Quando falamos sobre saúde emocional da população LGBT+, muitas vezes o foco recai sobre a juventude — Mas existe uma geração que atravessou décadas de silêncio, repressão e invisibilidade, e que hoje carrega marcas profundas que raramente são discutidas: os mais idosos. Durante muito tempo, ser LGBT+ significava viver à margem. Em décadas passadas, a homossexualidade foi tratada como doença, crime ou desvio moral.
Muitos cresceram ouvindo que precisavam se corrigir, se esconder ou se calar. Não havia representatividade, políticas públicas de proteção ou espaços seguros de escuta. Havia medo. E o medo constante molda a vida emocional de uma pessoa.
Muitos homens e mulheres LGBT+ mais velhos aprenderam a sobreviver através do silêncio. Construíram famílias dentro de padrões esperados socialmente, reprimiram afetos, evitaram demonstrações públicas de carinho e criaram versões de si mesmos aceitáveis para a sociedade. Essa estratégia garantiu sobrevivência, mas teve um custo alto: a fragmentação da própria identidade.
Viver anos e anos sem poder existir plenamente gera impactos profundos. Ansiedade crônica, dificuldade de estabelecer vínculos íntimos, baixa autoestima e sensação persistente de inadequação são efeitos comuns. Há também o luto tardio — o luto por uma juventude que não pôde ser vivida com liberdade, por relações que não puderam ser assumidas, por sonhos adiados em nome da segurança.
Outro ponto delicado é o envelhecimento dentro da comunidade LGBT+. Muitos enfrentam a velhice com redes de apoio fragilizadas. Parte dessa geração rompeu com a família de origem ou nunca pôde construir vínculos duradouros por medo da exposição.
Além disso, carregar anos de preconceito internalizado deixa marcas difíceis de nomear. Quando alguém escuta repetidamente que é errado ou inadequado, essa mensagem pode se infiltrar na autoimagem. Mesmo em tempos de maior visibilidade e direitos conquistados, nem todos conseguem acessar internamente a sensação de pertencimento.
É importante reconhecer que essa geração também é símbolo de resistência. Sobreviveu a períodos de diversas formas de violência, enfrentou epidemias, discriminação, e ausência de direitos. Mas resistência não significa ausência de dor. Significa que houve força para continuar, apesar dela.
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Cuidar da saúde emocional da população LGBT+ mais velha exige sensibilidade histórica. Exige compreender que muitos não aprenderam a falar sobre sentimentos, porque durante décadas falar poderia significar perigo. Exige criar espaços seguros onde essas histórias possam ser narradas sem julgamento.
A sociedade avançou, mas as marcas do passado permanecem no corpo e na memória de quem viveu tempos mais duros. Olhar para essa geração com respeito e acolhimento é também um ato de reparação.(Foto: Reprodução/EternamenteSOU)

LUCAS ANZOLIN
Formado em Gestão de Recursos Humanos e pós-graduado em Saúde Mental, Psicoterapia, Gênero e Sexualidade. Atua há 10 anos como terapeuta, palestrante e instrutor de cursos voltados à saúde mental, práticas integrativas e complementares (PICS), autoconhecimento e bem-estar. Também é Assessor de políticas para LGBT em Jundiaí dentro do núcleo de Articulação de Direitos Humanos(Instagram: lucas_anzolin)
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