JC: Edna, auxiliar contábil, morreu sem receber direitos trabalhistas

JC

Por aproximadamente 15 anos, Edna Aparecida Gramorelli trabalhou no JC(Jornal da Cidade). Oficialmente era auxiliar contábil. Mas realizava outras funções, atuando no administrativo e até fazia serviços bancários. A crise tomou conta da empresa e o pagamento deixou de ser feito na íntegra. Assim como no JJ(Jornal de Jundiaí), os patrões davam alguns trocados semanais. No começo da década de 2.000, Edna ficou doente e foi afastada, recebendo pelo INSS. Quando voltou ao trabalho, pediu a rescisão indireta. Um acordo chegou a ser fechado na Justiça do Trabalho. O JC pagou apenas alguns meses o que devia. O Jundiaí Agora entrevistou a filha de Edna, a projetista Taís Cristina Gramorelli Maia, que não esconde a revolta diante da humilhação que Edna sofreu enquanto trabalhava no JC e da demora da Justiça do Trabalho. “A minha cura só virá quando a justiça for feita”, afirma ela. Confira a entrevista com Taís(mãe e filha na foto principal, década de 1990):

Quando ela foi contratada pelo JC?

Em 1.994. Na época, o JC tinha a sede principal na rua Coronel Leme da Fonseca e também uma outra na rua Vigário J.J. Rodrigues. Ela foi contratada como auxiliar contábil. Mas acabava fazendo outros serviços, como na área administrativa e até bancos.

Ela contou como a crise financeira do jornal começou?

Não, ela não sabia como o JC chegou naquela situação.

Edna(foto ao lado) era encarregada de buscar dinheiro em empresas e recebia R$100, R$ 200 por semana. O que a sua mãe comentava sobre isso?

Muitas vezes era solicitado que minha mãe fosse buscar dinheiro em banco ou factoring para realizar pagamentos de funcionários ou fornecedores. Não eram valores baixos e isso aconteceu quando ela já estava com os salários atrasados. Lembro de uma vez que ela foi buscar dinheiro junto com um motorista do JC. No trajeto de volta, o carro foi parado por um homem armado que anunciou o assalto. Mas nada aconteceu pois o dinheiro estava embaixo do banco dentro da bolsa da minha mãe e o motorista, cujo nome não me recordo, entregou a pochete dele com documentos e vale transporte, que ainda era de papel.

Nessa época você tinha quantos anos? Como você se sentia vendo sua mãe passar por tudo isso?

Quando ela começou a trabalhar no Jornal da Cidade, eu tinha 13 anos. Quando ela saiu, eu já estava com 28 anos. Lembro que no início ela se orgulhava bastante de trabalhar no JC. Depois de 2.004, quando ela adoeceu por estresse do trabalho, ficou internada e foi afastada pelo INSS, eu a via cada dia mais depressiva, angustiada, sentia que ela queria sair daquela situação e não sabia como. Nos anos finais, eu me sentia revoltada com a forma que a tratavam. A situação era, no mínimo, humilhante.

E ela como se sentia?

Ela não falava, mas eu percebia que estava triste, angustiada e nervosa sempre.

Sua mãe tentou procurar outro trabalho enquanto estava no JC?

Sim, ela tentou procurar outros trabalhos, mas para a idade e função que ela exercia, era bastante difícil encontrar. Em 2.004 ela estava com 48 anos…

Quanto tempo durou essa situação?

De quando ela voltou do afastamento do INSS em 2.005 até o ano de 2.009 quando ela entrou com o processo de rescisão indireta. Na época, tentamos contornar dívidas. Éramos apenas eu e ela na casa. Eu também trabalhava mas meu salário não era suficiente. Não foi preciso a ajuda de amigos ou da família mas foi necessário que eu abandonasse meu sonho profissional. Na época eu cursava Matemática na Unicamp. Eu tinha custos com a viagem até Campinas. Isso foi preciso para que pudéssemos comprar comida.

Você acredita que ela adoeceu por conta do trabalho e toda essa situação?

Minha mãe já possuía um problema neurológico antigo. O estresse do trabalho, a incerteza de receber salário, as responsabilidades e a pressão, fizeram que ela tivesse crises de hipertensão e que as dores de cabeça voltassem. Ela precisou ser internada em junho de 2.004 por 10 dias. Foi nessa ocasião que foi diagnosticado o segundo aneurisma cerebral. Daí aconteceu o afastamento pelo INSS. E até hoje eu acredito que ela não deveria ter voltado ao trabalho. Não no JC…

Como foi o processo interno dela para pedir a rescisão indireta?

Ela sempre teve medo, eu a incentivava a se libertar de um CNPJ que só a deixava depressiva, angustiada e doente. Não lembro qual foi a “gota d´água” para que ela tivesse coragem de buscar um advogado trabalhista e solicitar a rescisão indireta.

Quanto o JC ficou devendo para ela?

Em 14 de julho de 2009, segundo a ata da audiência na Justiça do Trabalho, o JC devia R$ 11.200,00.

Chegaram a fechar acordo?

Na ata é descrito que o valor deveria ser pago em 32 parcelas iguais e sucessivas de R$350,00. Os pagamentos foram feitos por poucos meses. Não me recordo se foram quatro ou cinco meses. Depois pararam de pagar.

Ela fazia planos de como usaria o dinheiro?

Ela não fazia planos ou criava expectativas. Ela só queria receber o que era devido e ter uma aposentadoria tranquila. E isso não aconteceu. Ao solicitar aposentadoria com 28 anos de contribuição e 52 anos de vida, ela entrou no “fator previdenciário” e os rendimentos dela foram bastante reduzidos.

Quando sua mãe morreu?

Minha mãe faleceu em fevereiro de 2.024, da combinação pericardite Infecciosa e embolia pulmonar. Lembro que todo nervosismo, estresse e preocupações que ela tinha, ela “descontava” no cigarro.

Vocês chegaram a ter conversa na qual ela assumiu que morreria antes de receber o dinheiro e como você deveria utilizá-lo?

Ela comentou uma vez algo como “acho que nunca vou receber”, mas nunca conversamos sobre como eu deveria usar os valores se um dia recebesse. É provável que eu voltasse a estudar.

Qual o valor da dívida hoje?

Não sei como é feita a correção monetária destes valores…

Como está o processo 20 anos depois? Há bens disponíveis para venda ou leilão?

Acredito que os herdeiros do fundador do JC já tenham transferido há anos as propriedades para nomes não relacionados ao CNPJ da empresa.

Como vê essa mobilização dos ex-funcionários iniciada neste ano, Taís(foto ao lado)?

Estou achando ótima essa união dos ex-funcionários para que a Justiça seja feita.

Em reunião com ex-funcionários do JJ e JC, o vereador Paulo Sérgio Martins disse que os donos dos dois jornais vivem de forma ‘nababesca’ enquanto os ex-funcionários das duas empresas convivem com a injustiça. Você concorda?

Conheço o Paulo Sérgio Martins e concordo com ele. Na época que a minha mãe trabalhava no JC e estava com salários atrasados – recebendo R$ 100 ou com sorte R$ 200 por semana -, um dos donos comprou vários cavalos. Também sabíamos que eles viajavam, trocavam de carros, faziam festas e eventos.

Recentemente, a Câmara rejeitou pedido de urgência para projeto de Martins que proíbe o poder público de contratar empresas de comunicação endividadas. Como analisa o voto contrário dos vereadores Carla Basílio(PSD); Cristiano Lopes(PP); Daniel Lemos(PSD); Juninho Adilson(União); Madson Henrique(PL); Quézia de Lucca(PL); Rodrigo Albino(PL); Romildo Antônio(PDT) e Zé Dias(Rep)?

Isso mostra e prova aos moradores de Jundiaí que não devemos votar nestes vereadores nas próximas eleições municipais.

O TRT 15 diz que não se pronuncia sobre processos em andamentos e que não há demora. O que existe é o excesso de ações(35 mil) e falta de funcionários. O que acha desta argumentação?

No Brasil a Justiça não é apenas cega. É lenta principalmente.

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COMO CORRE O TEMPO DA JUSTIÇA DO TRABALHO?

Se você pudesse falar diretamente com os juízes e desembargadores, o que diria?

O lugar mais difícil de se estar é no lugar do outro. Eu perguntaria: “como vocês se sentiriam se vissem a mãe de vocês sendo pressionada, humilhada, explorada e adoecendo por causa de uma empresa? O que vocês seriam capazes de fazer pela mãe de vocês?”.

Acredita que um dia você receberá o dinheiro? O que fará com ele?

Espero um dia receber. Ela era solteira e eu sou a única filha, a única herdeira. Eu pretendo voltar a estudar.

Você demonstra raiva, indignação diante do não pagamento e da humilhação que sua mãe sofreu. Você convive com estes sentimentos por tanto tempo? Faz terapia?

Sim, eu sinto tudo isso e sim já fiz terapia sobre isso. A minha cura só virá quando a justiça for feita.

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