A rotina de quem pega ônibus SEM ENXERGAR

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Quando estou conversando com alguém que acabei de conhecer e comento, com toda naturalidade, que tenho uma vida ativa — tenho minha rotina, ando pelas ruas, resolvo minhas coisas e, inclusive, pego ônibus sozinho sendo cego,  é quase automático: a pessoa me olha por um segundo a mais e vem a pergunta:

-Mas como você pega ônibus?

A curiosidade é sempre sincera e eu já até espero por ela. Parece algo complicado para quem nunca precisou pensar sobre isso, mas, no dia a dia, a coisa acontece de forma bem mais simples — ainda que, vez ou outra, renda situações curiosas.

Quem tem deficiência visual acaba desenvolvendo uma atenção maior aos sons. Então, quando escuto aquele barulho mais pesado de motor se aproximando, já fico em alerta. Na maior parte das vezes, é um ônibus. Em outras… nem tanto. Já dei sinal para caminhão, fretado e qualquer veículo com som parecido. Faz parte da rotina de quem não enxerga.

Mas, quando o ônibus certo finalmente para, entro na etapa mais objetiva: me localizo pelo som da porta, subo e pergunto ao motorista qual é a linha. Pode não ter nada de tecnológico ou sofisticado, mas funciona. E funciona bem, principalmente em pontos onde passam várias linhas.

Claro que também existe o método clássico de perguntar para alguém que esteja por perto. Geralmente dá certo, embora nem sempre a pessoa tenha tanta certeza quanto aparenta. Ainda assim, é uma ajuda válida.

Hoje, a tecnologia também facilita bastante. Existem aplicativos que mostram onde o ônibus está, quanto tempo falta para chegar e quais linhas passam no ponto. Com o leitor de tela do celular, consigo acessar tudo isso sem dificuldade. Depois que embarco, o próprio aplicativo acompanha o trajeto e me avisa quantos pontos faltam para descer, o que traz bastante autonomia.

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E tem também aquilo que não depende de aplicativo nenhum: a prática. Quando você faz o mesmo percurso com frequência, começa a reconhecer o caminho pelos detalhes — uma curva mais acentuada, uma lombada, o jeito como o ônibus desacelera em certos pontos. O trajeto vai ficando familiar de um jeito que não precisa de explicação.

No fim, pegar ônibus sendo cego não é esse grande enigma que muita gente imagina. É uma combinação de atenção, hábito, algumas ferramentas e, claro, pequenas histórias pelo caminho — como qualquer rotina de quem vive a cidade todos os dias

JOÃO VITOR FRANCO GOUVEIA

É formado em Acessibilidade Digital, graduado em Gestão de RH e com certificação ITIL 4 Foundation, atua como monitor de informática para pessoas com deficiência visual no Instituto Jundiaiense Luiz Braille. Trabalha com tecnologia, inclusão e autonomia digital, acredita no uso da tecnologia como ferramenta de transformação social e defende que a inovação só faz sentido quando promove inclusão e acesso para todos.

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