Engenharia do consenso: Onde a ESQUERDA errou(3)

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O conceito de “corações e mentes” emergiu na Guerra do Vietnã como a tentativa dos Estados Unidos de conquistar a população vietnamita. Embora tenha sido um fracasso em termos militares, o conceito sobreviveu como metáfora para qualquer disputa que envolva adesão popular. A esquerda, em sua trajetória recente, perdeu essa batalha não por falta de boas intenções ou de propostas, mas por incapacidade de entender que a política é também, e cada vez mais, disputa de afetos, de narrativas, de imaginário.

Nos anos 1960 e 1970, a esquerda brasileira tinha uma compreensão intuitiva disso. As Ligas Camponesas, o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, o Teatro de Arena de Augusto Boal, as canções de Geraldo Vandré e Chico Buarque(foto), tudo isso era uma tentativa de disputar os corações e mentes por meio da cultura. Havia uma compreensão gramsciana difusa de que a revolução passava pela formação de um novo senso comum.

Mas com o golpe de 1964, a ditadura, e depois a redemocratização, essa veia foi se atrofiando. A esquerda institucional passou a se concentrar na disputa eleitoral e no aparelho de Estado, confiando que os bons resultados governamentais falariam por si. Abandonou a cultura, abandonou a comunicação de massa, abandonou a formação de quadros para a batalha simbólica.

A direita, enquanto isso, reorganizou-se nos porões da ditadura, nas escolas de negócios, nos think tanks financiados pelo capital internacional, e mais recentemente, na internet. Gramsci já nos alertava: a crise consiste justamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer. Esse interregno, como ele chamava, é um momento de fenômenos mórbidos. A extrema-direita é um desses fenômenos mórbidos, mas também é uma forma de novo que se anuncia no velho. Nós, progressistas, ainda não conseguimos dar à luz a nossa própria modernidade.

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Há, porém, um aspecto dessa guerra cultural que a esquerda negligenciou de forma particularmente grave: o papel da religião na construção do senso comum. Porque não se conquistam corações e mentes sem compreender onde esses corações e mentes são formados, consolados e mobilizados. E, no Brasil do século XXI, esse lugar é, para dezenas de milhões de pessoas, o templo, a célula, o culto, o louvor.

A esquerda brasileira, em sua trajetória recente, cometeu um erro estratégico de consequências imensuráveis: tratou a religião como um resquício do atraso, um território hostil a ser enfrentado ou, na melhor das hipóteses, ignorado. Herdamos uma tradição ilustrada que via no fenômeno religioso apenas o “ópio do povo” (numa interpretação distante do que Marx afirmava), sem perceber que o ópio, quando administrado por uma instituição capilar e afetiva, pode se tornar o mais potente adesivo social. Enquanto nos mantínhamos presos a uma linguagem racionalista e a uma prática política centrada no Estado, a direita, e especialmente a extrema-direita, ocupou o vazio que deixamos nos templos.

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A ascensão do pentecostalismo nas últimas quatro décadas não foi apenas um fenômeno demográfico ou teológico; foi uma transformação profunda no que Gramsci chamaria de senso comum. Valores como a prosperidade como bênção, a autoridade como dom divino, o sofrimento como prova e, acima de tudo, a política como extensão de uma guerra espiritual entre o bem e o mal foram sendo tecidos no cotidiano de milhões de brasileiros.

As grandes mudanças religiosas nunca se restringem ao dogma: elas reorganizam as emoções, a vida doméstica, a relação com o tempo e com o poder. Algo análogo se passou no Brasil com a virada neopentecostal: criou-se uma subjetividade dócil ao autoritarismo e receptiva à linguagem do inimigo interno. Brizola já avisara…

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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