em objeto de sua vontade. Segurança não se constrói apenas com muros altos. Constrói-se, sobretudo, com uma sociedade que deixe de normalizar pequenas invasões antes que elas se transformem em tragédias ainda maiores.

O vídeo registrou um crime. Mas revelou algo muito maior: a facilidade com que homens ainda acreditam poder invadir a intimidade de uma mulher sem que ela sequer perceba. É justamente isso que mais assusta. Não o fato de existir um homem capaz de fazer isso, mas o fato de existirem tantos outros convencidos de que esse tipo de comportamento é apenas um excesso, uma brincadeira ou um impulso. Enquanto continuarmos tratando essas invasões como desvios individuais, continuaremos ignorando a cultura que as alimenta todos os dias.

Mais um café? Acho que não. Se esse não queimou a indiferença, outro também não vai. O que ainda precisa queimar não é a garganta. É a nossa consciência.(Imagem meramente ilustrativas/IA Gemini)

ANDRÉIA MELO

É guarda municipal há 14 anos, especialista em atendimento humanizado às mulheres em situação de violência. Idealizadora e presidente da Casa de Alices – Centro de Atendimento e Acolhimento à Mulher. Atuou como vice-presidente do CAIS Jundiaí. Idealizadora do Programa Guardiã Maria da Penha onde atuou como coordenadora por 2 anos, instrutora na formação de profissionais da segurança pública em violência de gênero e direitos humanos, unindo experiência prática e reflexão jurídica no enfrentamento das desigualdades estruturais. E-mail: [email protected]. Telefone: 11 975559986. Conheça a Casa de Alices clicando aqui. 

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