A busca por sociedades mais justas permeia a história da filosofia, desde as reflexões gregas sobre a ética e a polis até as modernas teorias políticas. Analisando este percurso à luz de conceitos socialistas e comunistas de bem-estar social, emergem caminhos inéditos para enfrentar questões contemporâneas como saúde mental, trabalho, educação e desigualdade. A filosofia grega antiga, com Sócrates, Platão e Aristóteles, já investigava a relação entre o indivíduo e a sociedade, questionando virtudes, justiça e a organização da polis. Enquanto Platão propunha uma sociedade ideal com classes definidas e filósofos-reis, Aristóteles enfatizava a eudaimonia (florescimento humano) por meio do equilíbrio entre virtude e condições materiais. No entanto, essas reflexões eram limitadas por contextos de escravidão e exclusão.
Na filosofia medieval, pensadores como Avicenna (entre outras habilidades, filósofo e médico persa) integraram razão e revelação, argumentando que o Estado deveria prover condições para uma vida digna, antecipando ideias de bem-estar. Já na modernidade, o socialismo utópico de Owen e Fourier e, posteriormente, o socialismo científico de Marx e Engels, criticaram a exploração capitalista e defenderam a propriedade coletiva dos meios de produção como base para uma sociedade sem classes.
O Estado de bem-estar social (welfare state), originado com Bismarck na Alemanha do século XIX e expandido após a Segunda Guerra, buscou harmonizar capitalismo e direitos sociais por intermédio de educação pública, saúde universal e proteção ao trabalho. Todavia, para pensadores socialistas e comunistas, mesmo o welfare state mais avançado mantém estruturas capitalistas que geram alienação e desigualdade. Marx defendia que a verdadeira emancipação requer a superação da propriedade privada (dos meios de produção) e a distribuição conforme as necessidades, não apenas a contribuição.
A alienação no trabalho, tema central em Marx, continua a impactar a saúde mental. Um caminho inexplorado seria estruturas de gestão coletiva e redução da jornada de trabalho, não como concessão, mas como direito à autonomia e ao ócio criativo. Políticas de bem-estar inspiradas no socialismo poderiam integrar saúde mental comunitária e garantia de renda básica, assegurando dignidade independente da produtividade, despatologizando sofrimentos ligados à precariedade e criando espaços comunitários de apoio mútuo.
Na educação, a filosofia socialista, de Marx a Gramsci, enfatiza a educação como ferramenta de emancipação crítica, não apenas capacitação para o mercado. Experiências como as escolas unitárias propunham integrar trabalho intelectual e manual, rompendo com a divisão de classes. Pedagogias dialógicas, inspiradas em Paulo Freire, poderiam promover a reflexão filosófica crítica e a ação transformadora, formando cidadãos capazes de reinterpretar constantemente o bem-estar social.
Na cultura, a democratização da produção artística, com financiamento público não burocrático, poderia fomentar expressões plurais além da lógica comercial. Conceitos comunistas de propriedade comum sugerem responsabilidade coletiva sobre crianças e idosos. Isso implica creches públicas de qualidade e estruturas de cuidado para idosos baseadas em comunidades, não em famílias isoladas ou mercantilização. A seguridade social seria expandida para incluir não apenas aposentadorias, mas também acesso a atividades significativas na velhice, combatendo a solidão e a institucionalização.
A crítica socialista à acumulação capitalista aponta que a miséria é estrutural, não contingencial. Soluções inéditas poderiam incluir um imposto sobre riqueza extrema e a abolição de paraísos fiscais, combatendo a concentração e a perpetuação de desigualdades. A desmilitarização e o redirecionamento de gastos bélicos para cooperação internacional, inspirado no ideal comunista de internacionalismo proletário, seriam cruciais para promover a paz.
Caminhos tecnológicos inexplorados envolvem socializar os frutos da automação por meio de renda básica universal financiada por impostos sobre robótica e inteligência artificial, reduzindo a jornada de trabalho sem perda de renda. A expansão de modelos de cooperativas de produção com gestão dos funcionários-acionários combinaria planejamento estatal com autonomia local, aprofundando a democracia econômica.
Finalmente, uma ecologia socialista integraria justiça ambiental e social, reconhecendo que a crise ecológica é produto da lógica extrativista capitalista, com planejamento democrático de recursos naturais para assegurar sustentabilidade e equidade.
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Conceitos do socialismo e comunismo oferecem ferramentas para repensar radicalmente o bem-estar, indo além de pactos sociais paliativos. Caminhos inexplorados exigem coragem para experimentar novas formas de organização social, tendo autonomia, solidariedade e sustentabilidade como pilares de uma verdadeira ética do comum. Isso não significa abandonar conquistas do welfare state, mas transcendê-las rumo a uma sociedade desmercantilizada e verdadeiramente livre, onde a riqueza seja partilhada e a vida, em todas as suas fases, seja digna e plena de significado. Nada e nem ninguém se faz só!

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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