O TEMPO de quem espera

tempo

Há tempos que não se medem em relógios. Medem-se em angústia, em expectativa, em vida suspensa. Vivemos numa sociedade que aprendeu a dividir o tempo em fatias desiguais. Não por maldade explícita, mas por costume. Por organização. Por uma lógica que se repete tanto que passa a parecer natural. O problema é que, quando o tempo se naturaliza, ele deixa de ser questionado — e tudo aquilo que ele esmaga passa a ser visto como dano colateral.

Para alguns, o tempo é ferramenta. Para outros, é sentença. Para o médico, a fila é parte do cenário. Uma consequência previsível do sistema de saúde, da demanda excessiva, da falta de profissionais, dos limites estruturais. A demora se torna um dado técnico, algo que se explica em reuniões, relatórios e justificativas administrativas. O atraso não é pessoal. É sistêmico. É “normal”.

Para quem espera, o tempo não é conceito. É corpo. É o joelho que não dobra mais, o peito que aperta, o exame que não chega, o diagnóstico que se arrasta. Cada dia é vivido com um tipo particular de cansaço: o de não saber se haverá amanhã com tratamento, com cuidado, com resposta. Enquanto isso, o relógio institucional segue funcionando — sempre atrasado, mas funcionando. E quando alguém morre na fila, a tragédia raramente encontra um responsável. O sistema não sente culpa. O tempo não pede desculpas.

Não se trata de acusar o profissional, mas de revelar o abismo. O médico fala a língua da gestão. O paciente vive a gramática da sobrevivência. São idiomas que raramente se traduzem. Quando muito, se toleram. Algo parecido acontece no balcão da assistência técnica. Para o técnico de TI, o celular quebrado é apenas mais um chamado. Há protocolos, ordens de serviço, prazos “razoáveis”. Nada fora do script. A peça não chegou. O sistema está congestionado. Semana que vem, talvez.

Para quem depende daquele aparelho, o mundo encolhe. Não é só um objeto. É agenda, trabalho, banco, contato com a família, identidade digital, presença social. Sem o celular, a vida parece deslocada do tempo presente. Como se todos seguissem andando e alguém tivesse ficado parado no acostamento da modernidade.

O técnico resolve problemas. O usuário vive a ausência. E ninguém está exatamente errado — mas algo está profundamente desalinhado. A sociedade ensinou que certas esperas são aceitáveis. Outras, intoleráveis. Que alguns atrasos geram processos, multas, indignação coletiva; enquanto outros produzem apenas silêncio, resignação e frases prontas: “é assim mesmo”, “não tem o que fazer”, “o sistema é lento”.

Curiosamente, somos rápidos para nos indignar quando o tempo nos atinge diretamente. Um atraso de minutos no transporte vira revolta. Uma resposta que não chega no grupo de mensagens vira ansiedade. Um site fora do ar gera fúria. Mas somos lentos — muito lentos — para nos comover com o tempo que esmaga o outro, desde que não seja o nosso.

Talvez porque o tempo alheio seja sempre abstrato. A dor do outro nunca acontece no nosso corpo. Na escola, o tempo da aprendizagem raramente respeita o tempo do aluno. O currículo corre. A prova chega. Quem não acompanha fica para trás — e ainda recebe o rótulo de desinteressado, incapaz, indisciplinado. Pouco importa se o aluno vive um tempo emocional diferente, atravessado por dificuldades, carências, lutos silenciosos.

Na justiça, o tempo processual é “normalmente longo”. Para quem espera uma decisão, ele é corrosivo. Suspende projetos, paralisa vidas, prolonga conflitos. Mas o sistema chama isso de rito. De trâmite. De prazo legal. Assim vamos naturalizando violências temporais.

O mais perverso é que, com o tempo, deixamos de percebê-las como violência. Passam a ser vistas como destino, como regra do jogo, como algo imutável. O sofrimento vira parte do percurso. A espera, uma virtude forçada. Talvez o que nos falte não seja eficiência, mas escuta temporal. A capacidade de reconhecer que o tempo do outro não é exagero, nem drama, nem impaciência. É existência em curso.

Vivemos obcecados por produtividade, mas profundamente descuidados com a vida. Medimos resultados, mas ignoramos processos humanos. Criamos sistemas para funcionar, mesmo que as pessoas não consigam acompanhar o ritmo que eles impõem.

PARA OUTROS ARTIGOS DE AFONSO MACHADO CLIQUE AQUI

Normalizamos esperas que adoecem. Naturalizamos atrasos que paralisam sonhos. E ainda nos espantamos com a desigualdade das indignações. No fundo, não brigamos apenas por prioridades. Brigamos por reconhecimento. Porque quando o tempo do outro é sempre relativizado, minimizado ou deslegitimado, o que se perde não é só paciência. Perde-se vínculo. Perde-se empatia. Perde-se humanidade.

Talvez o maior atraso da nossa sociedade não esteja nas filas dos hospitais, nas assistências técnicas, nos tribunais ou nas escolas. Talvez esteja na demora em compreender que todo tempo vivido é urgente para quem o vive. E enquanto não aprendermos isso, continuaremos muito eficientes e profundamente atrasados como sociedade.(Foto: Pikist)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO 

É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.

VEJA TAMBÉM

PUBLICIDADE LEGAL É NO JUNDIAÍ AGORA

ACESSE O FACEBOOK DO JUNDIAÍ AGORA: NOTÍCIAS, DIVERSÃO E PROMOÇÕES