Jundiaí, a PORTA DO SERTÃO

Jundiaí

Ao investigarmos as origens do interior paulista, deparamo-nos com um ponto geográfico e simbólico de inegável relevância: a antiga Vila Formosa de Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí. Fundada oficialmente em 14 de dezembro de 1656, conforme documentação preservada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, Jundiaí figura entre as nove cidades mais antigas do estado de São Paulo. Mais do que sua antiguidade, porém, o que confere centralidade a este núcleo urbano é sua função histórica como antessala do desconhecido: a última fronteira antes do imenso e enigmático sertão. Não por acaso, a documentação histórica consagrou a região como “Porta do Sertão”, expressão que sintetiza seu papel estratégico na expansão territorial da violenta América portuguesa.

Para compreender este papel, é necessário situarmo-nos no contexto da Capitania de São Vicente. Isolados do litoral pela muralha natural da Serra do Mar, os paulistas desenvolveram uma cultura de autossuficiência e mobilidade ímpar na colônia e Jundiaí, elevada à categoria de vila em 1656, afirmou-se precisamente no limite norte do povoamento conhecido. Para além de seus domínios, estendia-se o chamado “Mato Grosso de Jundiaí”, designação que abrangia uma vasta extensão de florestas densas que alcançava o atual estado de Minas Gerais.

É fundamental, contudo, problematizar a narrativa tradicional que trata essa região como “desconhecida” ou “vazia”. Até finais do século XVII, a área era habitada exclusivamente por povos indígenas, principalmente tupis, que se dedicavam à produção de milho e mandioca, organizando-se em aldeias compostas por cabanas circulares. A colonização representou, portanto, um processo de violenta expropriação territorial: os novos colonizadores afugentaram os grupos indígenas que se embrenharam na mata. Durante longo período, a escravidão indígena foi a base da mão de obra local, embora essa prática fosse oficialmente proibida por lei, contradição flagrante entre a legislação metropolitana e a realidade colonial.

A economia de Jundiaí, entre os séculos XVII e XIX, refletiu diretamente esta função de portal. Diferentemente de outras vilas que já nasciam em torno de um ciclo produtivo dominante, a economia jundiaiense estruturou-se como plataforma de suporte logístico: as pequenas lavouras de subsistência, a produção de milho, feijão, aguardente e a criação de animais não visavam apenas o mercado interno, mas prioritariamente o abastecimento das bandeiras e, mais tarde, das tropas que demandavam o interior.

Minha análise identifica duas grandes rotas que consagraram esta função: a “Rota do Goiás”, aberta por Bartolomeu Bueno por volta de 1725, e seus ramais para o sul de Minas. Estas vias, percorridas por muares que transportavam de tudo, do algodão e toucinho do interior ao sal e ferramentas do litoral, tinham em Jundiaí um ponto nodal de passagem obrigatória. A vila era, assim, o epicentro onde o planalto encontrava o sertão.

É preciso notar, ainda, a transformação demográfica e social operada nesse período. Em meados do século XVIII, o número de escravizados indígenas e de escravizados de origem africana já era praticamente o mesmo, mas a partir da segunda metade deste século, a quantidade de africanos se intensificou, até que a força de trabalho indígena escravizada foi gradualmente abandonada. À medida que o número de africanos sequestrados aumentava, cresciam também os focos de resistência, embora haja poucos registros históricos sobre a vida destes explorados, silêncio documental que a historiografia contemporânea tem buscado reparar.

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Como historiador, não posso ignorar as controvérsias que envolvem esta narrativa. As fontes documentais apresentam divergências significativas quanto aos primeiros movimentos de ocupação da região. A versão tradicional, consagrada por Afonso de Taunay e inscrita no brasão municipal, atribui a fundação ao ano de 1615, com a chegada do casal Rafael de Oliveira e Petronilha Rodrigues Antunes, que teriam fugido de São Paulo após um assassinato. Todavia, esta narrativa é problemática: registros indicam que Rafael de Oliveira encontrava-se no Sul do país em 1615 e casou-se novamente em São Paulo no ano seguinte.(Ilustração: Aquarela de Diógenes Duarte Paes mostrando a Rua do Rosário)

JOSÉ FELICIO RIBEIRO DE CEZARE

Mestre e doutorando em Ensino e História de Ciências da Terra pelo Instituto de Geociências da Unicamp. Membro da Academia Jundiaiense de Letras. Pesquisador, historiador, professor, filósofo e poeta. Coeditor da Revista literária JLetrasPara saber mais, clique aqui. Redes sociais: @josefelicioribeirodecezare.

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