JP e eu: A vida acadêmica segundo dois atrasados

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João Paulo Rossin Polo poderia ser mais um cidadão com RG, CPF, título de eleitor, diploma universitário e uma vida anônima. Essa versão do rapaz de mais de 1,80 m, bom papo e ideias que fogem da caixinha até poderia existir. Mas o ator e jornalista JP Polo, nome fácil quando o assunto é comunicação e diversidade, preferiu fazer da sua edição limitada uma experiência que elevasse à máxima potência a essência de um sagitariano nascido em 13 de dezembro.

Conheci JP no segundo semestre do curso de Comunicação Social da antiga Faccamp, hoje UniFaccamp, em 2006. Ele é daquelas pessoas que chegam e ocupam o espaço sem precisar ser invasivo. Entendia todas as matérias, inclusive as mais cansativas de Sociologia — meu grande desafio naquela época da graduação. Além do bom papo, tinha uma capacidade impressionante de captar as ideias mais criativas no ar e transformá-las em verdades absolutas, sem jamais assumir a posição de dono da verdade.

A amizade nasceu naturalmente, entre momentos hilários que começaram na vida acadêmica e ganharam espaço na vida. Formado em Artes Cênicas pela Unicamp — e, até hoje, nunca entendi essa escolha de se tornar jornalista, já que ele poderia muito bem ser um astrofísico famoso ou um daqueles cientistas capazes de construir o próprio acelerador de partículas no quarto. Pelo menos, essa é a minha avaliação, sem qualquer embasamento científico —, JP já trilhava seu caminho na comunicação social, apresentando o Boa Tarde, na antiga TVE Jundiaí. Foi justamente por essa trajetória que acabou chegando à Faccamp.

Atualmente, é consultor especializado em Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I). Segundo uma rápida consulta ao Google, houve uma sólida transição de carreira do jornalismo tradicional para os ambientes corporativo e cultural. JP Polo tornou-se uma das referências brasileiras no desenvolvimento de estratégias inclusivas e de comunicação inclusiva. Ou seja, aquele sujeito que já tinha boas ideias na faculdade transformou o repertório em conhecimento, metodologia e atuação profissional. A academia perdeu um possível cientista, mas a comunicação ganhou um especialista.

Entre tantos momentos hilários que tive a oportunidade de compartilhar com ele, além dos excelentes trabalhos que realizamos juntos em grupo, um episódio envolvendo carona merece registro. Eu sou completamente desligado quando o assunto é marca ou modelo de carro. Naquela época, morava na Vila Arens, em frente à garagem da Cometa, no 13º andar de um prédio. Por estar nas alturas, nosso combinado era simples e objetivo: “Colega, quando eu ligar e falar ‘desce’, você desce”, alertava JP.

Em uma dessas operações de desembarque vertical, saí da portaria e encontrei um Palio estacionado. A cor era uma incógnita: nunca soube dizer se era marrom, fúcsia ou alguma tonalidade que nem mesmo a indústria automobilística havia catalogado. Entrei, pedi licença, como sempre faço, fechei a porta e, quando olhei para o lado do motorista, soltei, espantado:

— Você não é o JP!

Foi então que percebi: tinha entrado no carro errado. Mas, convenhamos, a cor e o modelo eram iguaizinhos. Juro!

Nem deu tempo de pedir desculpas. Saí do veículo e, no Palio estacionado logo atrás, estava JP, às gargalhadas. Entrei no carro certo e, tentando encontrar alguma justificativa para o meu ato falho — embora não tivesse argumento algum —, soltei que o carro tinha a mesma cor.

JP, com toda a tranquilidade do mundo, respondeu:

— Mas o meu carro tem duas portas, e aquele tem quatro!

Foi somente naquele instante, depois de tantos meses de caronas, que descobri que o modelo do carro dele tinha apenas duas portas. Rimos e seguimos para a faculdade. Afinal, o importante era chegar à aula, mesmo que, por alguns segundos, eu tivesse feito uma escala em outro veículo.

Em uma das nossas idas à Faccamp, o tempo começou a fechar. Tudo tranquilo. Não éramos, nem somos, feitos de açúcar. O problema é que, quando chegávamos, já não encontrávamos vagas próximas ao portão da faculdade. Então, estacionávamos nas imediações e seguíamos caminhando tranquilamente.

Só que, naquele dia, a chuva resolveu participar da programação acadêmica. Não era nenhum dilúvio bíblico, mas molhava o suficiente para exigir providências. Saí correndo a todo vapor, aos pinotes, porque, naquela época, eu ainda tinha mobilidade e as pernas funcionavam muito bem.

Quando olhei para trás, JP vinha correndo de um jeito que parecia um flamingo se preparando para alçar voo. A cena foi tão hilária que tive um acesso de riso e precisei me sentar na calçada, que também estava molhada. E nem liguei para isso. Naquele momento, a prioridade era sobreviver à crise de gargalhadas provocada pela coreografia involuntária do meu amigo.

Em um outro momento, outra situação não hilária, mas cômica para nós dois. Não sei se a UniFaccamp ainda mantém aquela avaliação semanal conhecida, na nossa época, como PAAD (Programa de Avaliações e Atividades Discentes). Ela era aplicada por um mediador, que recolhia as provas ao final do tempo regulamentar para posterior encaminhamento ao professor responsável pela disciplina.

Quando a avaliação acontecia no segundo período, que começava por volta das 21h15, depois do intervalo, eu e JP até conseguíamos cumprir o cronograma. Mas, quando era no primeiro período, a partir das 19h10, a situação ficava um pouco mais complicada. Afinal, às vezes, para nós, 20h ainda eram 19h10. Nossos relógios tinham um fuso horário próprio, sem reconhecimento pelo Observatório Nacional.

Em uma avaliação de Economia, marcada para o primeiro período, chegamos quase no nosso horário oficial: 19h50. A prova já estava em andamento, mas entramos na sala como se nada estivesse acontecendo. Havia, porém, um pequeno detalhe metodológico: nenhum dos dois tinha a matéria que seria cobrada no PAAD, por conta da ausência nas duas últimas aulas.

Foi aí que entrou em cena o talento de negociador nato do JP. Ele procurou o mediador, Rodrigo, um sujeito muito gente boa, e apresentou a proposta:

— Não temos a matéria. Podemos pegar o caderno de algum colega para ver o que vai cair?

Rodrigo concordou e só acrescentou uma condição: cada um deveria procurar um colega diferente para consultar o conteúdo.

Fui logo falar com a Luciana Müller, enquanto JP, se não me falha a memória, procurou o Anderson Müller para pegar o caderno. Ficamos em pé, batemos os olhos nos exercícios e anotações das aulas e, em seguida, fomos para as duas carteiras que ficavam junto à parede, próximas à porta.

JP sentou na frente e eu atrás. Começamos a resolver as questões. Não se passaram nem cinco minutos e eu já tinha chegado ao resultado. Foi quando ele perguntou:

— Deu 60?

Era exatamente o mesmo resultado a que eu havia chegado nos cálculos. Respondi que sim. Levantamos, entregamos as avaliações e saímos da sala antes de todo mundo.

Até hoje me lembro do olhar de Wandinha Addams da Luciana Müller para nós. Afinal, chegamos por último, sem a matéria, consultamos os cadernos e fomos os primeiros a entregar a prova. Uma verdadeira operação de eficiência acadêmica, embora a metodologia de preparação para o exame não fosse exatamente recomendada pelos manuais pedagógicos.

Seguimos para o prédio B, o nosso já consagrado e popularmente conhecido bar, para tomar uma cerveja. Porque, depois de uma avaliação de Economia resolvida em tempo recorde, nada mais justo do que celebrar o resultado — independentemente da bibliografia consultada.

Agradeço por ter tido a oportunidade de conviver com JP Polo e compartilhar tantos momentos especiais, tanto na vida acadêmica quanto na profissional. Ele tem um sorriso que abraça as pessoas e uma maneira muito particular de fazer com que você se sinta a pessoa mais importante do mundo enquanto conversa com ele. É uma qualidade rara, que não se aprende em sala de aula, não consta em grade curricular e não rende certificado de conclusão.

Hoje, o WhatsApp mantém nossa amizade em dia, e as redes sociais nos permitem acompanhar e celebrar as conquistas, os projetos e os avanços desse grande amigo. A distância e a correria da vida adulta mudaram a frequência dos encontros, mas não alteraram o afeto, a admiração e a cumplicidade construídos ao longo dos anos.

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JP, se a vida fosse uma produção audiovisual, nossa passagem pela Faccamp renderia uma boa série de comédia, com direito a episódios especiais, participações de colegas inesquecíveis e uma trilha sonora que misturaria o barulho da chuva, a chamada para o PAAD e o motor daquele Palio de duas portas que, por pouco, não virou protagonista de uma confusão automobilística.

E é isso que fica: algumas pessoas passam pela nossa vida como colegas de faculdade, outras como parceiros de profissão, mas existem aquelas que conquistam um lugar definitivo, quase como irmãos que a vida escolheu por nós.

Você é dessas pessoas, JP!

E, como todo bom irmão, tenho liberdade para dizer que você é um sujeito extraordinário, inteligente, talentoso e dono de um coração enorme. Só não me peça para reconhecer seu carro no estacionamento. Depois daquele episódio, aprendi que amizade é uma coisa, identificação veicular é outra.

Um grande abraço, meu amigo! Que a vida continue rendendo boas histórias, conquistas e gargalhadas. E que nunca nos falte assunto, cerveja, bom humor e disposição para rir de nós mesmos.

Porque, no fim das contas, a faculdade nos deu um diploma, o jornalismo nos deu histórias, mas a amizade nos deu um irmão. E esse título, meu caro JP, não precisa de reconhecimento do MEC.

MIGUEL ÉDI GOMES

É jundiaiense, tem 55 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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