Na noite do último domingo(25), ao se dirigir à Avenida Paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou uma ideia que precisa ultrapassar o discurso de ocasião: depois de eleito, um presidente não governa apenas para o partido que o elegeu, mas para todo o país. Essa afirmação contém um dos desafios centrais das democracias contemporâneas: transformar a vitória eleitoral em responsabilidade pública, sem confundir a legitimidade das urnas com o direito de governar exclusivamente para os próprios eleitores.
Importante saber que os resultados do interior paulista, especialmente da região de Jundiaí, ajudam a compreender o Brasil que emerge das urnas. A vitória de Flávio Bolsonaro nos sete municípios da Região Metropolitana de Jundiaí, com aproximadamente 295 mil votos contra 191 mil de Lula, não representa uma mudança de lado político. Revela, antes, a persistência de uma determinada configuração eleitoral e as disputas que atravessam sua composição.
Em Jundiaí, Flávio obteve 61,69% dos votos, contra 38,31% de Lula. O dado isolado parece confirmar a força da direita na região. Entretanto, a comparação com o primeiro turno permite observar outra dimensão: mesmo sem reverter a preferência majoritária, Lula ampliou sua participação entre os dois candidatos finalistas. A diferença não está em uma suposta conversão coletiva do eleitorado, mas no deslocamento de proporções, nas fissuras que atravessam territórios aparentemente consolidados e na capacidade de uma campanha de alcançar pessoas que não necessariamente mudaram de campo político.
Essa distinção importa, uma vez que a democracia não se explica apenas pela identificação de quem venceu ou perdeu, mas também pela compreensão de como os votos se distribuem ( lestamos falando da geografia do voto) quais grupos permanecem mobilizados e quais tensões se manifestam dentro de uma mesma comunidade política. Uma cidade pode conservar sua orientação eleitoral predominante e, ainda assim, experimentar movimentos significativos em seu interior.
O desafio de governar começa justamente onde reconhecer a pluralidade não significa transformar a diferença em inimigo.
Um partido político se constrói coletivamente. Não é apenas uma sigla, um candidato ou uma direção nacional, trata-se de uma organização atravessada por militâncias, alianças, disputas internas, movimentos sociais, interesses territoriais e projetos de sociedade. Seu alcance depende da capacidade de organizar demandas e construir compromissos que ultrapassem a experiência individual do voto.
Essa dimensão coletiva também exige responsabilidade. Nenhuma organização partidária está acima das regras democráticas, e nenhuma vitória eleitoral autoriza a desqualificação de quem pensa diferente. O resultado das urnas estabelece uma legitimidade política; a Constituição, as instituições e os direitos fundamentais estabelecem os limites e as responsabilidades do exercício do poder.
Por isso, as controvérsias sobre a apuração, a extensão do horário de votação e as declarações posteriores dos candidatos precisam ser tratadas com precisão. Se partidos de diferentes campos políticos solicitaram medidas relacionadas ao funcionamento da votação, a análise não pode apresentar a decisão institucional como iniciativa unilateral de um deles. É necessário distinguir os pedidos apresentados, a decisão adotada pela Justiça Eleitoral e seus fundamentos documentados.
O mesmo rigor vale para as declarações de Flávio Bolsonaro. Se, antes da eleição, ele afirmou que respeitaria as decisões das urnas e, depois, passou a defender um pedido de anulação, existe uma tensão política que merece ser examinada. Mas é necessário estabelecer exatamente o que foi dito, em que circunstâncias e qual medida jurídica foi efetivamente anunciada ou protocolada. Questionar uma declaração pública não significa antecipar uma conclusão jurídica; significa cobrar coerência e responsabilidade de quem disputa o poder.
A democracia depende tanto da possibilidade de contestar decisões quanto da obrigação de respeitar os procedimentos legítimos que as resolvem. Existe, contudo, uma fronteira que não admite relativização, a violência política. Ameaças, agressões e intimidações contra pessoas em razão de suas posições eleitorais corroem a liberdade de participação e transformam o espaço público em território de medo.
Relatos de agressões durante atividades de campanha, ataques contra mulheres e episódios de violência em contextos eleitorais exigem investigação, identificação dos responsáveis e transparência das autoridades. Ao mesmo tempo, é indispensável distinguir aquilo que está documentado daquilo que permanece sob apuração. Atribuir uma agressão a agentes do Estado, por exemplo, requer evidências específicas, assim como a identificação de motivação política exige mais do que a coincidência temporal com uma eleição.
Essa exigência de rigor não enfraquece a denúncia. Ao contrário, impede que fatos graves sejam reduzidos a disputas de versões e fortalece a responsabilização de quem efetivamente praticou a violência.
O direito ao voto também depende das condições materiais para exercê-lo. Iniciativas de transporte solidário podem contribuir para que pessoas idosas, moradores de áreas rurais e eleitores com dificuldades de deslocamento cheguem às urnas. Para cumprir essa finalidade democrática, porém, devem respeitar a legislação eleitoral, sem condicionar o transporte ao voto em determinado candidato. Garantir acesso é ampliar a cidadania; constranger a escolha é violá-la.
A afirmação de Lula sobre governar para todo o país oferece, portanto, uma chave para interpretar o período posterior à eleição. Não basta convocar a unidade nacional. É preciso construí-la por meio de políticas públicas, proteção de direitos, diálogo institucional e capacidade de reconhecer as necessidades de quem não votou no governo eleito.
Isso não significa apagar conflitos, suspender diferenças ideológicas ou exigir que a oposição abandone suas posições. Uma democracia viva comporta divergências, fiscalização e disputa. O que ela não pode normalizar é a substituição do argumento pela ameaça, do processo legal pela intimidação ou da pluralidade pela exclusão.
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A região de Jundiaí mostra por que essa discussão precisa ser feita sem simplificações: a permanência de uma maioria eleitoral não elimina os movimentos internos da sociedade. Da mesma forma, uma vitória nacional não dissolve as divisões do país. O resultado das urnas oferece um retrato político de determinado momento, não uma autorização para ignorar quem ficou do outro lado da contagem.
O desafio de um partido que chega ao governo é converter sua força coletiva em responsabilidade pública. O desafio de quem permanece na oposição é exercer o contraditório dentro das regras democráticas. E o desafio das instituições é assegurar que ambos possam atuar sem que o direito à participação dependa de adesão ideológica.
A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que ninguém perca seus direitos por pensar de maneira diferente. A eleição escolhe quem governará. Não escolhe quem merece pertencer ao país.

SARA WAGNER YORK
É psicanalista, jornalista, pedagoga, biomédica, doutora e mestra em Educação/ UERJ. PosDoc UNESP/ FAPESP. Primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro. Imortal da Academia de Letras do Rio de Janeiro e percursora nas discussões das cotas trans no Brasil.
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