Há dias em que o mundo parece respirar diferente. Não porque algo espetacular aconteceu, mas porque nós mudamos um pouco de lugar por dentro. É como se, de repente, o mesmo caminho tivesse outra textura, a mesma paisagem exibisse tons antes invisíveis. Tempos novos não chegam com fanfarra. Chegam mansos, quase tímidos, pedindo licença para entrar. E só se instalam quando aceitamos rever aquilo que, por muito tempo, chamamos de definitivo.
A vida adulta costuma ser injustamente acusada de endurecer as pessoas. Como se crescer significasse, necessariamente, fechar portas, reduzir sonhos, escolher o previsível. Mas talvez o problema não esteja na maturidade em si, e sim na pressa em transformar experiências em certezas absolutas. O adulto equilibrado não é aquele que sabe tudo, mas aquele que aprendeu a sustentar perguntas. É quem entende que estabilidade não é rigidez, e que segurança não se constrói evitando riscos, mas escolhendo quais valem a pena.
Tempos novos pedem outra postura diante de nós mesmos. Pedem que façamos as pazes com a ideia de recomeço. Recomeçar não é negar o que foi vivido; é reorganizar o que ficou. É olhar para as próprias marcas sem transformá-las em identidade fixa. Há dores que ensinam, outras apenas cansam. A maturidade talvez esteja em discernir entre ambas, permitindo que o aprendizado fique e que o peso desnecessário seja deixado pelo caminho.
Novas perspectivas surgem quando abandonamos a ilusão de controle total. A vida adulta nos mostra, com certa delicadeza cruel, que planejar é importante, mas insuficiente. Há encontros que não cabem em agendas, mudanças que não respeitam cronogramas, afetos que não obedecem à lógica. E tudo bem. Aceitar isso não nos torna frágeis; ao contrário, nos torna mais inteiros. A coragem adulta não está em dominar o futuro, mas em confiar na própria capacidade de atravessá-lo.
Falar em novos amores, nesse contexto, não se limita ao amor romântico — embora ele também mereça espaço. Novos amores incluem novas formas de gostar de si, novos vínculos de amizade, novos interesses que surgem quando achávamos que já não havia tempo para descobertas. Amar, em tempos novos, é menos sobre posse e mais sobre presença. É aprender a compartilhar caminhos sem exigir que sejam idênticos. É aceitar que o outro não vem para nos completar, mas para caminhar ao lado, com sua própria história, seus próprios medos e suas próprias luzes.
O amor maduro não se apressa. Ele observa, escuta, respeita. Não se alimenta de promessas grandiosas, mas de gestos consistentes. E, sobretudo, não exige que sejamos quem não somos. Em tempos novos, amar é um ato de coragem silenciosa: a coragem de se mostrar como se é, mesmo sabendo que isso inclui imperfeições, contradições e limites. Talvez seja esse tipo de amor que realmente nos transforme — aquele que não nos tira do eixo, mas nos ajuda a encontrá-lo.
Mas não há amor sem risco. E aqui mora uma das maiores aprendizagens da vida adulta: proteger-se demais também machuca. Evitar todo risco pode parecer prudente, mas, com o tempo, cobra um preço alto — o da estagnação afetiva e existencial. Novos tempos nos convidam a arriscar com consciência. Não se trata de imprudência, mas de disponibilidade. Disponibilidade para tentar de novo, para confiar um pouco mais, para sair do conhecido quando ele já não faz sentido.
Assumir riscos, nesse sentido, é um exercício de autoconhecimento. É saber onde podemos ceder e onde precisamos permanecer firmes. É reconhecer nossos limites sem transformá-los em muros intransponíveis. A coragem adulta não grita; ela sussurra. Ela aparece quando escolhemos conversas difíceis em vez de silêncios confortáveis, quando preferimos a verdade possível à ilusão agradável, quando seguimos adiante mesmo sem garantias.
Tempos novos também exigem uma revisão do que entendemos por sucesso. Durante muito tempo, fomos ensinados a associá-lo à produtividade, ao reconhecimento externo, à acumulação de conquistas visíveis. Mas chega um momento em que essas medidas se mostram insuficientes. O sucesso passa a ter outra escala: dormir em paz, manter relações honestas, sentir que a própria vida faz sentido, ainda que imperfeita. Essa redefinição não é desistência; é amadurecimento.
Novas perspectivas nos permitem enxergar valor no simples. No café tomado sem pressa; na conversa que não resolve tudo, mas acolhe; no dia comum que não será lembrado por grandes feitos, mas que sustenta a vida. A maturidade nos ensina que não precisamos viver grandes histórias o tempo todo. Precisamos viver histórias verdadeiras. E isso já é bastante.
A vida adulta equilibrada não é aquela livre de conflitos, mas aquela que aprendeu a dialogar com eles. Que entende que equilíbrio não é ausência de tensão, mas capacidade de ajuste. Há dias de entusiasmo e dias de cansaço; ambos fazem parte. O problema não está em oscilar, mas em negar uma das partes. Tempos novos pedem essa integração: reconhecer forças e fragilidades como dimensões legítimas da mesma pessoa.
Descobrir-se de novo, em qualquer fase da vida, é um privilégio. E também um desafio. Exige humildade para admitir que ainda há o que aprender, e coragem para não se reduzir às versões antigas de si mesmo. Muitas vezes, somos fiéis a imagens que já não nos representam. Libertar-se delas pode causar medo, mas também alívio. É nesse espaço que as novas perspectivas florescem.
Há uma beleza discreta em perceber que não precisamos ter todas as respostas agora. Que algumas perguntas merecem tempo. Que a vida não é um projeto a ser finalizado, mas um processo a ser vivido. Tempos novos nos convidam a desacelerar o julgamento — sobre os outros e sobre nós mesmos. A substituir a pressa por escuta, a rigidez por curiosidade, o medo por prudência ativa.
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No fundo, talvez seja disso que se trate: aprender a viver com mais inteireza. Amar com mais verdade. Arriscar com mais consciência. Sustentar a própria história sem se aprisionar a ela. Tempos novos não prometem facilidades, mas oferecem algo ainda mais valioso: a chance de viver de forma mais alinhada com quem nos tornamos.
E se há algo que esses tempos nos ensinam, é que nunca é tarde para ajustar a rota. Enquanto houver disposição para olhar para dentro e coragem para seguir adiante, sempre haverá novas perspectivas à espera. Não como garantia de felicidade permanente, mas como possibilidade real de uma vida mais honesta, mais viva e mais humana.(Foto: Julia Avamotive/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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