HUMILDADE e política

humildade

As vezes é muito importante estudar da etimologia, a origem das palavras. A  palavra humildade carrega em sua essência genética o termo latino humus — a terra, o solo, o chão. Ser humilde, em sua acepção mais originária, significa estar perto do solo, manter os pés firmemente plantados na terra. Curiosamente, dessa mesma raiz brotam as palavras homem e humanidade. Somos, literalmente, criaturas do pó, feitas da mesma matéria orgânica que a terra pisada por todos. Por sua vez, a palavra política tem sua origem no grego, sendo que um dos significados está ligado ao adjetivo derivado de polites, que significa tudo o que se refere ao cidadão, ao Estado ou à esfera pública. Desse termo originou-se o latim politicus e, posteriormente, a nossa palavra “política”.

Essa constatação biológica e antropológica dissolve qualquer ilusão de superioridade de alguns sobre os outros. Independentemente dos títulos que carreguemos, das posições que ocupemos ou do poder que nos seja conferido temporariamente, a nossa condição de partida e de chegada é exatamente a mesma. Viemos do pó e a ele retornaremos, conforme ensinamento bíblico e de acerto científico. Reconhecer essa igualdade fundamental é o primeiro passo para compreender que o poder político, longe de ser um atestado de divindade ou realeza, é apenas uma delegação transitória exercida por iguais.

O percurso histórico da humildade revela o quanto a humanidade mudou sua percepção sobre o valor de “estar por baixo”. Na Antiguidade Clássica, especialmente para a cultura greco-romana, a humildade não era vista como virtude, mas como um estigma. Estar próximo ao chão significava pertencer às classes subalternas, ser escravo ou plebeu. O ideal de Aristóteles exigia o homem magnânimo — aquele de alma grande, orgulhoso de suas conquistas e focado na busca pública por honra. A modéstia excessiva era tratada como fraqueza.

A grande virada conceitual veio com o Cristianismo, que inverteu os valores clássicos: a humildade elevou-se ao posto de virtude máxima, simbolizada pelo líder que se abaixa para lavar os pés dos discípulos. O orgulho passou a ser o pecado capital por excelência, e a pequenez humana diante do sagrado nivelou todos os homens.

No século XXI, a humildade deixou de ser exclusiva do domínio religioso e encontrou abrigo na ciência, na liderança corporativa e na psicologia. Hoje, ela se traduz em humildade intelectual (o reconhecimento dos próprios limites) e em liderança servidora (o líder que sabe ouvir e valoriza sua equipe). Não se trata de diminuir a si mesmo, mas de possuir uma avaliação realista de quem se é, sem a necessidade de ostentação ou prepotência.

Se a psicologia moderna e o mundo corporativo já compreenderam que o líder autoritário e soberbo faliu, por que a classe política frequentemente parece empacada em um estágio pré-clássico de arrogância?

Quando cidadãos elegem seus representantes, delegam-lhes autoridade para administrar a coisa pública. No entanto, o exercício do poder muitas vezes opera como um poderoso entorpecente psíquico. Cercados por privilégios, gabinetes suntuosos, assessores que aplaudem cada palavra e uma redoma de isolamento, muitos políticos esquecem o significado de sua própria raiz etimológica. Deixam de estar “perto do solo” e passam a flutuar em uma realidade paralela, distante das angústias reais do cidadão comum — o desemprego, a inflação, a precariedade da saúde e da educação.

A soberbia na política contemporânea é uma traição à própria essência da representação. Um representante que se isola do povo esquece que o poder que detém não lhe pertence; é um empréstimo temporário concedido por aqueles que trabalham, suam e constroem o país no chão da realidade diária. Quando o político olha para o eleitor de cima para baixo, repetindo o vício greco-romano de desprezar o “humilde”, ele rompe o pacto democrático básico.

O resgate da humildade na política não é um apelo piegas ou uma exigência de fraqueza; é uma premissa de sobrevivência democrática e eficácia governamental. Assim como a ciência não avança sem a humildade intelectual de admitir erros, e as empresas não inovam sem chefes que saibam ouvir, os governos fracassam quando seus líderes perdem a capacidade de escuta.

Os anseios populares exigem governantes que compreendam que o topo da pirâmide política não altera a biologia do pó. Um bom político é aquele que pratica a escuta ativa, que aceita que não detém todas as respostas e que enxerga no cidadão não um mero número de sufrágio, mas um igual detentor de sabedoria prática sobre as necessidades do país.

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A verdadeira política é aquela que se faz com os pés na terra, com o olhar na altura dos olhos do povo e com a consciência de que toda autoridade é passageira, mas a dignidade da condição humana é permanente. Esse comportamento não deve ocorrer apenas no momento de buscar os votos necessários para conseguir o cargo almejado pelo político.

Somos todos da mesma origem (humus – terra), a humildade é uma virtude necessária para a convivência humana, e o político existente para representar seus semelhantes (todo poder emana do povo e é exercido por meio de representantes eleitos), então indaga-se em que medida a distância física e social entre os gabinetes suntuosos dos políticos e o cotidiano das ruas contribui para a perda de empatia e humildade por parte dos nossos representantes públicos?(Texto produzido com auxílio do Gemini)

CLAUDEMIR BATTAGLINI

Claudemir Battaglini. Promotor de Justiça (inativo), Especialista em Direito Ambiental, Professor Universitário, Consultor Ambiental e Advogado. Presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB Subseção Jundiaí e membro do COMDEMA Jundiaí 2025/2027. E-mail: [email protected]

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