Relacionamentos FLUIDOS

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Há dias em que me pergunto como seria tentar explicar para alguém de 100 anos atrás o que chamamos hoje de “relacionamentos fluidos”. Talvez a pessoa balançasse a cabeça, sem entender como vínculos podem ter prazo de validade tão incerto, como afetos podem ser atualizados como aplicativos, como promessas se tornam leves demais para suportar qualquer vento. Antes, as relações tinham raízes. Agora, parecem ter rodinhas. E, ainda assim, continuamos desejando as mesmas coisas de sempre: amigos que fiquem, fidelidade que faça sentido, e aquela segurança antiga — quase romântica — de saber que se pode contar com alguém quando o mundo parece um pouco inclinado demais.

Sim, vivemos tempos fluidos. Mas isso não significa que vivemos tempos rasos. Os amigos, por exemplo, ganharam um papel peculiar nessa nova paisagem emocional. Antes, eram aqueles que dividiam o lanche na infância, os que pediam conselhos na adolescência, os que abraçavam sem motivo na fase adulta. Agora, continuam sendo tudo isso — mas ganharam uma camada adicional de importância: são o porto seguro num mar onde quase tudo escorrega.

Em meio a relacionamentos transitórios, amizades boas funcionam como faróis: não impedem a tempestade, mas ajudam a atravessá-la. São vínculos que não precisam ser alimentados todos os dias para continuar vivos; resistem a silêncios, atravessam desencontros, sobrevivem até ao esquecimento temporário. E quando reencontrados, retomam o fio da conversa exatamente onde parou, como se as horas tivessem cochilado.

É curioso como, num mundo de muitas conexões e poucos laços, os amigos se tornam guardiões de nossa versão mais verdadeira. Não precisam de performance. Não exigem edição. É por isso que, em tempos de relacionamentos fluidos, a amizade se torna quase uma forma de resistência — um jeito de afirmar que ainda há espaço para permanências.

Falar de fidelidade hoje pode parecer ousadia. A palavra passou por um desgaste peculiar nos últimos tempos: foi acusada de rígida, antiquada, limitadora. Porém, talvez a fidelidade só tenha mudado de forma, não de essência. Ela deixou de ser uma corrente e virou um pacto. Antes, tinha muito de obrigação; hoje, precisa ser escolha. Fidelidade, afinal, não é prisão — é presença. É estar quando tudo convida a ir embora. É permanecer mesmo quando a fluidez vira desculpa para deslizar. É compromisso com o que importa, não com o que prende.

Nos relacionamentos fluidos, ser fiel é quase um ato de coragem. É dizer: “eu posso ir, mas prefiro ficar”. É reconhecer que a liberdade não está no direito de partir, mas na decisão serena de permanecer. E permanecer, nos dias atuais, é quase poesia. A fidelidade também é múltipla. Existe a fidelidade aos amigos, aos afetos, aos valores, a si mesmo. É a coerência silenciosa de não abandonar quem nos estendeu a mão nos dias difíceis. É não trocar cumplicidade por novidade. É não substituir profundidade por entretenimento.

No fundo, fidelidade é o nome moderno daquilo que sempre chamamos de lealdade — esse músculo emocional que os tempos rápidos insistem em atrofiar, mas que, quando exercitado, transforma qualquer relação em território seguro. E é justamente aí que entra a segurança, palavra tão necessária quanto mal compreendida. Muitos confundem segurança com cerceamento, previsibilidade ou rotina. Mas segurança, na verdade, é outra coisa: é a liberdade de relaxar.

Segurança é saber que você não está andando sobre gelo fino, que o chão não vai desaparecer repentinamente, que a outra pessoa não está com um pé sempre do lado de fora. É perceber que, mesmo em tempos fluidos, alguém escolhe ser firme. A segurança emocional se tornou raridade porque vivemos numa era de hiperconexão, mas de hiperindisponibilidade. Muita gente disponível para conversar, mas pouca disposta a se comprometer. Relacionamentos que começam rápido, terminam rápido, desaparecem rápido. É como se o tempo tivesse perdido a paciência.

Mas, curiosamente, o ser humano não perdeu. Ainda buscamos segurança, embora às vezes com vergonha de admitir. Afinal, segurança é intimidade com outra pele — é a tranquilidade de não precisar se proteger o tempo todo. E, quando encontramos segurança em alguém — amigo, amor, parceria — o mundo muda de textura. Fica mais respirável. Mais lento. Mais nosso. É verdade que vivemos tempos fluidos. Os vínculos se transformam, as dinâmicas mudam, as expectativas se dissolvem e se reorganizam. Mas talvez a fluidez também tenha seu lado precioso: ela nos convida a escolher. Num mundo onde quase tudo escapa, aquilo que fica ganha valor multiplicado.

Amigos que permanecem, fidelidades que se mantêm, vínculos que oferecem segurança… tudo isso se torna joia rara. E como toda joia, exige cuidado — não esforço excessivo, mas atenção. Talvez o grande desafio seja justamente esse: aprender a manter laços profundos sem tentar congelá-los. Aceitar que pessoas mudam, contextos mudam, e ainda assim permitir que algumas relações se mantenham constantes. Isso não é controle — é generosidade.

E, nos dias de hoje, generosidade é quase revolução. Às vezes, quando observo essa modernidade líquida, penso que talvez não sejamos tão diferentes de nossos antepassados. Eles tinham rituais, símbolos, compromissos formais. Nós temos mensagens instantâneas, bloqueios rápidos, declarações curtas. Mas, no fundo, queremos o mesmo: sentir que pertencemos a alguém, que temos um lugar no peito de alguém, que somos vistos não pela superfície, mas pelo conteúdo.

A fluidez pode até ter mudado os cenários, mas não mudou a natureza humana. Ainda somos aqueles que buscam mãos firmes em mares instáveis. Ainda somos aqueles que se encantam quando alguém permanece. Ainda somos aqueles que suspiram aliviados quando reencontram os amigos que resistiram às marés.

Permanece o desejo de ser fiel a quem nos faz bem. Permanece a necessidade de ser fiel a nós mesmos. Permanece o conforto de sentir segurança no olhar de alguém que não está ali por acaso. Talvez seja isso: nos tempos de relacionamentos fluidos, a profundidade virou escolha consciente.

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Termino esta crônica com uma cena imaginada, mas possível: duas pessoas sentadas conversando calmamente — não importa se presencialmente ou por videochamada. Elas riem, compartilham lembranças, trocam confidências. Do lado de fora, o mundo continua veloz, líquido, imprevisível. Mas, ali, naquele encontro, há algo firme. Algo que não escorre.

Ali está a amizade. Ali mora a fidelidade. Ali nasce a segurança. E, enquanto existirem momentos assim, mesmo que poucos, mesmo que discretos, mesmo que quase clandestinos, ainda haverá esperança para os vínculos humanos. Porque, no fim das contas, somos feitos disso: não da fluidez que nos cerca, mas da permanência que nos salva.(Foto: RDNE Stock Project/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

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