Num país de clima tropical, a experiência do calor deveria ser um traço de união. No entanto, longe de ser democrático, o calor atua como um dos mais precisos termômetros da injustiça social no Brasil. Ele não é sentido da mesma forma pela estudante em seu quarto com ar-condicionado e pelo pedreiro em uma obra exposta ao sol do meio-dia. Esta desigualdade térmica, forjada por séculos de exclusão, vai muito além do desconforto momentâneo: ela condiciona corpos, rouba oportunidades e compromete o desenvolvimento de toda uma sociedade.
A geografia do calor nas cidades do Brasil é um mapa vivo da história. O planejamento urbano excludente confinou as populações mais pobres, majoritariamente negras, às áreas desprovidas de infraestrutura verde: periferias distantes, encostas desmatadas e fundos de vale. Esses locais se transformam em ilhas de calor urbanas, podendo ser até 5°C mais quentes que bairros arborizados. A isso soma-se a moradia precária, onde telhas de zinco e paredes finas transformam lares em estufas. Esta não é uma coincidência geográfica, mas o resultado do racismo ambiental, que expõe grupos vulneráveis aos piores danos ecológicos. O suor que escorre no rosto de quem vive nesses lugares é, portanto, o suor de uma luta diária por equilíbrio fisiológico.
Este calor opressor custa caro, em todos os sentidos. Para o corpo, o preço é a saúde. Estima-se que 50 mil brasileiros tenham morrido entre 2000 e 2018 por causas associadas ao calor, um risco dramaticamente maior para quem vive em favelas. É a fadiga térmica crônica, a insolação, a piora de doenças cardiovasculares.
Para a mente, o preço é o futuro. Uma criança que dorme mal em um quarto abafado estuda numa escola sem ventilação adequada. Seu cérebro, sobrecarregado, tem a capacidade de concentração e memória prejudicada. O aprendizado escorre junto do suor, convertendo a desigualdade térmica em desigualdade educacional.
Para a economia, o preço é a produtividade. O cansaço extremo diminui o rendimento do trabalhador, especialmente daqueles em empregos informais ou ao ar livre, perpetuando ciclos de pobreza.
Romper este ciclo vicioso exige reconhecer o direito ao conforto térmico como um direito social fundamental. Não se trata apenas de instalar mais aparelhos de ar-condicionado, mas de promover uma transformação urbana radical e inclusiva. É necessário um investimento massivo em políticas de justiça climática: arborização prioritária das periferias, implantação de telhados verdes e claros, requalificação de habitações e a garantia universal de acesso a água e energia. Escolas e postos de saúde devem ser climatizados, tornando-se verdadeiros oásis de refrigeração pública.
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Em última análise, enfrentar a desigualdade do calor é mais do que uma questão ambiental ou urbanística; é um imperativo ético para o Brasil. É sobre permitir que uma criança estude, que um trabalhador descanse e que um idoso viva com dignidade, independentemente de seu CEP. Só quando a brisa fresca e a sombra se tornarem bens comuns a todos – e não privilégios de alguns -, poderemos construir um desenvolvimento social que seja verdadeiramente justo e sustentável. O futuro do país depende, também, de como decidimos resfriá-lo.(Tânia Rêgo/Agência Brasil)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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