O caminhar da ONÇA parda(ou quando a cidade invade a floresta)

onça

Temos acompanhado nas redes sociais, jornais, veículos de informações, o aumento no aparecimento de onças pardas em regiões urbanizadas, colocando a sociedade para debater quem está invadindo o território de quem. Aqui quero partir de outros pontos, pois essa resposta já sabemos e quem a nega não se convencerá por nenhum argumento, já que a defesa de seu ponto será por viés ideológico de economia acima da vida. Aqui quero entender com vocês o que isso quer nos dizer e talvez idealizar e cobrar em conjunto um outro caminho. Vamos de exemplo prático: no dia 23 de julho, o Coletivo Japy atuou no combate à um incêndio na Pedra do Índio, que caminhou até o Morro da Baleia, queimando uma área considerável tanto de pasto, quanto de área de recuperação de mata nativa. O Coletivo acionou voluntários da Brigada Iapy Iapy e também órgãos institucionais responsáveis. A área incendiada era a mesma que o Coletivo Japy fazia o monitoramento de uma onça parda, via câmeras trap, com muito entusiasmo, já que a presença dela significa que o trabalho de recuperação deste importante bioma está sendo eficaz, apesar dos atravessamentos existentes.

Uma semana após o incêndio o Coletivo recebeu uma denúncia sobre o aparecimento de uma onça parda, em área urbanizada próxima ao Morro da Baleia. Ela tinha atacado um animal doméstico. Para além do incêndio o crescimento desordenado e sem nenhuma fiscalização do turismo no local através das trilhas na região também ajudam no afugentamento da fauna para as áreas urbanizadas. Tendo a resposta da pergunta que abre este texto, sabemos quem invadiu o território de quem. Nós invadimos o território da onça. Mas o que significa, para além do óbvio, essa situação? O que temos de informação e pesquisa sobre o assunto?

Vamos começar com a área de amortecimento, que vamos dizer que é a saia da Serra do Japi e sua função é justamente o que diz o nome: amortecer o impacto da urbanização ao meio ambiente natural e todas suas formas de vida. São áreas extremamente importantes para a vida silvestre, servindo como último refúgio, pois caso essa área esteja degradada, vemos aumento nas ocorrências de animais silvestres em áreas urbanizadas.

E então temos o que chamamos de efeito de borda, que altera, e muito, a luminosidade, os ventos, a umidade, então com isso temos um impacto na reprodução dos animais silvestres, impacto direto na mata nativa, impacto no trânsito dos animais silvestres naquela região e tudo se agrava ainda mais quando temos animais domésticos, o que sempre ocorre, nessas áreas.

A borda da floresta é diferente do núcleo da floresta, por todo o acima citado (luminosidade, umidade, ventos e etc) e precisamos dessas áreas definidas, respeitadas e preservadas. Mas o que vemos é o avanço da borda da floresta ao núcleo. Sabem o que mais isso pode gerar, inclusive? Maior risco de transmissão de doenças que não temos imunidade, aumentando o risco de epidemias e pandemias. Complexo né?

Por isso o Coletivo Japy continua sendo um pouco incômodo para algumas pessoas, pois não trataremos do tema de forma rasa e despreocupada. Nós olhamos para o meio ambiente natural com o olhar da ecologia, de forma interligada, conectada. Para o caminhar da onça, nossa defesa está justamente na preservação, conservação e recuperação de corredores ecológicos, por exemplo, que conectem ilhas verdes. E por que isso é tão importante?

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Hoje em dia temos ilhas verdes, que se assemelham a florestas consolidadas a primeira vista, mas que não conseguem exercer sua função ecológica. Ocorre uma limitação genética de fauna e flora, já que, por exemplo, os animais silvestres se reproduzem com indivíduos da mesma família, que com o tempo leva a extinção dessas espécies. Além disso, temos com a proximidade com animais domésticos um processo de afugentamento da fauna, impactando na escolha de caminho que fazem para se alimentar, procriar, viver, ocasionando remanescentes de florestas sem fauna, sem dispersão de sementes, sem controle natural das espécies e gerando um amplo desequilíbrio. Por fim, impacto direto na nossa vida, já que como uma espécie animal, dependemos também de um meio ambiente sadio e equilibrado.

Dito tudo isso, como será que caminha o processo da empresa privada, concessionária do aeroporto de Jundiaí, VOA-SP contra a instituição de pesquisa, resgate e reabilitação de fauna, extensão rural, Associação Mata Ciliar? E o que será que a AMC tem a dizer sobre isso tudo? Vale nos atualizarmos.(Foto: Letícia Pereira – Coletivo Japy/ câmera trap de monitoramento)

JULIANA OLIVEIRA

É advogada, orientadora social, alfabetizadora popular e presidente do Coletivo Japy, movimento social fundado em 2021 para atuação no território nas pautas socioambientais.

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