Igreja do Rosário: Demolição e apagamento da memória negra(1)

igreja

Há uma ferida aberta no centro de Jundiaí que a maioria das pessoas atravessa todos os dias sem saber. Ela não sangra, não dói aos olhos de quem passa apressado pela Rua Major Sucupira, mas está lá, sob o asfalto, sob os pés de centenas de pedestres que ignoram que pisam sobre os restos de uma igreja que foi, por mais de um século, o coração pulsante da comunidade negra da cidade. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, construída por volta de 1790 no Largo do Pelourinho, não era um templo qualquer. Era o símbolo vivo de uma resistência silenciosa, o território sagrado de uma população que, mesmo na escravidão, encontrou na fé e na solidariedade comunitária um espaço de dignidade. E foi exatamente essa memória que o progresso, com sua arrogância típica dos que se julgam donos do futuro, decidiu varrer do mapa.

É impossível falar da demolição da Igreja do Rosário sem entender o que ela representava. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, voltada para moradores indígenas – chamados à época de “negros da terra” – e para africanos escravizados, foi uma das mais importantes associações de devoção e auxílio mútuo da cidade. Excluídos do trabalho assalariado na Primeira República e, portanto, de sindicatos e partidos, muitos ex-escravizados tinham nas irmandades sua única forma de organização, seu único espaço de pertencimento e resistência.

Ali se celebravam missas, batizados, casamentos e enterros. Ali se organizavam as festas de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, momentos em que a cultura negra podia se expressar em toda a sua plenitude, em procissões, cantos e danças que mesclavam a devoção católica com tradições africanas. O cemitério anexo à igreja guardava os restos mortais de gerações de irmãos, pessoas que haviam vivido e morrido naquelas terras, muitas vezes sem outro registro de sua existência além daquele pequeno pedaço de chão sagrado.

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O que aconteceu em Jundiaí na década de 1920, porém, não foi um caso isolado. Em todo o país, cidades que se modernizavam varriam do mapa as construções que lembravam um passado que as elites queriam esquecer. O historiador Lincoln Secco, professor do Departamento de História da USP, descreve com precisão cirúrgica o que ocorreu em São Paulo: a antiga Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos situava-se no vértice do Triângulo onde a cidade se estabeleceu no período colonial. A tortuosa área colonial não comportava mais as funções urbanas e a apropriação de terras transpassou o Rio Anhangabaú para a cidade nova. Em outras palavras, o centro histórico, onde os negros haviam construído suas igrejas e suas vidas, agora precisava ser “limpo” para abrigar os novos negócios e a nova elite. O mesmo padrão se repetiu em Campinas, em Mogi das Cruzes, em todo o estado de São Paulo. E em Jundiaí, a justificativa oficial foi o “prolongamento da Rua do Rosário”. O governo municipal comprou a igreja e a demoliu.(Foto: acervo professor Maurício Ferreira)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetrasPara saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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