Há mudanças que não fazem barulho. Não chegam acompanhadas de anúncios, nem pedem testemunhas. Acontecem devagar, quase em silêncio, como quem reorganiza uma casa por dentro enquanto o mundo segue igual do lado de fora. Tempos novos, muitas vezes, começam assim: não com grandes decisões externas, mas com um deslocamento interno difícil de explicar e impossível de ignorar. Algo em nós pede revisão. Algo em nós já não aceita continuar do mesmo jeito.
A vida adulta traz esse chamado em momentos inesperados. Às vezes surge no cansaço que não passa com descanso. Outras vezes, na sensação estranha de estar vivendo corretamente, mas não verdadeiramente. É quando percebemos que cumprir expectativas não é o mesmo que habitar a própria existência. Tempos novos, nesse sentido, não exigem pressa — exigem honestidade. Uma honestidade silenciosa, sem espetáculo, voltada mais para dentro do que para fora.
Novos amigos aparecem quando estamos dispostos a nos mostrar de forma menos defensiva. A maturidade, embora traga critérios mais claros, também pode nos tornar excessivamente cautelosos. Vamos selecionando tanto, protegendo tanto, que corremos o risco de não deixar ninguém entrar. Mas há encontros que só acontecem quando baixamos a guarda — não por ingenuidade, mas por confiança na própria capacidade de lidar com o que vier. Amizades adultas não nascem da urgência; nascem do reconhecimento. Do olhar que diz: “há algo em você que conversa comigo”.
Esses novos amigos, muitas vezes, não sabem da nossa história inteira. E talvez seja exatamente isso que os torna possíveis. Eles nos encontram no agora, não no passado. Não exigem explicações longas, nem cobram versões antigas de quem fomos. Caminham conosco a partir do ponto em que estamos. Em tempos novos, amizades se tornam menos sobre presença constante e mais sobre presença verdadeira. Menos quantidade, mais densidade. Menos obrigação, mais escolha.
Novas aventuras, por sua vez, nem sempre envolvem deslocamentos geográficos. Às vezes, a aventura é permanecer. É enfrentar conversas adiadas, silêncios incômodos, decisões que pedem responsabilidade emocional. A ideia romântica de aventura costuma estar ligada ao externo, ao movimento visível. Mas a vida adulta revela que as maiores travessias acontecem dentro. Mudar um padrão antigo, romper um ciclo repetido, sustentar uma escolha difícil — tudo isso exige coragem real, embora discreta.
Tempos novos pedem novas atitudes. Não aquelas exibidas como virtude, mas as praticadas no cotidiano, longe de aplausos. A atitude de escutar mais antes de reagir. De reconhecer limites sem culpa. De dizer “não” quando necessário e “sim” quando possível. De assumir a própria história sem usá-la como desculpa. A mudança interior começa quando deixamos de terceirizar a responsabilidade pelo que sentimos e passamos a cuidar do que fazemos com isso.
Novos amores, nesse contexto, surgem menos como promessa de salvação e mais como possibilidade de partilha. Amar, na vida adulta, deixa de ser fuga e passa a ser escolha. Escolha de estar, de cuidar, de permanecer quando é possível e de ir embora quando é necessário. O amor maduro não nos arranca de nós mesmos; ele nos devolve. Ele não exige versões idealizadas, mas presença sincera. E, sobretudo, não acontece sem o risco de sentir.
Arriscar, aqui, não significa perder o juízo, mas abrir mão de algumas certezas rígidas. Significa aceitar que não há garantias absolutas — nem no amor, nem na amizade, nem na vida. A coragem adulta não ignora o medo; aprende a caminhar com ele. Há riscos que machucam, sim, mas há riscos que salvam. Permanecer onde já não há verdade também é um risco, ainda que disfarçado de segurança.
A intenção de mudança interior não nasce da insatisfação constante, mas da escuta atenta. Escuta do corpo, que sinaliza quando algo pesa demais. Escuta das emoções, que insistem quando são ignoradas. Escuta da própria consciência, que pede coerência entre o que se vive e o que se acredita. Tempos novos não exigem que nos reinventemos por completo, mas que alinhemos o que fazemos com o que somos — ou com o que estamos nos tornando.
Há um tipo de maturidade que não se mede pela idade, mas pela disposição de rever-se. Rever escolhas, rever posturas, rever relações. Não para viver em permanente dúvida, mas para não se cristalizar. A rigidez pode até parecer força, mas, na prática, costuma ser medo. Flexibilidade, ao contrário do que se pensa, exige coragem. Exige abrir espaço para o novo sem desrespeitar o que já foi vivido.
Em tempos novos, aprendemos que equilíbrio não é estabilidade absoluta. É movimento consciente. É saber quando avançar e quando recolher-se. Quando insistir e quando soltar. A vida adulta equilibrada não elimina contradições; aprende a conviver com elas. Não promete felicidade constante, mas oferece sentido. E sentido, muitas vezes, nasce da coragem de fazer mudanças pequenas, porém profundas.
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Há algo profundamente humano em admitir que ainda estamos aprendendo. Que ainda erramos. Que ainda desejamos. Que ainda sentimos medo. Tempos novos não nos pedem perfeição — pedem presença. Presença nas escolhas, nos vínculos, nos silêncios. Pedem que paremos de viver no automático e passemos a habitar a própria vida com mais atenção.
No fim, talvez tempos novos sejam menos sobre o que acontece fora e mais sobre como nos posicionamos por dentro. Novos amigos, novas aventuras, novas atitudes só se sustentam quando há intenção verdadeira de mudança interior. Quando aceitamos que crescer não é endurecer, mas aprofundar. E que a maior aventura da vida adulta talvez seja essa: tornar-se, dia após dia, alguém um pouco mais consciente, mais disponível e mais inteiro.(Foto: Andrea Piacquadio/Pexels)

AFONSO ANTÔNIO MACHADO
É docente e coordenador do LEPESPE, Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte, da UNESP. Leciona na Faculdade de Psicologia UNIANCHIETA. Mestre e Doutor pela UNICAMP, livre docente em Psicologia do Esporte, pela UNESP, graduado em Psicologia, editor chefe do Brazilian Journal of Sport Psychology.
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