Ainda há lugar naquela MESA…

mesa

Havia uma cadeira vazia naquela mesa. Não porque faltasse alguém. Todos haviam chegado. As conversas se cruzavam, os copos eram preenchidos, os telefones apareciam de tempos em tempos e alguém ria alto de uma história que os demais pareciam conhecer. A cadeira estava vazia porque, aos poucos, uma pessoa que continuava fisicamente presente havia deixado de ocupar verdadeiramente seu lugar. Ela estava ali. Ouvia. Sorria quando todos sorriam. Às vezes tentava começar uma história, mas alguém mais jovem completava rapidamente: “Essa você já contou”.

E a história terminava antes de começar. Talvez existam formas de solidão que só aconteçam quando estamos acompanhados. São particularmente dolorosas porque não permitem sequer a explicação confortável da ausência. Há pessoas ao redor na mesa. Existem vozes, movimentos, risos, mensagens chegando, pratos sendo compartilhados. Tudo parece indicar pertencimento. Entretanto, por alguma razão, alguém percebe que já não participa como antes.

Está no grupo, mas não está verdadeiramente com o grupo. O desenvolvimento humano é atravessado por uma necessidade que dificilmente desaparece com o passar dos anos: precisamos pertencer. Desde muito cedo, procuramos sinais de que existe um lugar para nós. Primeiro no colo, depois na família, na escola, entre amigos, nos grupos profissionais, nas relações amorosas, nos espaços de convivência. Mudam os cenários, mudam as pessoas, mudam as formas de demonstrar afeto, mas permanece uma pergunta silenciosa: “Há lugar para mim aqui?”

Talvez grande parte da afetividade humana seja construída ao redor das respostas que recebemos para essa pergunta. Quando alguém nos escuta, responde que sim. Quando alguém percebe nossa ausência, responde que sim. Quando nossa opinião é solicitada, quando nossa presença é desejada, quando podemos falar sem medo de ridicularização, quando nossas fragilidades não são utilizadas contra nós, alguma coisa dentro de nós entende que pertencemos.

Mas também existem respostas negativas que nunca são pronunciadas. Elas aparecem quando deixam de nos convidar. Quando conversam diante de nós como se não estivéssemos presentes. Quando decidem por nós. Quando nossas histórias passam a ser tratadas como cansativas. Quando nossas opiniões recebem aquele sorriso condescendente reservado a quem já não é considerado capaz de compreender o mundo.

É nesse território aparentemente pequeno das relações cotidianas que o etarismo pode encontrar uma de suas formas mais cruéis. Nem sempre ele grita. Às vezes, sorri. Às vezes, diz que é para nosso bem. Às vezes, aparece disfarçado de brincadeira. “Na sua idade?”. “Você ainda pensa nisso?”. “Deixa isso para os mais jovens”. “Você não vai entender”. “Essas coisas mudaram muito desde o seu tempo”.

E pouco a pouco alguém começa a receber uma mensagem que ninguém teve coragem de formular diretamente: seu tempo passou. Mas que tempo é esse que passa antes da vida? Quem determinou a idade em que alguém deve parar de desejar companhia, reconhecimento, aventura, amizade, amor, participação ou novidade?

Envelhecer modifica muitas coisas, certamente. O corpo muda, os ritmos podem mudar, algumas prioridades são reorganizadas e determinadas limitações podem aparecer. Entretanto, existe um equívoco perigoso quando transformamos mudança em desaparecimento.

A pessoa envelhece. O afeto não necessariamente envelhece com ela. O desejo de ser querido não desaparece aos 60. A necessidade de sentar à mesa e ter companhia não termina aos 70. A vontade de ser escutado não perde validade aos 80. E ninguém deveria atingir uma idade em que um abraço se tornasse desnecessário.

Talvez tenhamos aprendido muito sobre prolongar a vida e ainda pouco sobre proteger aquilo que torna a vida desejável. Porque viver não é apenas permanecer biologicamente presente. Viver também é participar. É saber que alguém espera nossa chegada. É poder contar uma história mesmo quando parte dela já foi contada. É ter com quem dividir uma descoberta. É receber uma mensagem inesperada.

É ser lembrado num convite. É poder escolher a roupa, o passeio, a música, a sobremesa, a companhia. São pequenas coisas, aparentemente. Mas a afetividade costuma morar justamente nas pequenas coisas. Ninguém constrói pertencimento apenas com grandes declarações. Ele nasce da repetição dos gestos cotidianos. Um telefonema. Uma cadeira aproximada naquela mesa com pessoas queridas. Uma pergunta feita com interesse verdadeiro. Um braço oferecido sem humilhação. Uma conversa que não trata a pessoa como incapaz.

O grupo social possui um poder extraordinário sobre o desenvolvimento humano porque ele tanto pode ampliar nossas possibilidades quanto nos convencer de que já não temos possibilidades. Há grupos que fazem pessoas florescerem. E há grupos que, lentamente, ensinam pessoas a desaparecer. Isso pode acontecer na família, entre amigos, no ambiente profissional, nas instituições, nos espaços comunitários. Uma pessoa que durante décadas ocupou posições de responsabilidade pode, de repente, perceber que sua idade passou a chegar aos lugares antes de sua competência.

Não perguntam mais o que ela sabe. Perguntam quantos anos tem. Não querem conhecer sua experiência. Querem saber quando pretende parar. O currículo permanece semelhante. A história profissional continua ali. A capacidade não desapareceu numa madrugada. Mas o olhar social mudou. Talvez o etarismo seja, em grande medida, uma doença do olhar. Olha-se para a idade antes de olhar para a pessoa. E quando isso acontece, deixamos de conhecer alguém para apenas classificá-lo. Mas os grupos podem fazer exatamente o movimento contrário. Podem devolver singularidade onde a sociedade oferece rótulos.

Uma amizade verdadeira, por exemplo, raramente pergunta se determinada alegria é adequada à idade. Amigos conseguem, às vezes, produzir uma espécie de suspensão do calendário. Riem das mesmas bobagens, recuperam histórias antigas, inventam planos improváveis e se reconhecem para além das mudanças que o tempo produziu.

Talvez por isso algumas amizades sejam tão importantes no envelhecimento. Elas guardam versões nossas que o restante do mundo esqueceu. O amigo de muitos anos conheceu aquele homem antes dos cabelos brancos. Conheceu aquela mulher antes das rugas. Lembra dos medos, das ousadias, das paixões, das dificuldades e dos sonhos. Quando olha para o amigo envelhecido, não vê apenas a pessoa que está diante dele. Enxerga, de alguma maneira, todas as pessoas que ela já foi. Existe muito afeto nisso. Mas também há beleza nos novos vínculos.

Porque envelhecer não deveria significar viver apenas de lembranças. Novas amizades podem nascer. Novos grupos podem ser formados. Novas pessoas podem tornar-se importantes. Há quem descubra aos sessenta anos a companhia que não encontrou aos quarenta. Há quem, depois da aposentadoria, encontre um grupo no qual finalmente se sinta pertencente.

Há quem comece a viajar, estudar, dançar, praticar atividades físicas, participar de projetos comunitários ou simplesmente reunir-se semanalmente para conversar. A vida social não precisa aposentar-se quando a vida profissional termina. Talvez essa seja uma questão fundamental.

Durante muitos anos, algumas pessoas constroem grande parte de sua identidade ao redor do trabalho. O grupo profissional oferece reconhecimento, rotina, encontros, conflitos, responsabilidades e pertencimento. Quando esse ciclo termina, não desaparece apenas uma ocupação. Pode desaparecer também uma rede inteira de relações. Por isso, os grupos sociais tornam-se ainda mais importantes.

Eles podem funcionar como espaços de continuidade e reconstrução da identidade. Neles, a pessoa percebe que ainda tem algo para oferecer e, igualmente importante, que ainda tem algo para receber. Porque existe outra forma sutil de etarismo: imaginar que pessoas mais velhas existem apenas para ensinar.

Elas podem ensinar, evidentemente. Mas também podem aprender. Podem desconhecer. Podem perguntar. Podem mudar de opinião. Podem experimentar. Podem errar. Podem começar de novo. Não precisamos transformar toda pessoa idosa numa biblioteca ambulante, carregada da obrigação de possuir respostas sábias sobre a existência.

Talvez ela simplesmente queira sentar à mesa e conversar. Ou rir. Ou participar. Ou não saber. Há liberdade nisso também. O encontro entre gerações se torna particularmente bonito quando ninguém precisa ocupar uma posição fixa. O jovem não precisa representar eternamente a novidade e o idoso não precisa representar eternamente a experiência.

Um pode ensinar o outro a utilizar uma tecnologia. O outro pode ensinar uma receita. Depois podem inverter os papéis. E talvez acabem descobrindo que o mais importante não era aquilo que estava sendo ensinado. Era o tempo que estavam passando juntos.

A afetividade precisa de tempo. Talvez esse seja um dos maiores desafios contemporâneos. Temos muitos contatos, grupos, redes e mecanismos de comunicação, mas pertencimento não pode ser medido pela quantidade de nomes armazenados num telefone. Podemos estar em dezenas de grupos e continuar profundamente sozinhos.

Pertencer exige mais. Exige reconhecimento. Aquela sensação simples e poderosa de que nossa presença altera alguma coisa. Quando faltamos, alguém percebe. Quando falamos, alguém escuta. Quando sofremos, alguém se aproxima. Quando estamos felizes, existe alguém com quem desejamos compartilhar.

Quando envelhecemos, continuam nos chamando pelo nome, e não pela idade. Talvez combater o etarismo nas relações interpessoais não exija inicialmente grandes discursos. Talvez comece pela cadeira. Aquela cadeira que permanece vazia mesmo quando alguém está sentado nela.

Basta aproximá-la novamente da mesa. Perguntar: “O que você acha?”. “Você quer ir conosco?”. “Como foi seu dia?”. “Quer me contar essa história?”. Mesmo que já tenha contado. Porque também repetimos músicas de que gostamos, revisitamos lugares importantes e olhamos muitas vezes as mesmas fotografias. Algumas coisas são repetidas não porque esquecemos que já aconteceram, mas porque continuam significando alguma coisa.

Histórias também podem ser assim. O desenvolvimento humano não acontece apenas dentro de cada pessoa. Desenvolvemo-nos também entre pessoas. Somos transformados pelos grupos aos quais pertencemos, pelos afetos que recebemos e por aqueles que conseguimos oferecer. Por isso envelhecer com dignidade dependa, em alguma medida, da possibilidade de continuar pertencendo sem precisar fingir juventude. Não é necessário parecer jovem para merecer companhia. Não é necessário esconder rugas para continuar interessante. Não é necessário acompanhar todas as novidades para permanecer socialmente relevante.

Também não é preciso idealizar o envelhecimento. Existirão perdas. Algumas serão dolorosas. Pessoas queridas partirão. Grupos se modificarão. Certas capacidades poderão diminuir. Algumas despedidas chegarão sem pedir licença. Justamente por isso, os vínculos que permanecem ganham ainda mais importância. Talvez a afetividade seja uma das maneiras humanas de responder à passagem do tempo. Não conseguimos impedir que o outro envelheça. Mas podemos evitar que envelheça sozinho. Não conseguimos eliminar todas as perdas. Mas podemos permanecer durante algumas delas.

Não podemos devolver determinados anos. Mas podemos fazer com que os anos que existem ainda sejam habitados por encontros. E talvez seja isso que um grupo verdadeiramente humano ofereça: não a promessa de que nada mudará, mas a certeza de que as mudanças não precisarão ser enfrentadas em absoluta solidão.

No final daquela reunião, quando quase todos já haviam se levantado, alguém permaneceu à mesa. A pessoa mais velha começou novamente uma história. Era verdade. Ela já havia contado. Talvez mais de uma vez. Mas dessa vez ninguém a interrompeu. Alguém puxou a cadeira para mais perto, apoiou os braços sobre a mesa e perguntou o que tinha acontecido depois.

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Curiosamente, a história pareceu diferente. Talvez porque histórias também mudem conforme mudam aqueles que as escutam. Ou talvez porque, naquela noite, o mais importante não fosse a história. Era a cadeira. Era a mesa. Era alguém dizendo, sem precisar pronunciar: “Você continua fazendo parte”. E talvez poucas frases sejam tão importantes durante toda a trajetória do desenvolvimento humano. Porque podemos envelhecer de muitas maneiras. Mas seria bonito envelhecer sabendo que, apesar das transformações do corpo, das perdas inevitáveis e dos calendários acumulados, ainda existe uma cadeira aproximada da mesa.

Ainda existe alguém disposto a escutar. Ainda existe afeto circulando. Ainda existe grupo. Ainda existe lugar. E enquanto houver lugar para nós entre os outros, talvez exista também uma maneira profundamente humana de continuar encontrando lugar dentro da própria vida.(Foto: Jsme Mila/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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