As empreiteiras estão de volta tanto no noticiário político como no policial. As notícias pegam fogo com as acusações de que deputados federais manipulam emendas parlamentares com o objetivo de desviar dinheiro do pagador de impostos por meio de entidades-fantasmas. As construtoras, mais uma vez, aparecem como suspeitas de corromper deputados para obter contratos superfaturados de obras em várias partes do Brasil. O governo é suspeito de encobrir a roubalheira e tem até amigo pessoal do presidente da República envolvido. Uma amizade construída através de décadas de companheirismo político. Afinal, são do mesmo partido. Paira sobre o ministro a suspeita de enriquecimento ilícito. Deputados de vários partidos também são citados na mídia, que exige a abertura de uma CPI para apurar as denúncias e determinar punição aos culpados pela corrupção.
O ministro, acuado, renuncia à chefia da Casa Civil. A crise que se instala é tão grande que deputados aprovam a instalação de uma CPI, apesar da resistência do chamado “centrão”. Os mais pessimistas dizem que não vai dar em nada – ou melhor, vai dar em pizza. Deputados sob suspeita de manipular os contratos das empreiteiras se defendem com as versões mais exóticas. Um deles diz que acumulou grande fortuna pessoal graças à loteria federal. Ele diz que ganhou 56 vezes na loteria em um único ano. Os jornalistas fazem as contas e chegam à conclusão de que, pela probabilidade matemática para ganhar, ele teria de desembolsar 17 milhões, em dólar, para ter chance de virar um milionário. Apelidam a investigação de “CPI dos Anões do Orçamento”. O nome vem da constatação de que os principais suspeitos da corrupção são do chamado “baixo clero”, ou seja, deputados sem grande expressão política.
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Depois de mais de 100 dias de suspeita, o amigo do presidente da República volta ao poder. A CPI do Orçamento o isenta e conclui que as acusações de corrupção são falsas. Ele é considerado inocente. É um fato inédito na história da República brasileira. Geralmente, os acusados de corrupção ou são condenados ou somem do noticiário político. O que mais chama a atenção é que ele se afastou de vontade própria para não prejudicar o andamento das pautas de interesse do governo no Congresso Nacional. Henrique Hargreaves volta a ser ministro-chefe da Casa Civil, empossado pelo próprio presidente Itamar Franco. Este, por sua vez, acolhe de volta Hargreaves e declara que em momento algum duvidou da honestidade dele. Isso não atenua as derrotas do Executivo no Congresso e ameaça a aprovação do Fundo Social de Emergência. O fato é que o ministro perde uma parte do seu poder de diálogo com o Congresso, porque se desentendeu tanto com seus colegas no ministério como com as lideranças políticas.(Foto: Agência Brasil)

HERÓDOTO BARBEIRO
Heródoto Barbeiro é jornalista do Record News, R7 e Nova Brasil (89.7), além de autor de vários livros de sucesso, tanto destinados ao ensino de História, como para as áreas de jornalismo, mídia training e budismo. Apresentou o Roda Viva da TV Cultura e o Jornal da CBN. Mestre em História pela USP e inscrito na OAB. Acompanhe-o por seu canal no YouTube “Por dentro da Máquina”
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