Tem gente que esquece a chave, de trancar a porta, uma compra recém-feita no próprio balcão da loja. Ou ainda de pagar uma conta de consumo e só lembrar quando a energia elétrica é cortada. Aí o esquecimento vira desespero. Na faculdade, pode ser a data da prova não anotada, do trabalho para ser entregue que caiu no limbo mental ou aquele clássico: “Eu tinha certeza de que era hoje!”. Em redação, a gente pode esquecer o sobrenome do entrevistado, o partido ao qual aquele político pertence, a legenda, identificar a foto. Lembro que o Alcir de Oliveira, que foi meu editor-chefe no quase saudoso Jornal da Cidade, surtava nesses momentos, ainda mais no “pescoção” das sextas-feiras. Nessas horas, a memória parece entrar em greve justamente quando a gráfica está esperando a matéria.
Inclusive, eu tenho TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) de achar que não tranquei a porta. Quantas vezes, indo trabalhar, me deu pânico dentro do ônibus, a ponto de ter de descer e voltar para verificar se a porta estava trancada? Hoje, para isso não acontecer, quando fecho a porta, mentalizo que está trancada… Tá, confesso: dou uma verificadinha, só para ter certeza. Afinal, jornalista trabalha com checagem de informação. Com a porta de casa, não poderia ser diferente.
Quando fui trabalhar no departamento de suplementos do JC, a Zara Campos era a diretora. Para quem não sabe — assim como eu também não sabia —, a Zara tinha cursado Psicologia na Universidade São Francisco, em Itatiba, atuado na área e tinha uma das melhores clínicas da região. No início, éramos só eu, ela e a publicitária Mariana Pacheco, além do Serginho Bocchino, que fazia a coluna social publicada no caderno semanal Domingo Especial — já escrevi por aqui que amava esse nosso produto e reafirmo. A alegria era constante nos nossos fechamentos.
Em uma tarde tranquila, nossa sala nem tinha sido reformada ainda, a Zara contou uma situação hilária para nós, ouvintes, mas de desespero para ela. Em um dia de aula na faculdade, ela estudava no período noturno. Terminou a aula, entrou no ônibus conversando com as amigas — porque a Zarinha sempre foi alma de um bom papo —, desembarcou em Jundiaí e foi para casa. Ela, ainda solteira, residia em uma casa na Chácara Urbana. Entrou pelo portão que dava acesso à garagem. Já era início da madrugada. Quando olhou para o espaço e não viu o Corcel dela, “zero bala”, o alarme foi imediato. O grito de desespero acordou a casa toda:
— Roubaram meu carro!!!
Foi aquele corre daqui, acode de lá. Dona Zara, sua mãe — sempre achei legal a filha ser xará da mãe —, em um lampejo de consciência que só a maternidade permite, perguntou:
— Filha, como você voltou da faculdade?
— Ah, eu estava conversando com as meninas, entrei no ônibus (fretado) e vim embora!
Dona Zara, a mãe, soltou a sentença:
— Filha, você tem carro! Nós te damos para ir para a faculdade. Você esqueceu ele na faculdade!
Falou daquele jeito que só uma mãe consegue: em uma frase, desmonta o desespero, recupera a realidade e ainda deixa o filho sem argumento. No dia seguinte, Zara chegou à faculdade e o carro estava lá, estacionado, intacto. Quando ela contou, eu chorei de tanto rir. E ainda critiquei a falta de memória dela, naquele estilo de quem se acha imune ao próprio erro:
— Que absurdo! Como pode esquecer um carro?
Pois é. Eu deveria simplesmente ter rido, sem fazer crítica até porque minha memória não é das melhores também. Anos depois, o carma me alcançou. E não foi uma vez. Foram duas. Em 2014, no segundo ano como secretário executivo do então prefeito Pedro Bigardi (PCdoB), o castigo chegou na forma de esquecimento. Fim do expediente. Desço para o estacionamento do térreo, que fica atrás da Prefeitura, com a também secretária Robéria Alves Eichenberger. Como falo pelos cotovelos, entrei no carro com ela e seguimos viagem.
Na época, nós éramos vizinhos no Condomínio Ravenna, na entrada da Vila Marlene, bem perto do Paço Municipal. Minha vaga era no primeiro subsolo e a dela, no segundo. Como estava de carona, ela “embicou” o carro na minha entrada, perto da portaria, para eu descer e depois ela virar e acessar a outra entrada. Minha vaga dava para ver do portão e, do nada, Robéria dá um grito:
— Édinho, cadê seu carro???
Nossa! Pânico total.
Tudo bem que eu nunca fui ligado em carro, mas, poxa, roubaram o meu de dentro da garagem? Aí já é demais até para o meu desapego. Foi quando Robéria, que também já era mãe, lembrou o que tinha acontecido. Mas não deu o peixe. Ensinou a pescar:
— Édinho, como a gente foi almoçar hoje?
Eu parei de tremer. A mente clareou e respondi:
— No meu carro!
(*) Ou seja: eu tinha esquecido o carro no estacionamento da Prefeitura. Foi só gargalhada. E eu, ainda bem folgado, falei que, no dia seguinte, ela me dava carona para a Prefeitura.
Passado um tempo, se não me falha a memória cerca de oito meses, veio a parte dois do castigo.
Descemos para o estacionamento no final de semana. De novo, entramos no carro da Robéria e seguimos viagem para casa.
Entre o Terminal Hortolândia e o condomínio, tive aquele lampejo, aquele mini flashback, digno da série “Os Normais”, com Vani (Fernanda Torres) e Ruy (Luiz Fernando Guimarães):
— Rô, esqueci o carro no estacionamento!!!
Robéria:
— Ah, Édinho, de novo?
— Vamos voltar para pegá-lo.
Eu, novamente, o rei da folga:
— Amanhã você me dá carona!!!
E foi só gargalhada, mais uma vez.
Realmente, a memória falha. Às vezes ela dá uma pane, perde o sinal, pega um retorno errado e deixa a gente estacionado no acostamento da própria cabeça.
Mas, pelo menos, minha memória de longo prazo está uma maravilha. A prova são as crônicas que escrevo por aqui, no Jundiaí Agora. Se dependesse dela, eu poderia até esquecer onde deixei o carro, mas dificilmente esqueceria uma boa história.
Zara, portanto, está vingada. Com louvor, juros, correção monetária e, principalmente, bom humor. E olha que a história ainda tinha uma segunda pauta.
(*) Na primeira vez que esqueci o carro — e tinha ido almoçar com a Robéria —, também fez parte do castigo. Eu, com a sinceridade no melhor estilo do personagem “Seo Saraiva”, do saudoso ator Francisco Milani, na hora em que estava pegando a chave do meu carro, virei para a Rô e soltei:
— Ô, não sou estressado igual a você para dirigir, hein!
Confesso: tenho o pé pesado, mas sempre dirigi tranquilamente.
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Quando a gente sai do Paço e vai pegar a Nove de Julho, estávamos indo almoçar no Ipê Amarelo, ali na Rua do Retiro. Um motoqueiro me ultrapassou pela minha direita e, claro, se eu não seguro, teria jogado o sujeito bem longe. Só que aquilo me deixou tão ‘P’ da vida que falei tanto palavrão que alguns eu nem sabia que existiam. Acho que, naquele momento, inventei até verbete novo para o nosso dicionário popular.
Olho para o lado e a Robéria, sentada igual a uma lady, sentencia:
— Mas não é você quem fala que não é estressado no trânsito?
Foi só gargalhada até o restaurante.
E foi assim que aprendi duas coisas importantes na vida: nunca diga “eu jamais faria isso”, porque o carma tem excelente memória; e, principalmente, nunca critique quem esqueceu o carro na faculdade. Você pode acabar esquecendo o seu na Prefeitura. E, nesse caso, não existe GPS que resolva. Só a Robéria.

MIGUEL ÉDI GOMES
É jundiaiense, tem 54 anos. É formado em jornalismo pela UniFaccamp e atualmente faz parte da equipe da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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