Quem é cego vive respondendo perguntas curiosas. Algumas são tão repetitivas que eu já penso em imprimir um folheto de respostas. Uma das campeãs é: “João, para conhecer uma pessoa você precisa passar a mão no rosto dela?”. Sempre respondo dando risada. Imagine a cena. Eu chego para alguém que acabei de conhecer e já vou colocando a mão na cara da pessoa. Acho que, antes de descobrir quem ela é, eu descobriria onde fica a delegacia mais próxima! A verdade é bem diferente. Tocar o rosto é um gesto de intimidade. Eu conheço assim apenas quem faz parte da minha vida de um jeito especial: minha esposa, minha filha e minha mãe. O carinho, o contorno do rosto, o jeito da pele… tudo isso faz parte da memória que o coração guarda. Agora, sabe como conheço a maioria das pessoas? Pelos cotovelos.
Isso mesmo. Se eu pudesse fazer uma lista, seriam centenas de cotovelos inesquecíveis. Cotovelos que me ajudaram a atravessar uma avenida movimentada, a encontrar uma sala desconhecida, a subir uma escada, a desviar de um poste que resolveu nascer bem no meio da calçada ou simplesmente a chegar ao lugar onde eu precisava estar. Cada cotovelo estendido representa uma história. Alguns vieram de amigos, outros de pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Muitos nem sabem o quanto aquele gesto fez diferença. Para quem oferece, pode durar poucos minutos. Para quem recebe, pode ficar guardado para sempre.
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É curioso pensar que muita gente acredita que pessoas cegas conhecem o mundo tocando o rosto das pessoas. No meu caso, conheço o mundo pela bondade delas. E, quer saber? Talvez isso aconteça com todo mundo. A aparência costuma chamar a atenção primeiro, mas é a atitude que permanece na lembrança. Afinal, depois de um tempo, ninguém é lembrado apenas pelo rosto bonito, pela roupa elegante ou pelo penteado impecável. O que realmente fica é a forma como fez o outro se sentir.
Por isso, se um dia você encontrar uma pessoa cega e oferecer o seu cotovelo com respeito e naturalidade, saiba que talvez você nem imagine, mas acabou de entrar para a minha coleção de boas lembranças. Existem pessoas que conhecemos pelo nome, outras pelo rosto… mas as mais especiais são aquelas que reconhecemos pela gentileza. Porque “o rosto pode até apresentar uma pessoa, mas é a bondade que faz alguém ser inesquecível”.(Foto: Mart Production/Pexels)

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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