IA: O medo da extinção e o impacto no mercado financeiro

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No último dia 8, um pesquisador de 27 anos chamado Jacob Coxon pediu demissão da Anthropic criadora do Claude, e publicou no X que nenhuma das duas empresas em que trabalhou, OpenAI e Anthropic, está agindo com responsabilidade. Segundo ele, ambas correm rumo a uma superinteligência autoaperfeiçoável apostando com a vida de todos nós. O que deveria ter sido só mais um desabafo de ex-funcionário virou terremoto porque, horas depois, Evan Hubinger, líder de segurança de alinhamento da própria Anthropic concordou publicamente e foi além: estimou em mais de 10% a chance de a IA provocar a extinção da humanidade na próxima década. Não é ativista, não é concorrente pagando para difamar. É o cientista pago para evitar exatamente esse cenário, dizendo em público que o risco é real e de dois dígitos.

Elon Musk amplificou o alerta no fim de semana para 10 milhões de pessoas. E o mercado, que normalmente ignora filosofia, dessa vez reagiu com números. Na segunda-feira seguinte, os futuros da Nasdaq caíram 1,8%. A SoftBank, maior investidora externa da OpenAI, despencou quase 11% em Tóquio. A SK Hynix caiu 6,4% em Seul. ASML recuou 6% na Europa. Nvidia, Intel, Marvell, AMD, Qualcomm e Micron perderam entre 3% e 7% em poucas horas. No mesmo pacote de más notícias, Sam Altman disse à Fortune que um IPO da OpenAI em 2026 seria precipitado, o plano foi empurrado para 2027. Aqui está o ponto que separa análise séria de sensacionalismo: o risco existencial e o risco financeiro não são a mesma história, mas se alimentam um do outro, e é isso que meu leitor de negócios precisa entender.

De um lado, a Capital Economics publicou em 10 de setembro um relatório classificando o momento como bolha em estágio avançado, depois de examinar oito categorias de indicadores de mercado que historicamente antecedem picos, a previsão é de correção do S&P 500 já em 2027. A Goldman Sachs projeta US$ 1 trilhão em capex global ligado a IA só em 2026, sendo US$ 581 bilhões nos Estados Unidos. No Brasil, a Moody’s estima que as big techs vão investir R$ 3,7 trilhões em infraestrutura de IA em 2026, seis vezes o capex de 2022 alertando que cada data center leva entre 12 e 24 meses só para começar a gerar receita.

De outro lado, o economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, analisou as margens do S&P 500 e não encontrou evidência de que a IA esteja aumentando a lucratividade em saúde, consumo básico, energia ou setor imobiliário. E o estudo mais citado do ano, do MIT Project NANDA, apontou que 95% das organizações que testaram IA generativa não viram retorno mensurável no lucro — número preliminar, mas reforçado pela S&P Global, que registrou salto de 17% para 42% na proporção de empresas abandonando a maioria de seus projetos de IA.

Ou seja: o capital está apostando trilhões numa tecnologia cujos próprios criadores hesitam em declarar segura, e cujo retorno financeiro ainda não apareceu na maioria das empresas que a adotaram. Isso não é ficção científica nem histeria de imprensa. É aritmética, publicada por Goldman Sachs, Moody’s e MIT.

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O adulto na sala, neste caso, não é quem promete que vai dar certo, nem quem grita que o mundo vai acabar. É quem olha os dois números, o risco declarado pelos próprios engenheiros e o retorno ausente nas planilhas, e pergunta por que continuamos financiando no mesmo ritmo algo que nem os dois lados conseguem justificar. Para empresas brasileiras que estão comprando o discurso da corrida a qualquer custo, a lição prática é simples: exija metas de retorno antes do investimento, não depois. A clareza já está nos dados. O que falta agora é coragem para agir de acordo com ela, antes que o mercado, ou os próprios criadores da tecnologia façam essa escolha por nós.

ARTUR MARQUES JR

É cientista de dados e especialista em IA aplicada, com sólida atuação em educação digital e inovação. Coordena a pós-graduação digital na Cruzeiro do Sul Educacional e é PhD em Ensino de Matemática, Mestre em Física Computacional e Astrofísica. Atua como palestrante, mentor, cofundador do Grape Valley, é VP Fiscal do Hospital do GRENDACC e já foi VP da DAMA Brasil.

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