ABUSO SEXUAL: Pesquisa em escola de Jundiaí revela conhecimento de adolescentes

abuso

A pesquisa “Efetividade da intervenção para conhecimento de abuso sexual entre adolescentes escolares”, feita em Jundiaí, foi publicada recentemente pela Refacs(Revista Família e Saúde no Contexto Social). O estudo, feito numa escola pública com 114 adolescentes, entre os anos de 2023 e 2024, teve como objetivo avaliar a efetividade de uma ação educativa sobre o conhecimento do tema da violência sexual em adolescentes. A intervenção mostrou aumento significativo do conhecimento dos estudantes sobre abuso sexual, principalmente em relação à Unidade Básica de Saúde e ao Centro de Referência de Assistência Social, destacando a importância da conscientização para a proteção dos adolescentes e a mitigação da violência sexual. Também ficou claro que muitos jovens tinham informações distorcidas sobre abuso sexual e, claro, uma pequena parcela revelou que foi vítima. O Jundiaí Agora entrevistou a dentista Marília Jesus Batista de Brito Mota(foto ao lado), que tem mestrado e doutorado em Saúde Coletiva pela Unicamp. Ela coordenou o trabalho das duas futuras médicas, Laura Silva Cassiano e Maria Clara Faria Flamia Dinis, ambas da Faculdade de Medicina de Jundiaí(FMJ), juntamente com a nutricionista e advogada, Cleomar Ana de Souza Valentim, com mestrado em Ciências da Saúde pela FMJ. Confira:

Por que se interessaram por este tema?

O tema se desenvolveu durante uma disciplina de estágio na UBS, que se chama Práticas de Saúde Coletiva. Nesta disciplina os alunos fazem ações de educação para a saúde na comunidade, e o grupo de uma das autoras, a Laura, foi a uma escola em Jundiaí conversar com alunos adolescentes sobre ansiedade e depressão, quando se depararam com o tema do abuso sexual e de como este acontecimento pode impactar a vida de um adolescente. A partir daí o grupo elaborou uma proposta de conversa sobre como reconhecer um abuso sexual e como denunciar e buscar ajuda nesta situação. Quando a Laura terminou a disciplina, ela me procurou para orientar uma pesquisa com este tema e pensamos em avaliar se estratégias de conscientização e educação para a saúde podem ser efetivas para intervir em casos de abuso sexual e também, indiretamente gerar a reflexão para prevenir novos casos. Anteriormente, já havia realizado um estudo com outros alunos sobre a violência doméstica e violência sexual, que demonstram a importância de trabalharmos estes temas que podem ser geradores de muito sofrimento mental. 

Material distribuído aos estudantes da escola estadual de Jundiaí durante a realização da pesquisa

Aliás, defina ‘abuso sexual’…

A violência sexual é definida como qualquer ação sexual não desejada, incluindo o intercurso sexual, a comercialização ou atos para usufruir da sexualidade de uma vítima, mediante o uso de coerção, manipulação, intimidação ou aproveitamento de vulnerabilidade física, psíquica ou etária.

Como a pesquisa foi elaborada?

Foi ensaio clínico com turmas do ensino médio, controlado e aberto, o que quer dizer que houve um intervenção em um grupo, e no outro não houve (grupo controle). A escolha do grupo teste foi por sorteio. Os jovens sabiam que estavam que estavam no grupo teste ou controle. A intervenção foi uma palestra sobre o tema abuso sexual, a importância de denunciar e como buscar ajuda. Os dois grupos (teste e controle) responderam um questionário de avaliação do conhecimento antes e depois da intervenção,  com intervalo de 15 dias. O grupo teste (de intervenção) teve a palestra antes de responder o segundo questionário. O grupo controle só teve a palestra após responder os dois questionários para não ter interferência já que o objetivo do estudo foi demonstrar que uma ação, ainda que seja pontual, pode aumentar o conhecimento dos adolescente acerca de um tema tão relevante.

Participaram 114 alunos com predominância de meninas de 16 anos e corda pele parda. A escolha de meninas pardas foi proposital?

Essas características não foram propositais já que a escolha foi por sorteio. Foi uma descrição da amostra mesmo. Porém, é conhecido que as meninas são as maiores vítimas de violência sexual.

A pesquisa afirma que “houve aumento no conhecimento no grupo teste, com significância estatística dos itens como denunciar de 63,9% para 91,8%, conhecer os serviços oferecidos na UBS, de 23% para 77% e serviços do Centro de Referência de Assistência Social, de 47,5% para 82% . Explique o que essa afirmação representa…

Essa afirmação quer dizer que justamente nestes pontos enfatizados é que a palestra fez diferença no conhecimento dos estudantes que participaram da intervenção, e por isso a importância de comparar com um grupo que não teve a palestra durante o estudo. Algumas informações são muito faladas. Contudo, apresentar os serviços de apoio nos casos de abuso e mostrar um caminho de ajuda pode não despertar interesse nos jovens. Por isso a conscientização é tão importante, seja para si próprio ou para ajudar alguém que está passando pela situação.

Quais as fontes de informações destes adolescentes?

Acredito que além da internet, a escola pode trazer algumas discussões do tema e a mídia em si traz algumas abordagens mais recentemente, como a televisão, cinema, livros e outros meios de comunicação.

Muitos alunos apresentaram informações distorcidas?

A maioria afirmou conhecer o que era abuso sexual, mas sim, muitos não sabiam definir, e consideram o abuso apenas como ato sexual em si, e na verdade o conceito é mais amplo e começa desde uma conversa, uma exposição da imagem, um toque indesejado entre outras atitudes nesse contexto.

Ficou evidente que uma parcela dos jovens entrevistados foi (ou é) vítima de abuso sexual?

Felizmente não é a maioria, porém houve sim uma parcela que afirmou ter sofrido abuso em algum momento da vida. O relato de abuso inclusive foi maior após a palestra, o que acontece em outras intervenções deste tipo, pois muitas vezes apenas após a explicação é que algumas pessoas identificam que sofreram abuso. No artigo completo trazemos um percentual de em torno de 20%. Porém é necessário deixar claro que este estudo não teve o objetivo de avaliar esta prevalência e que esta prevalência não pode ser atribuída a população de adolescentes, ou daquela escola ou daquela região. O objetivo do estudo foi avaliar o ganho no conhecimento por meio de uma palestra em escolares adolescentes. Também é preciso salientar que antes da intervenção foi alinhado com setores responsáveis, que os casos de violência sexual percebidos poderiam aumentar a demanda da instituições pois durante a palestra foi orientado que se houvesse essa percepção de algum relato, tanto a escola quanto a UBS estariam aptos a receber essa demanda.

Marília e as pesquisadoras

Acredita que estas vítimas buscaram auxílio nos serviços citados nas intervenções feitas por vocês?

Espero que sim. Com nossos dados não tenho como afirmar. O que podemos dizer é que a maior parte dos abusadores são conhecidos, e as vítimas são meninas. Sendo assim é muito importante trabalhar com as famílias e combater o machismo estrutural da sociedade.

É possível afirmar que os resultados apresentados nesta escola espelham a realidade de outras, inclusive particulares?

Pelo desenho do nosso estudo, não podemos afirmar cientificamente que o cenário desta escola é o mesmo de outras e em outros contextos socioeconômicos. Porém, com certeza reflete uma realidade brasileira de muitas escolas, e acredito que em algumas regiões este problema pode ser mais acentuado.

Como este estudo pode ajudar o poder público? Pretendem encaminhar os resultados para a Prefeitura, por exemplo?

Este estudo foi realizado após reuniões com áreas como a assistência social e saúde da Prefeitura, inclusive para auxiliar no questionário e nas informações da palestra. Com certeza encaminharemos o estudo para a Prefeitura, inclusive como retorno pelo apoio na realização do mesmo. O estudo já foi apresentado em congressos também. Já houve um evento sobre o tema na FMJ, promovido pelo REDECA onde atores do poder público estavam presentes.

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