Quem convive com a deficiência visual sabe que o dia a dia é cheio de situações inesperadas e que nada tem a ver com falta de educação. Algumas dessas situações são desafiadoras, outras são engraçadas, e muitas acabam virando histórias para contar. Certa vez, eu estava em uma praça aguardando o ônibus. Como acontece com frequência, fiquei atento aos sons e movimentos ao meu redor. Em determinado momento, senti alguém se aproximar e estender a mão na minha direção. Por puro instinto social, fiz o que qualquer pessoa faria: apertei a mão e perguntei animadamente:
— E aí, tudo bem?
Por alguns segundos, não recebi resposta. Achei estranho. Foi quando uma senhora que estava logo atrás de mim resolveu me salvar do constrangimento.
— Moço, ela não está te cumprimentando. Ela é surda e está pedindo dinheiro.
Naquele instante, percebi que eu havia transformado um pedido de ajuda em uma saudação calorosa. A situação foi tão inusitada que não teve como não rir. A senhora riu, eu ri e, provavelmente, quem presenciou a cena também.
Mas as aventuras não pararam por aí.
Outro episódio aconteceu na academia. Eu estava próximo ao balcão da recepção esperando o horário de ir embora. Como minha deficiência não é percebida imediatamente por muitas pessoas, um aluno chegou cumprimentando todo mundo. Quando chegou perto de mim, estendeu a mão para me cumprimentar.
O problema é que eu não vi.
Enquanto eu continuava ali, tranquilamente, ele permaneceu com a mão estendida. Alguns segundos se passaram. Depois mais alguns. Na cabeça dele, talvez eu fosse uma pessoa extremamente antipática, arrogante ou simplesmente mal-educada.
A situação só foi resolvida quando alguém avisou:
— Ele é cego.
Imediatamente estendi a mão e o cumprimentei. O rapaz, que já começava a fechar a cara por conta da minha suposta falta de educação, mudou completamente de expressão. Quem ficou sem graça foi ele. Eu podia perceber pelo tom da voz que estava morrendo de vergonha por ter tirado conclusões tão rápidas.
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Essas histórias são engraçadas, mas também deixam uma reflexão importante. Quando nos aproximamos de uma pessoa com deficiência visual, vale a pena dizer quem somos, avisar quando chegamos e até quando estamos saindo. Pequenas atitudes evitam mal-entendidos, acabam com a falsa impressão de falta de educação e tornam a comunicação muito mais natural.
Além disso, a vida ensina uma lição que vale para qualquer situação: nem sempre alguém está sendo arrogante, indiferente ou antipático. Às vezes, a pessoa apenas não viu você. E, no meu caso, essa explicação costuma ser bastante literal.

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA
É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.
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