Com o perdão do trocadilho, as árvores da rua Anchieta, no centro de Jundiaí, se tornaram um pepino indigesto, um assunto espinhoso, para as últimas administrações. As plantas, localizadas nas duas calçadas, formam um verdadeiro túnel verde o que faz com que a rua seja uma das mais bonitas da cidade. Aliás, a via é considerada o primeiro corredor ecológico da cidade. O problema é que as espécies não são adequadas para a área urbana: quebram as calçadas e, em caso de queda, mesmo de galhos, podem ferir pedestres, danificar veículos e a fiação elétrica. O manejo delas começou a ser debatido ainda na gestão Pedro Bigardi(2013-2016). Em 2021, já na gestão Luiz Fernando Machado, o assunto foi retomado. Uma audiência pública foi realizada em 2023. Depois, o tema esfriou. Durante a transição, a equipe de Gustavo Martinelli incluiu as árvores da rua Anchieta no questionário com mais de 700 perguntas à equipe de Machado. Pelo que parece, a atual administração, pretende retomar a discussão desde o início. “A Unidade de Gestão de Planejamento Urbano e Meio Ambiente (UGPUMA) informa que, na ocasião da audiência pública realizada, apontou a necessidade do aprofundamento do estudo técnico sobre o tema e que, por conta de sua relevância e complexidade, irá tratar neste período com as Unidades de Gestão da Prefeitura envolvidas e com a comunidade para conclusão da análise”, explicou a Prefeitura.

Em junho de 2023, o promotor Claudemir Battaglini, ligado às causas do Meio Ambiente, escreveu aqui no Jundiaí Agora que “muitas árvores estão ligadas à vida das pessoas e das cidades, representando um valor paisagístico e memória histórica, como é o caso da Rua Anchieta. Imaginem este local sem a arborização que existe atualmente”. Verdade. Não dá para imaginar. A via é um verdadeiro oásis. A audiência pública fora realizada um mês antes da publicação do artigo e deixou o projeto de substituição das árvores bem claro. Ficou definido que a primeira fase do manejo iria retirar 26 árvores com risco eminente ou alto risco de queda. Seriam plantadas 15 novos exemplares, totalizando 41 árvores. A espécie sugerida foi a do ‘Amendoim Bravo”, que tem o nome científico de Pterogyne niten. Elas foram escolhidas por apresentarem maior resistência, rápido crescimento e garantir a manutenção do tradicional corredor verde, que garante a beleza e o sombreamento das ruas e avenidas. Só que em junho de 2023 a campanha eleitoral, mesmo que extraoficialmente, já corria solta. A retirada de árvores em pleno centro da cidade certamente poderia impactar os resultados das urnas. O manejo foi deixado para depois.

Três anos antes, também na gestão Luiz Fernando, a Unidade Unidade de Gestão de Infraestrutura e Serviços Públicos (UGISP), realizou análise técnica de 72 árvores da rua Anchieta(acima). A maioria delas, segundo nota técnica de uma empresa contratada, é antiga, com mais de 40 anos. Na ocasião, o risco de quedas foi afastado pelo Departamento de Parques, Jardins e Praças da UGISP. A maioria das árvores plantadas na via são da espécie Tipuana(Tipuana tipu), nativas em quase toda América do Sul. Também existem algumas Sibipirunas (Caesalpinia pluviosa), árvore nativa da mata atlântica encontrada na faixa que se estende do norte do Rio de Janeiro até o sul da Bahia. A diferença é que as tipuanas tem a madeira menos resistente.
O ex-prefeito deu uma sorte danada de não se ver com uma gigantesca batata quente nas mãos: com as tempestades que despencaram em Jundiaí nos últimos anos, uma das árvores – ou um galho que seja – poderiam ter se somado aos motivos políticos que não elegeram o candidato da situação. Agora, a situação controversa caiu no colo de Gustavo Martinelli já que as árvores continuam envelhecendo, as raízes seguem danificando as calçadas e o risco de acidentes é real. Contudo, haverá chiadeira dos defensores do Meio Ambiente caso a Prefeitura decida, no futuro, por substituí-las. O manejo deverá ser lembrado por eles daqui quatro anos. Por outro lado, se a opção for deixar como está, vítimas de possíveis acidentes envolvendo as árvores certamente procurarão a Justiça para o ressarcimento. Uma tragédia também será lembrada pelos futuros adversários políticos de Martinelli. Ainda seguindo a linha ecológica, o prefeito está com um baita abacaxi para descascar...(Marco Antônio Sapia)
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