Engenharia do CONSENSO: O pântano das promessas adiadas

engenharia

A memória, essa artífice teimosa que recusa o esquecimento, traz-me de volta à lembrança os anos de chumbo sobre os quais li e ouvi, quando as ruas ainda guardavam o eco das greves do ABC e o cheiro de perigo se misturava ao suor dos operários. Não foi por acaso que escolhi o ofício de historiador; foi porque vi, com meus próprios olhos, como o poder se constrói e se desfaz, como as promessas se evaporam e como as esperanças, quando mal administradas, transformam-se em pólvora para os canhões da reação. Cresci ouvindo meu avô, um velho sindicalista, dizer que “o capitalismo tem o dom de transformar qualquer vitória popular em derrota adiada”. Na época, achei que era amargura de velho. Hoje, sei que era lucidez. Ele estava se referindo à engenharia do consenso que vem acompanhada de um pântano de promessas adiadas.

O que tenho observado ao longo das últimas décadas, como pesquisador e como cidadão, é a repetição meticulosa de um padrão que já deveríamos ter aprendido a reconhecer: a esquerda institucional, quando logra alcançar o governo, troca a utopia pela administração, a transformação estrutural pela gestão da miséria, a organização popular pela tutela estatal. O povo, exausto de tantas promessas não cumpridas, recebe com gratidão as migalhas que lhe são oferecidas: um prato de comida, um emprego precário, um crédito fácil e adia a luta para um amanhã que nunca chega. O capital, enquanto isso, respira, reorganiza-se, e na primeira crise – porque a crise, como a morte, é certa – retoma o controle com violência redobrada.

Não se trata de acaso, nem de má fé individual de governantes. Trata-se de uma engenharia precisa, de uma pedagogia da contenção que a burguesia aperfeiçoou ao longo de mais de um século.

Antonio Gramsci, nos Cadernos do Cárcere, descreveu essa engenharia, este processo, com o nome de “revolução passiva”: as classes dominantes, diante da pressão popular, incorporam demandas parciais, modernizam o aparelho estatal, ampliam direitos, mas o fazem para deslocar a direção das massas, para tirá-las das ruas e colocá-las nas filas do Estado. Não se trata de mera repressão, mas de uma forma mais sutil de dominação: a concessão calculada, o benefício que desmobiliza, o “alento administrado” que permite ao sistema respirar para, em seguida, retomar o controle com violência redobrada.

CLIQUE AQUI E LEIA OUTROS ARTIGOS DE JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Lembro-me de uma conversa sobre os anos 1990, quando o neoliberalismo já avançava sobre a América Latina como um trator. Disseram-me: “Zé, cuidado com o que eles chamam de ‘conquista’. Cada direito que a gente arranca e não transforma em poder popular é uma armadilha. Eles nos dão o dedo para não perdermos a mão”. Eu achava que ele era pessimista. Hoje, compreendo que era realista.

A história do capitalismo é pontuada por esses movimentos de absorção: Bismarck, na Alemanha dos anos 1880, criou o seguro social para esvaziar a social-democracia nascente; Roosevelt, no New Deal, salvou o capitalismo de si mesmo; o Estado de bem-estar europeu foi a expressão mais acabada dessa engenharia entre o capital e o trabalho, um compromisso que, como mostrou David Harvey, foi desmontado pela via neoliberal quando o capital recuperou força…(Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetras. Para saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES