Mas somente o alento administrado e a engenharia do consenso não explicam a ascensão da extrema-direita. Há um outro componente nessa equação, tão ou mais importante: a guerra cultural, a disputa pelos corações e mentes, a engenharia do consentimento que a direita, e especialmente a extrema-direita, soube conduzir com maestria enquanto a esquerda dormia no ponto. Foi assim que, ao me debruçar sobre a sistematização feita por analistas da comunicação política, o que alguns chamam de “os sete mandamentos da extrema-direita”, senti que ali se condensava, com precisão quase cirúrgica, o modus operandi que venho estudando nos últimos anos. Não se trata de um manual escrito pelos próprios extremistas. Trata-se de um espelho que devolve o rosto de uma estratégia que tem dominado a cena digital e, por extensão, a própria correlação de forças políticas.
E o que esse espelho revela é aterrador.
O primeiro mandamento – “Não jogue na defesa” – me remete a uma lição que aprendi nos arquivos: “enquanto você explica, eles ocupam o território”. A extrema-direita sabe que a opinião pública não se comove com desmentidos, mas com a percepção de força. Quantas vezes nos vimos, nós do campo progressista, enredados na tarefa interminável de desfazer calúnias, provar que não somos isto ou aquilo, enquanto nossos adversários lançavam novas ofensivas? A historiadora Ruth Ben-Ghiat, em seu estudo sobre os strongmen contemporâneos, mostra que essa tática é central para líderes autoritários: eles nunca se defendem; apenas acusam. Deslocam, assim, o centro de gravidade do debate para um campo que lhes é favorável: o da acusação permanente. Ao fazer isso, impõem ao oponente o fardo da prova, e, como todo advogado criminal sabe, quem tem o ônus da prova tende a perder quando o júri é movido por impressões, não por evidências.
O segundo mandamento – “Não use eufemismos” – toca-me particularmente porque convivi com uma geração que aprendeu a política como arte do dissimulo, do “veja bem”, do “não sou racista, mas”. Havia nisso um vício da esquerda institucional, que muitas vezes acreditava que a moderação na linguagem era o preço da governabilidade. A extrema-direita rompeu e mostrou sua face de forma brutal, mas eficaz: “Prefiro filho morto a filho homossexual”, “bandido bom é bandido morto”, “a ditadura foi um regime de exceção necessário”. Frases que antes ficavam confinadas a conversas de botequim ou porões de quartéis foram alçadas à condição de enunciados públicos, sem o filtro do pudor democrático. Esse realismo cru, aparentemente sincero, converteu-se em capital político. Nesta engenharia, a extrema-direita descobriu que não precisa mais embrulhar o veneno: pode entregá-lo a céu aberto, porque o público passou a valorizar a suposta tal autenticidade do insulto.
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O terceiro mandamento – “Controle a conversa” – é onde a influência de Gramsci se faz mais presente, ainda que deformada. O filósofo sardo ensinava que a hegemonia se constrói no interior da sociedade civil, na capacidade de um grupo dirigente fazer com que seus valores se tornem senso comum. A extrema-direita, sem nunca ter lido Gramsci talvez, intuiu que controlar a conversa significa definir o que é debatível e em que termos. Quando um militante, diante de uma prova cabal da misoginia de um líder, responde com a declaração da esposa que o elogia como marido, ele não está debatendo; está mudando a moldura. E nessa mudança, o oponente perde tempo tentando explicar que a misoginia pode coexistir com um casamento aparentemente harmonioso (complexidade que não cabe num reels do Instagram).
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Essa é a aplicação prática do que o linguista cognitivo George Lakoff chama de framing. Quem define o frame controla o debate. A extrema-direita abandonou o frame dos “direitos humanos” e substituiu pelo frame da “família ameaçada”, do “cidadão de bem” contra o “Estado corrupto”. Nós, progressistas, ainda nos debatemos no interior de frames que nos foram impostos, reagindo em vez de propor. A extrema-direita renovou o frame do medo e do ódio com uma disciplina que nos falta…(Foto: reprodução redes sociais)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE
Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.
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