O que chamo de “alento administrado” é exatamente isso: a arte de conceder o mínimo para desmobilizar o máximo. É a engenharia, a política do suspiro: permite-se ao oprimido respirar um pouco, para que ele não se afogue em desespero e se volte contra o opressor. Mas o alento administrado não transforma a estrutura; ele administra a insatisfação. Ele cria a ilusão de que o sistema pode ser humanizado, de que o Estado pode ser neutro, de que a burguesia pode ser parceira. E, ao criar essa ilusão, adia a luta, enfraquece a organização, domestica a revolta.
Na América Latina, o neodesenvolvimentismo dos anos 2000 foi o exemplo mais acabado dessa armadilha. O lulismo brasileiro, o kirchnerismo argentino, o chavismo venezuelano, todos, em diferentes graus, promoveram inclusão pelo consumo, transferência de renda e crédito popular. Mas não enfrentaram as estruturas de poder dentro da engenharia de consenso: o latifúndio permaneceu intocado, o rentismo continuou a sugar o orçamento, a mídia oligopolizada seguiu fabricando consentimento, a financeirização avançou. André Singer descreveu o lulismo como um “reformismo fraco”: melhorou a vida dos pobres sem alterar a correlação de forças. Francisco de Oliveira foi mais contundente: chamou o fenômeno de “hegemonia às avessas”. Os setores populares chegaram ao governo, mas não ao poder. O poder real (o econômico, o midiático, o judiciário, o militar) permaneceu nas mãos das velhas oligarquias.
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Ruy Braga mostrou que o precariado foi parcialmente integrado pelo consumo, mas permaneceu desorganizado. O trabalhador de aplicativo, o terceirizado, o informal todos experimentaram uma melhora material, mas não construíram instrumentos de luta dentro desta engenharia política.
Quando a crise chegou e em 2014-2016 essa melhora evaporou. E a raiva que poderia ter se voltado contra o capital se voltou contra a esquerda que prometeu e não cumpriu. O golpe de 2016 e o bolsonarismo não foram acidentes. Foram o desfecho de um processo de desmobilização que durou mais de uma década.
Eu vivi esse processo de perto, como pesquisador e como cidadão. Vi a esquerda brasileira trocar a organização popular pela gestão da pobreza. Confundiu popularidade com poder. Acreditou que o consumo bastava. E quando o golpe veio, as bases não tinham conselhos, sindicatos combativos, imprensa própria, caixas de greve, cozinhas comunitárias ou redes de solidariedade. Tinham apenas a memória de uma melhora de consumo que não foi garantida por poder popular. O resultado foi o fascismo…(Foto: Gemini)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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